
"Eu olho para o portão e ainda espero minha filha chegar". Essa é a frase que resume uma dor que perdura por três anos e carrega o peso da saudade de uma geração inteira da mesma família que foi exterminada. Naquele janeiro de 2023, o sumiço da cabeleireira Elizamar da Silva, de 37 anos, e dos três filhos — Gabriel, de 7, e os gêmeos Rafael e Rafaela, de 6 — deu início a uma sequência de descobertas que, em poucos dias, revelaria uma trama violenta, planejada e executada com requintes de crueldade.
O que começou como um caso de desaparecimento rapidamente se transformou em uma investigação de múltiplos homicídios, com desdobramentos em diferentes cidades e uma sucessão de cenas que chocaram até mesmo investigadores experientes. Elizamar e as crianças desapareceram na noite de 12 de janeiro, após deixarem o salão de beleza da família, na Asa Norte. Eles seguiriam de carro rumo à chácara do sogro, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, de 54 anos, em uma viagem que, à época, parecia rotineira. A ida teria sido motivada por um pedido do marido de Elizamar, Thiago Belchior, de 30 anos.
O que a família não sabia, no entanto, é que o encontro fazia parte de uma emboscada cuidadosamente arquitetada. Nelita de Jesus, 73 anos, mãe da cabeleireira, relembra, com pesar, os últimos dias antes do crime. Segundo ela, pequenos gestos da filha ganharam outro significado com o passar do tempo, como se anunciassem uma despedida silenciosa. "Ela me ligou e disse que estava com muitos clientes (justificando que não iria passar o Natal com a família). E ela não veio mesmo. Aquilo ficou no meu coração", relembra.
O que antes parecia ser apenas um sentimento ruim, logo se transformou em tragédia. Eliene da Silva, 46 anos, irmã de Elizamar, foi quem recebeu as primeiras ligações de parentes e começou a tentar localizar a irmã. Contatada pelas autoridades, a mulher foi até uma rodovia localizada no município de Cristalina (GO). No acostamento, havia a carcaça de um carro carbonizado no acostamento. "Chegamos lá e vimos que era o carro dela. Daí para frente foi só tragédia", diz emocionada.
Menos de 24 horas depois, outro veículo incendiado foi localizado em Unaí (MG), desta vez com os corpos da sogra de Elizamar, Renata Belchior, de 52 anos, e da cunhada, Gabriela Belchior, de 25. A cada nova descoberta, o caso ganhava contornos ainda mais macabros, revelando que o número de vítimas era maior do que se imaginava. As primeiras pistas levaram policiais civis da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá) até Gideon Batista de Menezes, 58, e Horácio Carlos Ferreira Barbosa, de 49 anos.
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As investigações, posteriormente, revelaram que Gideon havia sido o mentor de todo o crime. Segundo a polícia, ele planejou a execução com o objetivo de eliminar toda a linha sucessória de Marcos, afim de se apropriar de uma chácara, avaliada em R$ 2 milhões, que pertenceria ao homem. Propriedade da qual havia tomado conhecimento bem antes do episódio.
Marcos e ele se conheceram ainda na década de 1990, quando estiveram presos na mesma unidade do Complexo Penitenciário da Papuda. Após deixarem o sistema prisional, mantiveram contato, com Marcos chegando a oferecer um lote a Gideon em sua propriedade. Tomado pela ganância, o assassino começou a recrutar comparsas e planejar a trama.
Trilha de corpos
Segundo os depoimentos dos assassinos, a sequência de mortes começou a ser executada ainda em dezembro de 2022, logo após o Natal. Em 28 de dezembro de 2022, Marcos, a esposa, Renata, e a filha do casal, Gabriela, foram surpreendidos, na chácara em que moravam, por uma ação que simulava um assalto. Segundo as investigações, Carloman dos Santos, 30 anos, e um adolescente participaram diretamente da abordagem. Gideon Batista de Menezes e Horácio Carlos, que estavam na propriedade, se fizeram de vítimas da situação.
Durante a ação, Marcos teria reagido e acabou levando um tiro na nuca. Em seguida, as vítimas foram amordaçadas, vendadas, amarradas e levadas a um cativeiro em Planaltina. No local, conforme apurado, o corpo de Marcos foi esquartejado pelos envolvidos antes de ser enterrado. A perícia ainda apontaria que ele estava vivo no momento da mutilação.
Dias depois, em 4 de janeiro de 2023, os suspeitos utilizaram o celular de Marcos para atrair novas vítimas. Cláudia Regina (ex-companheira de Marcos) e a filha do casal, Ana Beatriz, foram convencidas a aceitar ajuda para uma mudança. A ação, novamente, reproduzia a encenação de um assalto. Ao chegarem ao local combinado, mãe e filha foram rendidas e levadas ao mesmo cativeiro em Planaltina, onde estavam Renata e Gabriela.
A escalada de violência avançou em 12 de janeiro, quando Thiago Belchior, filho de Marcos, passou a questionar o paradeiro do pai. Diante da pressão, o grupo decidiu antecipar o plano contra ele e o restante da família. Por meio de mensagens enviadas do celular de Marcos, Thiago foi atraído até a chácara, com o pedido para que levasse a esposa e os filhos.
Ao chegar, ele foi dominado e levado ao cativeiro. Utilizando o celular dele, os assassinos atraíram também Elizamar e as três crianças — Gabriel, Rafael e Rafaela. Os quatro foram conduzidos de carro até Cristalina (GO). No local, foram estrangulados, e o veículo acabou incendiado. Dois dias depois, em 14 de janeiro, Renata e Gabriela foram retiradas do cativeiro e levadas até Unaí (MG). Assim como no caso anterior, ambas foram estranguladas, e o carro utilizado no transporte foi incendiado.
A série de execuções foi concluída em 15 de janeiro de 2023. Conforme as investigações, Thiago, Cláudia e Ana Beatriz foram assassinados a facadas por Carloman e Horácio. Os corpos foram ocultados em uma cisterna, em uma área rural de Planaltina, encerrando uma sequência de crimes marcada por planejamento, deslocamentos entre cidades e tentativas de ocultação das evidências.
Preço de uma vida
O caso, agora entendido como uma chacina, movimentou as autores locais. Em menos de uma semana, a polícia conseguiu prender Carloman dos Santos, de 27 anos, e Fabrício Silva Canhedo, de 37, apontados como participantes diretos das execuções. O cerco se fechou e, logo em seguida, Carloman dos Santos Nogueira, 30 anos, foi também capturado. Carlos Henrique Alves da Silva (conhecido como "Galego") foi o último a ser preso.
No entanto, mesmo com o encarceramento dos envolvidos, o caso continuou latente nos corações dos familiares das vítimas. Nelita diz que, mesmo com o passar dos anos, o sofrimento não diminuiu. "É uma dor no coração que não passa. Parece que estou vendo minha filha toda hora, meus netinhos", relata, emocionada. A perda, segundo ela, não atingiu apenas uma mãe, mas toda a família.
Um dos pontos que mais abalam a irmã é o fato de um dos principais acusados (Gideon) frequentar a casa da família com naturalidade, sendo considerado um "amigo". Questionada sobre a possibilidade de perdão, é direta: "Para mim, não tem perdão. Não pouparam nem as crianças, que não tinham nada a ver com isso. Queria que eles morressem da mesma forma", afirma. Questionada sobre a possibilidade de perdão, Nelita preferiu o silêncio.
Justiça
O julgamento, previsto para começar amanhã, deve reunir testemunhas, familiares e os próprios acusados em um processo que promete ser longo e marcado por forte carga emocional. Mais do que a responsabilização penal, a expectativa é que o caso traga algum tipo de reparação simbólica para uma tragédia que, mesmo após três anos, ainda ecoa na memória do Distrito Federal.
Nelita não esconde a revolta ao falar dos acusados e reforça o desejo por justiça diante do julgamento que se aproxima. Para ela, a responsabilização é essencial diante da gravidade do crime. "Eles vão ter que pagar pelo que fizeram. Existe a justiça de Deus e a justiça dos homens", afirma, em tom firme. A expectativa é de que o processo represente, ao menos, uma resposta diante da violência sofrida.
A irmã de Elizamar pretende acompanhar de perto o desfecho. "Esses três anos foram duros para todos nós. Mas dessa vez eu quero estar lá. Estou mais forte", afirma. Para ela, o processo precisa representar uma resposta firme diante da violência cometida. "Eu espero que a justiça seja feita de verdade. Não só por mim e por minha mãe, mas por toda a nossa família".
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