Investigação

Quadrilha desvia R$ 22 mi em remédios de alto custo

Operação Alto Custo mira organização que fraudava notas fiscais e revendia medicamentos oncológicos

Esquema criminoso movimentou R$ 22 milhões com fármacos ao custo de até R$ 35 mil a unidade -  (crédito: Divulgação/PCDF)
Esquema criminoso movimentou R$ 22 milhões com fármacos ao custo de até R$ 35 mil a unidade - (crédito: Divulgação/PCDF)

A Polícia Civil (PCDF) investiga um esquema sofisticado de desvio e reinserção ilegal de medicamentos de alto custo no mercado brasileiro. Segundo os investigados, um grupo de 13 criminosos movimentou cerca de R$ 22 milhões em notas fiscais falsas de remédios. Voltados principalmente para terapias oncológicas, doenças autoimunes e casos de transplante, os fármacos envolvidos estão entre os mais caros e sensíveis do sistema de saúde, exigindo controle rigoroso de origem, armazenamento e transporte. Dois integrantes seguem foragidos.

Batizada de Operação Alto Custo, a ação da 10ª Delegacia de Polícia (Lago Sul) revelou a existência de uma engrenagem estruturada para o que autoridades classificam como “lavagem de medicamentos”. Na prática, produtos de alto valor eram retirados ilegalmente de distribuidoras e, posteriormente, reinseridos no mercado formal por meio de empresas de fachada. Essas companhias simulavam operações legais, utilizando fraudes fiscais e contábeis para emitir notas e dar aparência de regularidade a medicamentos de origem criminosa. O destino final eram instituições de saúde.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O esquema explorava fragilidades na cadeia logística farmacêutica. Funcionários cooptados desviavam os medicamentos ainda dentro das distribuidoras, escondendo-os em caixas destinadas ao descarte. A partir daí, os produtos eram retirados das instalações e entregues a intermediários, que ficavam responsáveis por reinseri-los no circuito comercial. A operação envolvia divisão de tarefas, planejamento prévio e articulação entre diferentes estados, indicando um nível elevado de organização.

A atuação da organização, segundo o delegado Laércio Rossetto, não se limitava a um único estado. “Identificamos uma organização criminosa com atuação no Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O líder está em Goiânia e segue foragido, com mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça do DF”, declarou. Há indícios de que o esquema seja ainda mais antigo. “Há indícios de que a estrutura atua em nível nacional desde 2020. Nossa investigação focou no período de um ano, mas o esquema pode ser mais antigo.”

  • O grupo criminosos deve enfrentar uma série de crimes, como receptação qualificada, furto qualificado, falsificação etc.
    O grupo criminosos deve enfrentar uma série de crimes, como receptação qualificada, furto qualificado, falsificação etc. Divulgação/PCDF
  • Os suspeitos conseguiram movimentar cerca de R$22 milhões em um ano
    Os suspeitos conseguiram movimentar cerca de R$22 milhões em um ano Divulgação/PCDF

Entre os medicamentos desviados estão alguns dos mais avançados e caros do mercado. Tratamentos como o Venclexta, utilizado contra cânceres sanguíneos, podem custar cerca de R$ 37 mil por unidade. O Libtayo, imunoterápico indicado para certos tipos de câncer, chega a R$ 32 mil. Já o Imbruvica, voltado para leucemias e linfomas, pode ultrapassar R$ 40 mil. Outros fármacos, como Reblozil e Tagrisso, também figuram na lista, todos essenciais para pacientes em condições delicadas e que dependem da eficácia plena desses medicamentos para controle da doença.

A PCDF até mesmo chegou a apreender uma carga de 493 caixas de Upadacitinibe — usado para tratar doenças autoimunes inflamatórias moderadas a graves, como artrite reumatoide, dermatite atópica (para pacientes a partir de 12 anos) e retocolite ulcerativa. A medicação, avaliada em R$ 4 milhões, estava em uma transportadora no Aeroporto Internacional de Brasília – Presidente Juscelino Kubitschek.

 

Risco real

Rossetto também chamou atenção para os riscos sanitários envolvidos na manipulação irregular desses produtos. “Outro agravante é que muitos desses medicamentos exigem refrigeração. Quando armazenados de forma inadequada, podem perder a eficácia, tornar-se inócuos ou até tóxicos, colocando pacientes em risco”, disse. O impacto direto nos pacientes, no entanto, ainda está em fase de apuração. “Ainda não mensuramos o impacto direto, mas sabemos que a quebra da cadeia de frio pode comprometer o medicamento.”

As investigações policiais reuniram um conjunto sólido de provas que detalham a atuação de uma organização criminosa estruturada para a prática sistemática de crimes. Os suspeitos podem responder por crimes como furto qualificado por abuso de confiança e concurso de pessoas, além de receptação qualificada no âmbito comercial. Também foram listadas condutas de falsificação, corrupção e adulteração de produtos destinados a fins terapêuticos ou medicinais e  organização criminosa.

Procurada pelo Correio, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que “tem adotado uma série de medidas sobre o tema e anunciou um plano de ações para enfrentamento do problema”. Questionada sobre a operação realizada ontem, a autarquia respondeu que “informações específicas sobre a ação de hoje e sobre as empresas, as informações serão dadas pela PCDF”.

Em nota, a farmacêutica AbbVie afirmou que medicamentos fora da cadeia regular de distribuição devem ser considerados inseguros para uso. “De acordo com seus padrões globais de qualidade e segurança, qualquer produto que seja desviado, roubado ou removido da cadeia regular de suprimentos e da rede de distribuição autorizada é considerado comprometido”, informou a empresa, em referência a fármacos como o Venclexta® (venetoclax) e o Rinvoq® (upadacitinibe).

A companhia também orientou profissionais de saúde e instituições a adotarem medidas imediatas em caso de suspeita. “Ao identificar qualquer suspeita sobre a origem ou integridade de medicamentos, o uso deve ser imediatamente suspenso”, destacou, acrescentando que a empresa deve ser acionada por meio de seus canais oficiais. A AbbVie afirmou ainda que permanece à disposição das autoridades e reforçou “seu compromisso com a segurança dos pacientes e com a integridade da cadeia de fornecimento de medicamentos”.

 

Quais medicamentos foram lavados?

  • VENCLEXTA (utilizado no tratamento de cânceres sanguíneos, matando as células tumorais)
  • LIBTAYO (um anticorpo monoclonal humano utilizado para imunoterapia no
  • tratamento de certos tipos de câncer, como carcinoma)
  • REBLOZIL (o princípio ativo é o luspatercepte que aumenta a produção de hemácias, sendo,
  • portanto, utilizado para reduzir a necessidade de transfusões de sangue em pacientes)
  • IMBRUVICA (é indicado para tratamento de certos tipos de cânceres do sangue, como
  • a leucemia linfocítica crônica, sendo anticâncer e de uso oral em cápsulas)
  • TAGRISSO (cujo princípio ativo é indicado para o tratamento de câncer do pulmão)

 

  • Google Discover Icon
postado em 18/04/2026 06:00
x