HISTÓRIA E SOCIEDADE

As luzes do Cine Lara: cinema de rua em Taguatinga marcou geração

Muito mais que um cinema em Taguatinga, o Cine Lara ajudou a construir a memória cultural da cidade, revelando histórias, afetos e lembranças que permanecem vivas

Antes das grandes salas em shopping centers, os cinemas de rua faziam parte da rotina das cidades no Distrito Federal. Em Taguatinga, o Cine Lara foi um dos principais espaços desse período e marcou gerações de moradores. Inaugurado em 1978, com cerca de 600 lugares, o cinema ficava no Setor Central, na região da C12. O espaço funcionava no térreo de um prédio que acabou ficando conhecido pelo nome do próprio cinema. O Cine Lara também ficava localizado ao lado do Cine Paranoá, outro cinema tradicional da cidade.

Entre as décadas de 1970 e 1990, os cinemas de rua eram um dos principais pontos de lazer. Em Taguatinga, o Cine Lara reunia famílias, amigos e casais em sessões que iam além do filme.  A programação incluía produções nacionais e estrangeiras. Para muitos moradores, ir ao cinema fora da cidade era caro e difícil. Por isso, o Cine Lara tinha um papel importante ao garantir acesso à cultura perto de casa.

Reinauguração e tentativa de retomada

Após permanecer alguns anos fechado devido a problemas técnicos e de patrimônio, período em que chegou a abrigar uma igreja da Assembleia de Deus, as luzes do Lara voltavam ao centro de Taguatinga em agosto de 1995, com o mesmo propósito de lazer, mas um pouco diferente. O Cine Lara, descrito por muitos como o maior da região, reabria a uma plateia com 640 lugares, depois de um investimento de R$ 70 mil realizado pelo Grupo Alvorada, os novos donos, em parceria com a Administração Regional de Taguatinga, que não visavam somente o lucro, e sim a ocupação de um vácuo cultural e o resgate de memórias. 

Reprodução/Correio Braziliense - Sala após reforma no Cine Lara

Ir ao Cine Lara era um ritual que começava muito antes da projeção. O convite vinha dos grandes cartazes coloridos na fachada, que disputavam a atenção com o cheiro da pipoca de carrinho vendida na calçada. Era um tempo de lanterninhas, ingressos de papel e bombonieres simples, onde o charme não estava no luxo tecnológico, mas na conexão com a rua e com a cidade. Frequentador na juventude, Donizete José Batista lembra que, apesar da existência de outras salas na cidade, o Lara se destacava. “Era novinho em folha”, recorda.

Com ingressos acessíveis, ainda mais baratos às quartas-feiras, o cinema ampliava o acesso à cultura e atraía públicos diversos. Com novos e luxuosos aparelhos de ar-condicionado e o som Dolby Stereo, que apesar de não ser o mais tecnológico, era o mais utilizado em cinemas de rua, o espaço foi reinaugurado com o filme Louco por Cinema, do cineasta André Luiz Oliveira, que destacou a importância da iniciativa em um período de crise do setor.

Em depoimentos dados ao Correio na época, as pessoas transmitiam alegria e satisfação pela volta de um espaço de lazer que já era raro, mas também tristeza pelo fato do cinema ter se tornado uma Igreja Universal: “Eu só vim aqui hoje porque não é mais uma igreja”, brincou Elisângela Oliveira, estudante na época.

Era muito comum as escolas fazerem passeios para promover o lazer das crianças. Foi assim que muitos jovens conseguiram conhecer o cinema pela primeira vez na vida, segundo depoimentos recolhidos pelo Correio em reportagens da época.

Givaldo Barbosa/CB/D.A Press - 24/02/1991. Crédito: Givaldo Barbosa/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Entrada do Cine Lara, em Taguatinga.

Quem viveu o Cine Lara

As lembranças de quem frequentou o cinema mostram a importância que ele teve na vida da cidade e para quem pode vivenciar. Eliana Moraes lembra ao Correio da primeira vez que entrou em uma sala de cinema. Foi no Cine Lara, onde assistiu ao filme O exterminador do futuro 2. Depois que o filme acabou, Eliana relembra que junto de seus amigos decidiram ficar escondidos dos lanterninhas dentro da sala para assistir novamente e viver a experiência mais uma vez: "A sensação era tão boa que ninguém queria ir embora".

O cineasta Antônio Balbino também tem uma memória marcante do Cine Lara. Ele conta que foi ali que teve a primeira experiência em uma sala de cinema comercial, ainda adolescente. Na época, o ingresso era caro. Mesmo assim, decidiu “matar aula” para assistir ao filme, aos 16 anos. 

“Foi o primeiro cinema comercial que fui na vida. Dei um jeito de sair para ver esse filme. Não gosto nem de revelar qual era, porque acho que foi o pior filme que eu já vi”, afirma. Para Balbino, o contato com a sala escura, a projeção e o ambiente coletivo despertaram um novo olhar sobre o cinema. “Foi a partir dali que comecei a questionar o que eu estava vendo. Não era só assistir, era pensar o filme, a forma como ele era mostrado”, diz.

Para Antônio, o Cine Lara representava mais do que entretenimento. Era uma das poucas possibilidades de acesso ao cinema fora do eixo central. “Era a chance de ver filmes além da televisão. Isso, para a cidade, tinha um valor enorme”, completa.

Maria Pinheiro também guarda lembranças marcantes. Uma delas é quando levou os filhos para assistir a uma apresentação da própria Xuxa Meneghel. Ela conta que ficou cerca de seis horas na fila. O cinema estava cheio de famílias e crianças, o que mostra o tamanho do público que o espaço reunia.

A professora Valéria de Sousa lembra como ir ao cinema transformava a rotina. Criada em uma chácara, ela descreve as idas ao Cine Lara como eventos especiais. “Minha mãe me vestia com roupa de festa para as matinês”, conta.

Os sábados à tarde eram dedicados a filmes populares, como os dos Trapalhões e da Xuxa. A fila extensa e até o som do projetor compunham uma experiência que, segundo ela, era mágica. Após o fechamento do cinema, em 1998, e a transformação em espaço religioso, Valéria afirma que a nostalgia permanece.

Entre romances, rotina e bastidores

Para o enfermeiro Fernando Raulino, o Cine Lara também era palco da vida amorosa dos jovens da época. “As garotas da época eram muito vigiadas por seus pais”, conta. “O escurinho das últimas cadeiras era onde os casais se encontravam” relembra.

Ainda assim, havia controle. O lanterninha fiscalizava o comportamento e podia advertir ou até retirar frequentadores: “Quando a coisa ficava mais quente, sempre aparecia um lanterninha jogando a luz na cara”, relembra Fernando.

A programação refletia o perfil da população, com forte presença de migrantes nordestinos. Filmes de faroeste, conhecidos como “bang bang”, eram sucesso de público, assim como romances exibidos aos domingos, com filas que chegavam a virar a esquina.

O ex-lanterninha Jailton Santarém Brito acompanhou de perto o funcionamento e a decadência do cinema. Ele conta ao Correio que a função se dava por conta das frequentes quedas de energia, que geravam confusão entre os espectadores. Nessas situações, os funcionários usavam lanternas para organizar o público.

Apesar dos desafios, o trabalho representava independência financeira. “Recebíamos no fim da sessão e já saíamos para a farra”, lembra. Com o passar do tempo, o Cine Lara tentou sobreviver exibindo filmes pornográficos, o que afastou famílias e alterou o perfil do público. Para ele, essa fase marcou o início do fim.

Reprodução - Programação do Cine Lara

Um legado para a memória de Taguatinga

O Cine Lara fechou as portas em 1998. O encerramento acompanhou o fim dos cinemas de rua, que foram sendo substituídos por salas em shopping centers. 

No passado, o Cine Lara funcionava como um espaço acessível e próximo da população. A localização central facilitava o acesso de moradores de Taguatinga e de regiões próximas, como Ceilândia. Muitas pessoas iam a pé ou em trajetos curtos de ônibus.

Após o fechamento, o prédio foi ocupado por igrejas por um período. Com o tempo, deixou de ter uso regular. O Cine Lara encerrou as atividades como um dos últimos cinemas de rua de Taguatinga, mas a história continua presente na memória dos moradores.

Além de uma sala de exibição, o espaço foi um ponto de encontro onde cultura, cotidiano e afetos se cruzavam. Para muitos, lembrar do Cine Lara é lembrar de um tempo em que o cinema fazia parte da vida da cidade.

Getulio Romão - Inauguração do Cine Lara

*Estagiárias sob supervisão de Ronayre Nunes

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Getulio Romao - Cine Lara - Taguatinga
Mila Petrillo/CB/D.A Press - 24/03/1988. Crédito: Mila Petrillo/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Entrada do Cine Lara, no centro de Taguatinga.
Givaldo Barbosa/CB/D.A Press - 24/02/1991. Crédito: Givaldo Barbosa/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF. Entrada do Cine Lara, em Taguatinga.
Reprodução - Cine Lara
Reprodução - Cina Lara
Reprodução - Cine Lara