SEGURANÇA PÚBLICA

PM detalha mudanças na Rede de Vizinhos Protegidos na Asa Norte

Após identificar falhas de segurança e baixo índice de mensagens úteis, o 3º Batalhão da Polícia Militar suspende interações com moradores para reestruturar a estratégia no combate ao crime na Asa Norte

A Polícia Militar do Distrito Federal iniciou um processo de reestruturação da Rede de Vizinhos Protegidos na Asa Norte após identificar problemas que comprometeram a eficiência da ferramenta. A decisão ocorreu após a suspensão temporária da interação nos grupos de WhatsApp, que passaram a permitir apenas mensagens enviadas por administradores, no caso, todos militares da corporação.

Segundo o 3º Batalhão, a medida faz parte de uma avaliação mais ampla sobre a efetividade da rede e da contribuição para a segurança pública. Enquanto a participação dos moradores está limitada, a orientação oficial é que ocorrências sejam comunicadas diretamente pelo telefone 190 ou por um número específico do batalhão (99171-1307).

O que é a Rede de Vizinhos Protegidos

A Rede de Vizinhos Protegidos é uma estratégia de aproximação entre moradores e a Polícia Militar. O modelo se baseia na troca de informações e na colaboração entre comunidade e forças de segurança para prevenir crimes. Na Asa Norte, a iniciativa ganhou grande adesão. São 23 grupos de WhatsApp, que reúnem mais de 18 mil participantes. A proposta original é simples. Moradores de uma mesma área compartilham informações sobre situações suspeitas, problemas urbanos e outras questões que possam impactar a segurança local. A ideia é que essa comunicação permita respostas mais rápidas e direcionadas da polícia, além de fortalecer a convivência entre vizinhos.

Reprodução - Símbolo da RVP nos grupos de WhatsApp

Apesar da adesão expressiva, a Polícia Militar identificou que o grande volume de mensagens passou a prejudicar o funcionamento da rede. Um levantamento feito em apenas um dos grupos mostrou que, em um mês, foram registradas 1.738 mensagens. Dessas, apenas 54 estavam relacionadas diretamente à segurança pública. E somente 25 resultaram em atendimentos efetivos, com um único caso de prisão em flagrante.

Os dados indicam que a maioria das interações não tinha relação com o objetivo principal da rede. Segundo a PM, mensagens de natureza diversa, incluindo conteúdos políticos e assuntos gerais, dificultaram a identificação de situações urgentes. Esse excesso de informações irrelevantes acabou reduzindo a agilidade no atendimento de ocorrências reais.

Problemas de organização e segurança

Outro ponto identificado foi a falta de organização territorial dos grupos. Em alguns casos, moradores de quadras diferentes estavam reunidos no mesmo grupo, o que vai contra a proposta original da rede. Segundo a PM, a mistura de regiões dificulta a análise de ocorrências específicas e compromete a resposta rápida a situações locais, como a presença de pessoas suspeitas ou problemas de infraestrutura urbana.

A Polícia Militar também apontou falhas na segurança da informação. Em uma ocorrência recente envolvendo tráfico de drogas, um suspeito preso fazia parte de grupos da rede e tinha acesso a informações de 11 quadras diferentes. O caso acendeu um alerta sobre a necessidade de controle mais rigoroso na entrada e permanência de participantes nos grupos.

Reestruturação

Diante dos problemas, o 3º Batalhão iniciou, na segunda-feira da semana passada, um processo de requalificação da rede. A proposta é reorganizar os grupos de acordo com critérios territoriais, padronizar a comunicação e restringir as interações a temas ligados à segurança pública. Reuniões já foram realizadas com prefeitos de quadra para apresentar as novas diretrizes. A rede está em fase de reativação, seguindo parâmetros definidos pela corporação.

A Polícia Militar orienta que líderes comunitários que ainda não participaram do processo procurem o batalhão para regularizar os grupos. A expectativa é que, após a reestruturação, "a Rede de Vizinhos Protegidos volte a operar de forma mais organizada, segura e alinhada com seu propósito original".

ÍNTEGRA DA NOTA ENVIADA PELA POLÍCIA MILITAR AO CORREIO BRAZILIENSE

A Rede de Vizinhos Protegidos constitui uma importante estratégia de aproximação entre a comunidade e a Polícia Militar, baseada na cooperação mútua, no compartilhamento responsável de informações e na construção conjunta de soluções voltadas à prevenção criminal. Trata-se de uma iniciativa que parte do princípio de que a segurança pública é um dever do Estado, mas também uma responsabilidade compartilhada com a sociedade.

Na Asa Norte, a rede alcançou significativa adesão, contando com 23 grupos de WhatsApp e a participação de mais de 18 mil moradores.

Entretanto, a ampliação do número de participantes e o elevado volume de interações passaram a gerar desafios operacionais que impactam a efetividade da ferramenta. Como exemplo, em um único grupo, no período de um mês, foram registradas 1.738 mensagens, das quais apenas 54 estavam diretamente relacionadas à segurança pública e somente 25 resultaram em atendimentos concretos, culminando em 1 prisão em flagrante.

Esses dados evidenciam a necessidade de aperfeiçoamento do uso da plataforma, uma vez que a inserção de conteúdos alheios à finalidade da rede, inclusive mensagens de natureza diversa e, por vezes, de cunho político, compromete a agilidade na identificação e no atendimento de situações realmente relevantes e urgentes.

Além disso, foram identificadas inconsistências na configuração de alguns grupos, especialmente quanto à reunião de quadras geograficamente distintas em um mesmo ambiente virtual. Tal prática fragiliza a proposta original da Rede de Vizinhos Protegidos, que é fomentar a interação entre moradores de uma mesma área, permitindo respostas mais rápidas e contextualizadas a demandas específicas do território, como a presença de indivíduos ou veículos suspeitos e questões relacionadas à ambiência urbana (iluminação, poda de árvores, entre outros fatores de prevenção).

Outro ponto relevante diz respeito à segurança da própria rede. Em ocorrência recente na Asa Norte, que resultou na prisão de um indivíduo por tráfico de drogas, verificou-se que o autor integrava grupos da Rede de Vizinhos Protegidos, tendo acesso a informações sensíveis de 11 quadras distintas. O episódio reforça a importância de aprimorar critérios de controle, organização e gestão dos grupos, de modo a preservar a integridade da informação e a segurança dos participantes.

Diante desse cenário, o 3º Batalhão da Polícia Militar iniciou um processo estruturado de requalificação da Rede de Vizinhos Protegidos na Asa Norte, com o objetivo de alinhar seu funcionamento às diretrizes institucionais e elevar sua eficiência operacional.

As medidas em curso contemplam a reorganização territorial dos grupos, a padronização dos fluxos de comunicação e o direcionamento exclusivo das interações para temas relacionados à segurança pública. Como parte desse processo, o comando do batalhão já realizou reuniões com prefeitos de quadra para apresentação e alinhamento das novas diretrizes, estando a rede em fase de reativação dentro dos parâmetros normativos da Corporação.

A Polícia Militar orienta que prefeitos de quadra e síndicos que ainda não participaram desse processo procurem o 3º Batalhão para a devida adequação e reativação de seus grupos, contribuindo para o fortalecimento de uma rede mais organizada, segura e efetiva.

Por fim, destaca-se que o reforço do policiamento ostensivo na Asa Norte será mantido nos próximos dias, como parte de um conjunto integrado de ações voltadas à intensificação da presença policial e ao fortalecimento da sensação de segurança da população.

Mais Lidas