Chacina do DF

'Quais vidas importam?', questiona familiar de vítimas de chacina

Cláudia da Rocha e a filha Ana Beatriz Marques são vítimas da maior chacina do DF. Os cinco acusados do crime são julgados no Fórum de Planaltina, em júri que começou nesta segunda-feira (13/4)

“Qual a prioridade para a sociedade? Quais vidas importam?”. O questionamento é de uma das familiares de Cláudia da Rocha e da filha Ana Beatriz Marques, vítimas da maior chacina do Centro-Oeste. Os cinco acusados do crime são julgados no Fórum de Planaltina, em um júri que começou nesta segunda-feira (13/4) e deve durar sete dias.

Com uma camiseta com a foto de Cláudia e Ana Beatriz, a familiar — que prefere não revelar o nome — clama por Justiça e questiona as autoridades. “Dez vidas tiradas. Silêncio da sociedade, silêncio dos direitos humanos. Nosso grito é por Justiça. Dez vidas, 10 histórias ignoradas pelo silêncio. Dez vidas, ninguém falou, ninguém agiu, nós não vamos calar”, essa é a mensagem escrita na parte de trás da camisa.

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Segundo a familiar de Cláudia, tragédia maior poderia ser evitada. Ela relata que Cláudia desapareceu em 4 de dezembro de 2023 com a filha. Três dias depois, amigas da jovem tentaram registrar dois boletins de ocorrência na delegacia. “A Ana fazia parte de um time de games e iria viajar com as amigas, mas ela não estava respondendo. As amigas, claro, acharam estranho.”

A família materna de Cláudia mora no Rio de Janeiro. Os parentes notaram algo de errado quando, em uma comemoração de aniversário de um dos parentes, a advogada enviou uma mensagem curta de felicitação. “Depois, o texto tinha erro de digitação. Ali, sabíamos que não era ela com o celular”, afirmou.

A parente de Cláudia questiona as autoridades e se queixa da falta de respostas. “Nunca tive um telefonema dos direitos humanos, do governador. Cadê os defensores?”.

Crime
Os corpos da Cláudia e da filha foram encontrados junto ao de Thiago Belchior, outra vítima. Eles estavam em uma cisterna, em Planaltina.

Os cinco réus são: Horácio Carlos Ferreira, Gideon Batista, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva.

As vítimas são: Marcos Antônio Lopes de Oliveira (patriarca); a esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior; a filha de Marcos e Renata, Gabriela Belchior de Oliveira; o filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira; a esposa de Thiago, Elizamar da Silva; os filhos de Thiago e Elizamar, Rafael, Rafaela e Gabriel; a ex-companheira de Marcos Cláudia da Rocha Marques; e a filha de Marcos e Cláudia, Ana Beatriz Marques de Oliveira.

O caso
As investigações da Polícia Civil mostraram que Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, que estava sob a posse de Marcos Antônio. Também era parte do plano dos réus subtrair valores em dinheiro da família da vítima. Para isso, o combinado inicial era matar Marcos e sequestrar pessoas da família dele.

Em 27 de dezembro de 2022, Gideon, Horácio e Carloman, acompanhados de um adolescente, foram à residência de Marcos — onde também estavam a esposa, Renata Juliene Belchior, e a filha do casal, Gabriela Belchior de Oliveira. Marcos e as duas mulheres foram rendidos e os criminosos levaram R$ 49,5 mil.

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As três vítimas foram levadas para um cativeiro preparado na região do Vale do Sol, em Planaltina. No local, Marcos foi assassinado por Gideon e Horácio. Com a ajuda de Carloman e do adolescente, o corpo foi enterrado no quintal do terreno. As mulheres permaneceram vivas no cativeiro.

Na manhã do dia seguinte, Fabrício ingressou na empreitada e assumiu a vigilância do cativeiro. O adolescente, por motivo desconhecido, fugiu do local. Renata e Gabriela foram ameaçadas para que fornecessem as senhas dos celulares e das contas bancárias delas. Com isso, o grupo começou a se passar pelas vítimas e puderam monitorar os passos de Cláudia da Rocha Marques e Ana Beatriz Marques de Oliveira. O objetivo era atraí-las para uma emboscada e subtrair R$ 200 mil referentes à venda de um lote.

Entre 2 e 4 de janeiro, Gideon, Horácio e Carloman foram à casa das duas. Elas foram rendidas, amarradas e levadas para o cativeiro onde já estavam Renata e Gabriela. As duas também foram ameaçadas para fornecer as senhas dos celulares e de contas bancárias.

O acesso aos telefones das duas mulheres levou o trio a acreditar que Thiago Gabriel Belchior poderia atrapalhar os planos. Por esse motivo, decidiram matá-lo. Em 12 de janeiro, utilizando os celulares das vítimas em cárcere, ele foi atraído à Chácara Quilombo. No local, Thiago foi rendido por Carloman e Carlos Henrique, enquanto Horácio fingia também ser vítima da abordagem. O homem foi levado ao cativeiro onde estavam as quatro mulheres.

Como havia feito antes, o grupo ameaçou Thiago para obter a senha do celular dele. Com acesso ao aparelho, entraram em contato com Elizamar com a intenção de matá-la. Eles atraíram a mulher junto aos três filhos para a Chácara Quilombo. Quando chegou, ela e as crianças foram rendidas e amarradas. Mãe e filhos foram levados a Cristalina (GO), onde foram estrangulados até a morte. Os corpos foram incinerados dentro do carro de Elizamar.

De volta ao cativeiro, Gideon, Horácio e Carloman mataram as demais vítimas. Em 14 de janeiro, Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram estranguladas até a morte e queimadas. Depois do duplo assassinato, Fabrício aparentemente se desentendeu com Gideon, Horácio e Carloman e abandonou a empreitada.

No dia seguinte, Gideon determinou que os outros dois matassem Claudia, Ana Beatriz e Thiago. Os três foram executados a facadas e arremessados em uma cisterna próxima ao cativeiro. Fabrício e Horácio voltaram ao cativeiro e atearam fogo nos objetos das vítimas com o objetivo de atrapalhar as investigações.

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