Medicamentos usados em tratamentos de câncer, com risco direto à saúde de pacientes, movimentaram cerca de R$ 4 milhões em um esquema que pode estar em operação desde 2020 e que alcança ao menos cinco unidades da federação: Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Alto-Custo na manhã desta sexta-feira (17/4). Ao todo, 14 pessoas foram indiciadas, sendo cinco apontadas como líderes do esquema, com mandados de prisão preventiva expedidos.
Os produtos, muitos deles termossensíveis e avaliados em até R$ 40 mil por ampola, eram retirados de uma distribuidora no Aeroporto Internacional de Brasília e reinseridos no mercado sem controle adequado de armazenamento, o que pode comprometer o princípio ativo, reduzir a eficácia e até provocar efeitos adversos.
Segundo o delegado-chefe da 10° Delegacia de Polícia, Laércio Rosseto, investigação aponta que o grupo atuava de forma estruturada, com participação de ao menos 13 funcionários da distribuidora, responsáveis por retirar os medicamentos do estoque, viabilizar o transporte e manipular registros administrativos e contábeis. Para “lavar” os produtos, eram utilizadas empresas de fachada, uma delas em Samambaia, com emissão de notas fiscais frias, muitas vezes sem registro de entrada das mercadorias. Parte dos remédios desviados tinha origem em outros estados e era destinada, inclusive, a hospitais.
Ainda de acordo com o delegado, esses medicamentos são sensíveis à temperatura e, quando armazenados de forma inadequada, podem ter o princípio ativo degradado, gerando compostos instáveis e potencialmente nocivos. Além de perderem a eficácia, esses remédios podem provocar reações adversas ou falhas graves no tratamento. "O que coloca pacientes, especialmente os mais vulneráveis, em risco de vida", alerta o delegado.
Até o momento, três suspeitos foram presos, enquanto um dos chefes, localizado em Goiânia, segue foragido. Segundo a corporação, há indícios de movimentações financeiras incompatíveis, o que motivou pedidos de quebra de sigilo bancário.
Em um dos episódios investigados, uma carga roubada com uso de arma de fogo em Niterói (RJ) composta por 493 caixas de medicamentos, foi rastreada e interceptada em ação conjunta com a polícia. A corporação não descarta a possível ligação do esquema com organizações criminosas, como o Comando Vermelho ou o PCC, e destaca que a estrutura e a divisão de tarefas são tipicas de grupos desse tipo.
