Saúde

Cresce comércio ilegal de canetas emagrecedoras

Apreensões de canetas emagrecedoras crescem mais de 1000% no Brasil; só no DF, recolhimento saltou de 50 para 1.200 unidades

Luana Nogueira - Especial para o Correio

O comércio ilegal de canetas de GLP-1, conhecidas como "canetas emagrecedoras” cresceu nos últimos anos no Brasil. Em 2024, a Receita Federal apreendeu 2,7 mil canetas emagrecedoras e em 2025, mais de 32 mil unidades,  o que representa um aumento de mais de 1000%. Neste ano, espera-se que os números sejam mais significativos, uma vez que apenas nos dois primeiros meses do ano foram recolhidas 25 mil unidades deste tipo de medicamentos. 

A região do Distrito Federal também reflete este aumento: de acordo com a Receita Federal as apreensões de medicamentos emagrecedores pulou de 50 unidades, em 2024, para mais de 1200 no ano de 2025. As apreensões já somam mais de R$2 milhões desde 2024.

Apenas nesta semana, foram apreendidos mais de 150 ampolas de medicamentos para emagrecimentos ilícitos no DF. Na quinta-feira (16/4) a Polícia Rodoviária Federal (PRF) apreendeu 105 ampolas na BR-060, no Distrito Federal. Os itens foram localizados em um veículo de luxo conduzido por um homem de 27 anos, que declarou ser médico com pós-graduação em endocrinologia.

Dentre os materiais apreendidos, a equipe da PRF encontrou anabolizantes como Durateston, Decanoato de Nandrolona, Metenolona, Drostanolona e Enantato de Testosterona. Também foram encontrados medicamentos e compostos como tirzepatida, semaglutida, além de peptídeos como TB-500 e BPC-157.

Na terça-feira (15/4) a PRF apreendeu 147 ampolas de tirzepatida, também utilizada para emagrecimento, durante fiscalização na BR-251. De acordo com a polícia, o material possui valor de aproximadamente R$ 110 mil. Foram encontradas 4 unidades escondidas no banco do passageiro e 143 ampolas ocultas sob roupas de duas passageiras. 

Origem

O chefe da Unidade Operacional da Polícia Rodoviária Federal do Recanto das Emas, Pedro Fiquene, explica que os criminosos se aproveitam do crescimento da procura por canetas emagrecedoras no Brasil para realizar a venda de produtos mais baratos, porém ilícitos e sem registro da Agência Nacional de Saúde (Anvisa). “Por ser uma mercadoria de fácil ocultação e de um alto valor agregado, as organizações criminosas e contrabandistas estão se aproveitando para fazer a aquisição desses produtos e depois vir e revender a um preço muito mais atrativo do que esses que são regulamentados.”, explica. 

As investigações da Polícia Rodoviária Federal indicam que estes produtos apreendidos são fabricados na China, exportados para o Paraguai e, de lá, distribuídos para várias partes do Brasil. “Esses medicamentos, na verdade, vêm da China. E aí a China manda para o Paraguai, porque eles têm uma facilidade maior, talvez uma fiscalização menor nessa importação desses medicamentos. É como se o Paraguai fosse, digamos, um distribuidor desse tipo de mercadoria”, afirma o policial. 

Apesar de ser um tipo de contrabando relativamente novo, Fiquene acredita que a PRF está cada vez mais apta a identificar criminosos e apreender canetas emagrecedoras ilícitas. “A PRF, utilizando a nossa análise de risco, a nossa análise de inteligência, e também esse aumento da nossa expertise de identificação de padrões,  a tendência é que a gente consiga, ano a ano, aumentar a apreensão destes tipos de medicamentos como deve ser feito.”

Riscos à saúde

A Agência Nacional da Saúde (Anvisa) explica que somente as canetas registradas na agência estão autorizadas para uso no país. Além disso, só é permitida a comercialização desses medicamentos em farmácias e drogarias devidamente regularizadas nas vigilâncias sanitárias locais, sujeitos a retenção de receita para a venda.  De acordo com o órgão, qualquer produto adquirido fora de farmácia ou drogaria não tem qualquer garantia de procedência, composição ou conservação.

O médico especialista em emagrecimento, Leonardo Catizani, explica que o crescimento da busca por canetas emagrecedoras está relacionado ao desejo de perder medidas mais rápido. “Impulsionado principalmente pela busca por resultados rápidos, pela forte exposição nas redes sociais e pela percepção, muitas vezes equivocada, de que se trata de um método simples e seguro para emagrecimento. Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida, quando bem indicados, realmente podem trazer benefícios importantes. No entanto, o problema começa quando o uso foge do contexto médico adequado.”

No entanto, Catizani explica que medicamentos não regulamentados não passam por controle de qualidade, eficácia ou segurança. Nesse sentido, não há garantia sobre o que, de fato, está sendo aplicado no organismo e o paciente fica totalmente exposto a substâncias de origem desconhecida, com potencial risco à saúde. 

 

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