O veredicto que somou mais de 1 mil anos de prisão para os responsáveis pela maior chacina do Distrito Federal trouxe, para as famílias das vítimas, um misto de alívio e persistente amargura. No banco dos observadores, duas mulheres personificaram as diferentes faces do luto: Alzira Pereira, que vestia a memória da irmã e da sobrinha em uma camiseta, e dona Antônia Lopes de Oliveira, que atravessou os seis dias de julgamento segurando um terço e a promessa de suportar até o desfecho do casp.
Para Alzira Pereira, 52 anos, a justiça não foi plena. Ao deixar o plenário em prantos após a leitura da sentença na noite de sábado (18/4), a ex-atleta expressou indignação com a condenação de Carlos Henrique Alves da Silva, o único réu que poderá cumprir pena em regime semiaberto. “Alguém vai sair pela porta da frente e amanhã podemos ter mais uma pessoa sequestrada. O Carlos não foi menos pior que ninguém. Ele entregou o Thiago para morrer”, desabafou, referindo-se à participação do réu no sequestro de uma das vítimas.
Alzira, que viajou do Rio de Janeiro para representar a família materna das vítimas Cláudia Regina e Ana Beatriz, também questionou a clareza da leitura dos quesitos em relação às suas familiares. “Fiquei na dúvida sobre o homicídio da Ana e da Cláudia. A quem foi imputado? Parece que a letração não foi clara ou eu estava em muito choque”, afirmou, reforçando que a luta da família foi para que a irmã e a sobrinha não fossem tratadas como figuras secundárias.
Resiliência
A poucos metros da indignação de Alzira, a serenidade de dona Antônia, de 92 anos, oferecia um contraponto silencioso. A mãe de Marco Antônio, avó de Gabriela, Thiago e Ana Beatriz e bisavó das três crianças assassinadas encarou os réus do início ao fim. Para ela, a condenação recorde cumpre um rito necessário, mas é incapaz de reparar a perda. "Foi justo porque foi o julgamento, mas não paga um fio de cabelo do meu bisneto Rafael", afirmou.
Dona Antônia, que perdeu 6 kg e parte da audição e visão desde o crime, mantém uma postura de perdão religioso, mas exige que os réus vivam para enfrentar a própria consciência. “Eu quero que eles se arrependam com Deus, não com a forca. Vivendo é bom para saberem o que fizeram. Eles precisam viver para avaliar o que foi que fizeram naquele quadrado”, disse ela, referindo-se à prisão.
Memória
A mestre artesã, que por pouco não foi a 11ª vítima por estar em viagem na época dos crimes, revelou que buscou forças na oração para comparecer ao último dia de júri. Ela rejeita a piedade alheia e reivindica o respeito pela sua história. "Ninguém tenha pena de mim, mas tenha respeito. Eu queria ouvir com esses ouvidos que Deus me deu o que ia acontecer".
Enquanto Alzira planeja o retorno ao Rio de Janeiro com a sensação de que as leis brasileiras ainda carecem de severidade para crimes bárbaros, dona Antônia volta para sua casa no Gama. Hoje (19), seria o aniversário de seu neto Thiago Gabriel, que faria 34 anos. "A misericórdia de Deus supera todas as maldades do mundo. É isso que me segura", declarou a idosa, antes de deixar o tribunal.
