Nas últimas semanas, dezenas de espécies de lagartas venenosas foram recolhidas em um quintal de uma residência no Lago Sul. O morador acionou a Diretoria de Vigilância Ambiental (Dival) após identificar os animais peçonhentos em uma área verde próxima de casa. A ação mobilizou equipes da Secretaria de Saúde do DF, responsáveis pela coleta e encaminhamento dos espécimes, considerados perigosos para a população.
De acordo com a pasta, somente em 2026, já foram recolhidas 97 lagartas. O número reforça a importância do monitoramento e da participação da população na identificação desses animais, que podem causar acidentes graves. “Um acidente vai acontecer, então o serviço de saúde precisa ter sempre o soro antiveneno disponível. A matéria-prima é a própria lagarta. Por isso, é preciso recolher o maior número desse animal. Ao mesmo tempo em que ela é o problema, é a solução”, explicou Israel Moreira, biólogo da Dival.
Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) apontam uma variação no número de acidentes com lagartas do gênero Lonomia, no Distrito Federal entre 2023 e 2026. Em 2023, foram registrados 25 casos de acidentes atribuídos a espécie. Em 2024, houve queda no total de ocorrências, com 8 registros relacionados à Lonomia.
No ano passado, os números voltaram a subir, com 26 acidentes envolvendo esse tipo de lagarta. Em 2026, até 28 de abril, já foram contabilizados 2 casos associados ao gênero. Segundo o Sinan, os dados estão sujeitos a alterações e a identificação da espécie depende do relato da população, o que pode impactar a precisão das informações.
O especialista destacou que a lagarta do gênero Lonomia é considerada a mais perigosa para os seres humanos. O contato com suas cerdas pode inocular veneno capaz de provocar complicações severas, como hemorragias e, em casos extremos, até a morte.
Antídoto
Após a coleta realizada no Lago Sul, o material foi rapidamente transportado para o Instituto Butantan, em São Paulo, onde é utilizado para a produção de um soro antilonômico. Esse antídoto é específico para tratar envenenamentos causados por esse tipo de lagarta, e o Brasil é o único país responsável por sua fabricação.
O processo de produção do antiveneno envolve o corte e a maceração das cerdas do animal. Diferentemente de outros peçonhentos, como serpentes e escorpiões, que podem ser mantidos em ambientes controlados para extração de toxinas, as lagartas precisam ser constantemente repostas. “Precisamos do apoio da população para realizar a coleta desses animais. Essa é a única forma de produzir o soro. Por isso, cada lagarta recolhida é tão importante”, reforçou o biólogo.
Cuidados
Os acidentes com lagartas geralmente acontecem quando há contato direto com o animal, que costuma viver em árvores ou vegetações. Por conta da coloração, elas se camuflam com facilidade nos troncos, o que dificulta a identificação. Um dos indícios da presença da espécie são as folhas parcialmente consumidas e fezes acumuladas.
A pasta recomenda que atividades comuns, como colher frutas, encostar em árvores ou circular por áreas com vegetação, sejam realizadas com atenção redobrada. Uma das medidas recomendadas é o uso de luvas, medida simples que pode reduzir o risco de acidentes.
Serviço
Para a identificação e recolhimento de animais peçonhentos, a recomendação é entrar em contato com os Núcleos Regionais de Vigilância Ambiental em Saúde. Em caso de acidente, a vítima deve ser encaminhada imediatamente a uma unidade de saúde e também deve ser acionado o Centro de Informação e Assistência Toxicológica. Sempre que possível, o registro fotográfico do animal pode ajudar no tratamento.
Os soros antivenenos são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com fornecimento organizado pelo Ministério da Saúde conforme a ocorrência de casos em todo o país.
