REVITALIZAÇÃO

O delicado trabalho de restauração da Praça dos Três Poderes

A recuperação do tradicional piso português em uma das áreas mais simbólicas da capital do país mobiliza operários, arquitetos e restauradores. Tudo para deixar o espaço cívico digno para turistas e moradores

Conclusão da obra de restauração da Praça dos Três Poderes está prevista para dezembro de 2026 -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Conclusão da obra de restauração da Praça dos Três Poderes está prevista para dezembro de 2026 - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

As obras de restauração da Praça dos Três Poderes avançam em várias frentes, mas uma das etapas mais delicadas e minuciosas está na recuperação do tradicional piso de pedras portuguesas. Feito inteiramente de forma manual, o trabalho exige que cada pedra seja analisada, separada e recolocada uma por uma pelos trabalhadores. A última reforma foi em 1985.

O Correio acompanhou as etapas da obra e conversou com os profissionais envolvidos no processo. A restauração é supervisionada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A condução técnica está sob responsabilidade do Instituto Pedra, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Petrobras, por meio da Lei Rouanet. Já a execução dos trabalhos é realizada pela Concrejato Engenharia.

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  • Conclusão da obra de restauração da Praça dos Três Poderes está prevista para dezembro de 2026
    Conclusão da obra de restauração da Praça dos Três Poderes está prevista para dezembro de 2026 Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: parte ainda não restaurada apresenta rachaduras, buracos à mostra e sujeira
    Restauração da Praça dos Três Poderes: parte ainda não restaurada apresenta rachaduras, buracos à mostra e sujeira Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: 20% da obra do piso restaurado foi concluída
    Restauração da Praça dos Três Poderes: 20% da obra do piso restaurado foi concluída Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Conclusão da obra está prevista para dezembro de 2026
    Conclusão da obra está prevista para dezembro de 2026 Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: pedras que não puderam ser reaproveitadas por estarem rejuntadas com concreto
    Restauração da Praça dos Três Poderes: pedras que não puderam ser reaproveitadas por estarem rejuntadas com concreto Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: escultura Os Candangos foi a primeira a ser revitalizada
    Restauração da Praça dos Três Poderes: escultura Os Candangos foi a primeira a ser revitalizada Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: Othon e Laís fazem parte da equipe da reforma
    Restauração da Praça dos Três Poderes: Othon e Laís fazem parte da equipe da reforma Minervino Júnior/CB/D.A.Press
  • Restauração da Praça dos Três Poderes: parte ainda não restaurada apresenta rachaduras, buracos, grama saindo e sujeira
    Restauração da Praça dos Três Poderes: parte ainda não restaurada apresenta rachaduras, buracos, grama saindo e sujeira Minervino Júnior/CB/D.A.Press

O chefe de gabinete adjunto da Presidência da República, Swedenberger Barbosa, destacou que a iniciativa parte do governo federal em parceria com o órgão de preservação histórica. "O restauro e a recuperação é iniciativa da Presidência da República e do Iphan. A iniciativa é do órgão federal", afirmou.

Atualmente, cerca de 20% da obra foi executada. Ao todo, são 1.328 quadrantes, de aproximadamente 22m² cada. A primeira fase do projeto ocorreu entre janeiro e abril deste ano. A previsão é de que a recuperação da praça seja concluída até dezembro, enquanto a segunda etapa, que inclui restauração de monumentos, deve ser entregue no primeiro semestre de 2027.

Além do piso, os serviços incluem recuperação dos espelhos d'água, monumentos, sistema de iluminação e melhorias voltadas para acessibilidade. Os recursos são integralmente viabilizados pela União.

O primeiro monumento restaurado na praça foi a escultura Os Candangos, obra em bronze de 8 metros de altura, criada por Bruno Giorgi em 1959. O restauro exigiu um processo específico de recuperação e a contratação de um especialista vindo de Porto Alegre.

Outros monumentos passarão por restauro, entre eles o Marco Brasília, a Herma de Israel Pinheiro, a Herma de Tiradentes e Cabeça de JK. Também estão previstos serviços no Pombal, no Espaço Lucio Costa e no Museu da Cidade.

Cinco etapas

A revitalização do piso segue cinco etapas executadas pelos trabalhadores. Tudo começa com a instalação dos tapumes informativos, que isolam e protegem o canteiro de obras. Em seguida, ocorre a retirada das pedras antigas. Com o auxílio de marteletes, os operários removem as peças deterioradas e também camadas de concreto aplicadas ao longo dos anos para tapar buracos deixados por estruturas de eventos montadas na praça.

A utilização de concreto, material inadequado para o piso, criou um problema que comprometeu parte das pedras originais, impossibilitando o reaproveitamento. Após a retirada, começa a fase da limpeza. As pedras passam por três recipientes diferentes. Primeiro, ficam imersas em água limpa. Depois, são colocadas em um balde com desincrustante diluído em água, onde permanecem por cerca de três a quatro minutos. Por fim, retornam para outro recipiente com água pura. O processo devolve a coloração branca original das peças.

Na sequência, o solo é compactado com máquinas. O terreno é rebaixado em, aproximadamente, 5cm e umedecido para receber novamente o piso. Só então começa o reassentamento das pedras. Os trabalhadores espalham a chamada "farofa", mistura de areia e concreto, e recolocam as pedras uma por uma. Cada peça passa por seleção criteriosa antes de voltar ao chão.

Mais de 80% das pedras antigas estão sendo reaproveitadas. As que apresentam rachaduras, excesso de concreto, tamanho inadequado ou coloração muito escura são descartadas. As novas peças utilizadas na obra vêm do município de Sete Lagoas, em Minas Gerais.

"Voltar no tempo"

A arquiteta do Instituto Pedra, Laís Lobato, de 39 anos, acompanha de perto o andamento da restauração e afirma que o trabalho tem avançado conforme o planejado. "A obra está indo perfeitamente bem. Por enquanto, vamos focar mais na parte do piso e, à medida que a obra for avançando, vamos restaurar as edificações", explicou.

Para ela, trabalhar na restauração da praça é, também, reviver a própria história de Brasília. "Estar aqui é quase como voltar no tempo e se sentir na construção de Brasília, como os candangos. Temos alguns trabalhadores aqui que são filhos de pessoas que ajudaram na construção de Brasília. É tipo uma história familiar. Obras de restauro têm essa alegria de trazer vida de volta".

Engenheiro civil da Concrejato, Othon Daltro, 36, afirma que participar da obra representa um marco profissional. "É uma emoção estar numa cidade que abraça tanto as pessoas de fora, como eu, um carioca. Para mim, é muito importante estar fazendo um trabalho desse, que pesa tanto no currículo", afirmou.

Entre os profissionais que atuam diretamente no piso está o calceteiro Afonso Henrique, 29. É ele quem passa horas abaixado encaixando manualmente cada pedra portuguesa.  O calceteiro é o profissional especializado em assentamento de pedras. "O serviço aqui, na praça, está excelente. Vamos continuar. Com exigência e paciência, a qualidade do serviço vai ficar melhor ainda. A produção média é um quadrante por dia finalizado, por cada dupla de funcionários", contou. 

O assistente de engenharia Silvestre Alberone, 39, acompanha diariamente o trabalho das equipes e reforça a importância da segurança no canteiro. "Estou acompanhando o pessoal, orientando sempre usar Equipamento de Proteção Individual (EPI) para trabalhar com segurança e se prevenir. É gratificante ver esse trabalho. Todos trabalham sob um toldo para evitar a exposição ao sol, nesta época do ano".

 

Veja a ordem das etapas:

Etapa 1

Confecção dos tapumes informativos — Fechamento do canteiro de obras para proteger a área.

Etapa 2

Remoção das pedras antigas — Demolição feita com auxílio de marteletes.

Etapa 3

Limpeza das pedras — O processo é feito com três baldes: um com água pura, outro com desincrustante diluído em água, onde as pedras ficam imersas por cerca de três a quatro minutos, e um terceiro novamente com água pura. Esse processo faz com que a pedra recupere a coloração branca.

Etapa 4

Compactação do solo — Utilizando

uma máquina, o quadrante é rebaixado

em cerca de 5cm; e o solo é molhado

para preparação da base.

Etapa 5

Assentamento das pedras — É aplicada a "farofa", mistura de areia e concreto, e as pedras são colocadas uma por uma, com seleção das apropriadas. Depois, as pedras são compactadas e pressionadas para ficarem niveladas, finalizando com a aplicação do rejunte.

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postado em 12/05/2026 05:30
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