dia das mães

A força que vem da maternidade

Mulheres que transformaram suas rotinas e carreiras para abraçar o ofício de ser mãe contam que superaram desafios, diagnósticos e dificuldades e encontraram nos filhos a força para vencer

Aline Campos e o filho João, ambos com Transtorno do Espectro Autista -  (crédito: Arquivo pessoal)
Aline Campos e o filho João, ambos com Transtorno do Espectro Autista - (crédito: Arquivo pessoal)

Ainda hoje, não há propagandas ou ofertas de presente para o Dia das Mães que pareçam abarcar a complexidade — e diversidade — da maternidade, vivenciada de forma única por cada mulher. Ao mesmo tempo, é comum escutar relatos de que não há amor comparado àquele destinado aos filhos. Há quem diga, inclusive, que esse sentimento "chega a doer de tão grandioso". E é nessa relação paradoxal que elas vivem as dores e delícias da maternidade ao seu modo. 

Aos 21 anos, Maria Luísa Tavares vive essa experiência pela primeira vez. Mãe de João Paulo, de 10 meses, ela conta que sempre quis exercer esse papel, mas não esperava que o sonho se realizasse justamente durante sua graduação em engenharia agronômica na Universidade de Brasília (UnB). "Ao descobrir que estava grávida, passei por um mix de emoções. Tive medo de não saber cuidar nem de ser suficiente, além de ter me questionado sobre os riscos do parto. Mesmo assim, senti muita felicidade", lembra.

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A jovem trancou a faculdade e passou a se dedicar integralmente ao filho. Para Maria Luísa, a grande delícia de ser mãe é a mágica de criar um ser humano para o mundo. "Sinto que tenho superpoderes porque ele se espelha em mim. É muito bom depositar todo o meu amor e conhecimento em alguém", diz. Os últimos 10 meses para Maria Luísa têm sido melhores do que ela esperava. Ela descreve ser mãe como algo desafiador, mas gratificante.

 Dia das Mães.  Mães de primeira viagem. Na Foto  Maria Luísa Tavares com seu filho, João Paulo.
Maria Luísa Tavares com seu filho, João Paulo (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Para a mulher que pretende ter mais filhos no futuro, uma das partes mais especiais de ser mãe é poder se aperfeiçoar para dar o que há de melhor a uma pessoa em formação. "Quando você forma alguém, você tem que se moldar também para dar o melhor exemplo", afirma. "É um amor que dói", resume. 

Atípicos

No caso de Aline Campos, 45, a maternidade trouxe novidades para além das descobertas que vêm com o primeiro filho. Quando João tinha 6 anos, uma psicóloga da escola alertou que ele apresentava sinais de Transtorno do Espectro Autista (TEA), como crises explosivas. Com o alerta, a servidora pública do Departamento de Trânsito (Detran-DF) passou a estudar o assunto com o objetivo de entender e buscar ferramentas para ajudá-lo. Para sua surpresa, ela notou que alguns dos próprios comportamentos estavam explicados em suas pesquisas. Aline também é autista. 

"Foi um misto de libertação e de arrependimento, porque fui capaz de nomear comportamentos de uma vida inteira e desvencilhar-me de rótulos que tinha recebido quando era mais nova", revela. Após o diagnóstico, a Diretoria de Educação do Detran-DF pediu que Aline produzisse um material didático sobre autismo. Do pedido, nasceu o primeiro livro da autora, Sou diferente, e daí? Tem lugar aí pra mim?, trazendo como protagonista o próprio filho.

A mãe atípica, apaixonada por escrita, passou a observar que, nas histórias lidas para o filho — um passatempo entre os dois —, faltava a inclusão. Motivada a mudar esse cenário, incluiu o TEA em todos os seus cinco livros publicados sobre o tema. "Sinto que, após receber o meu diagnóstico, consigo ajudar meu filho (hoje com 13 anos) de maneira mais efetiva, para evitar que ele passe pelos desafios que vivenciei na infância e adolescência. Ser mãe, no fim das contas, significa amor incondicional. É algo que transcende qualquer coisa e veio para clarear quem sou", resume. 

Luta pela vida

A notícia de uma nova vida geralmente chega acompanhada de planos e empolgação, mas, para Danielle Mota, 30, o roteiro ganhou contornos de urgência. Apenas duas semanas após descobrir que estava grávida, veio o diagnóstico que ninguém espera receber: câncer de mama. "Foi um choque! Como era um câncer mais agressivo, eu não tive opção de esperar o nascimento dela e precisei iniciar o tratamento de quimioterapia gestante", relata.

A maquiadora, que já havia enfrentado uma cirurgia de tireoide pouco tempo antes, precisou travar mais uma batalha. A rotina passou a ser dividida entre exames e sessões de quimioterapia no Hospital Anchieta. "No início, eu sofri muito e tinha dias em que me sentia exausta, mas meu bebê me lembrava, a cada sessão, que eu precisava continuar lutando", conta Danielle.

Danielle com os filhos Stella e Théo e o marido Johnata Carlos
Danielle com a família: câncer durante a gestação (foto: Arquivo pessoal)

Mãe de Théo, de 6 anos, ela traz na memória o peso do último mês de maio. "Ano passado, eu me lembro de, perto do Dia das Mães, pedir para não morrer. Tinha muito medo". Naquela época, o tratamento estava no início e a incerteza sobre o futuro da pequena Stella, que ainda crescia em seu ventre, era profunda.

Mas a vida insistiu e Stella nasceu em junho de 2025, após uma decisão médica de antecipar o parto para garantir a segurança de ambas. Neste Dia das Mães, o sentimento é de uma vitória dividida. "Eu e minha neném lutamos juntas", celebra. Para Danielle, Stella é mais do que uma filha. É a prova viva de que, mesmo nos momentos de maior fragilidade, o amor é capaz de sustentar a força necessária para vencer.

Responsabilidades

Aos 45 anos, Deuzanira Campos Araujo é o retrato da mãe que não teve tempo para hesitar. Doméstica, ela viu sua jornada como mãe solo se desenhar após o fim de um casamento de seis anos. Com dois dos três filhos ainda pequenos, a responsabilidade de ser o único porto seguro bateu à porta cedo. "A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi a responsabilidade de cuidar de uma vida e fazer o meu melhor para nunca faltar nada", recorda.

A vida de Deuzanira é feita de escolhas difíceis em nome do sustento. Por morar no emprego, ela vive uma rotina de ausências físicas: passa 15 dias no serviço para ter dois em casa. O filho mais novo, Thalyson, de 12 anos, mora com a tia enquanto ela trabalha, mas a conexão entre eles ignora as paredes do emprego. "Muitas vezes precisei ser forte, mesmo cansada, mas sempre encontrei forças no amor que sinto por eles", afirma.

Deuzanira com os três filhos e três netos
Deuzanira com os três filhos e os três netos: mãe solo (foto: Arquivo pessoal)

Hoje, ela colhe os frutos de uma criação pautada na dignidade. As filhas mais velhas, Tacira e Thaylla, já formadas e casadas, são o seu maior orgulho. Para Deuzanira, a vitória não está em grandes gestos, mas na certeza de que seus filhos se tornaram pessoas honestas e trabalhadoras. "Esses são os maiores legados que posso deixar."

  • Deuzanira com os três filhos e os três netos: mãe solo
    Deuzanira com os três filhos e os três netos: mãe solo Foto: Arquivo pessoal
  • Danielle com a família: câncer durante a gestação
    Danielle com a família: câncer durante a gestação Foto: Arquivo pessoal
  • Maria Luísa engravidou aos 21 anos do filho João Paulo, 10 meses, durante a graduação em engenharia agronômica na UnB
    Maria Luísa engravidou aos 21 anos do filho João Paulo, 10 meses, durante a graduação em engenharia agronômica na UnB Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
  • Maria Luísa Tavares com seu filho, João Paulo
    Maria Luísa Tavares com seu filho, João Paulo Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
  • Maria Luísa engravidou aos 21 anos do filho João Paulo, 10 meses, durante a graduação em engenharia agronômica na UnB
    Maria Luísa engravidou aos 21 anos do filho João Paulo, 10 meses, durante a graduação em engenharia agronômica na UnB Foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press
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postado em 10/05/2026 05:00
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