HOMENAGEM

Os heróis da limpeza: DF celebra o Dia do Gari

Programação especial neste sábado (16/5), no Parque da Cidade, inclui sorteios, shows e serviços de saúde dedicados aos profissionais, que têm ponto facultativo na data

Dia do Gari comemorado em 16 de maio -  (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
Dia do Gari comemorado em 16 de maio - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O Distrito Federal celebra hoje o Dia do Gari, data dedicada aos trabalhadores que, diariamente, ajudam a manter a cidade limpa. Instituído como ponto facultativo exclusivo para os trabalhadores da limpeza urbana desde 2022, a data terá uma programação especial no Pavilhão do Parque da Cidade, das 8h às 14h. A celebração contará com café da manhã, música ao vivo, sorteio de prêmios, show de talentos dos garis, almoço, serviços de saúde e atendimento da Defensoria Pública voltados aos profissionais.

Por causa da celebração, não haverá coleta de resíduos hoje. Os serviços de catação e varrição também serão suspensos. Desde 2023, o SLU promove em todo 16 de maio o "Dia sem Lixo", campanha que orienta a população a manter os resíduos dentro de casa até a retomada dos serviços, prevista para segunda-feira (18). Atualmente, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) conta com 5.022 garis em atuação no DF. Cada profissional da varrição percorre, em média, 2,4 quilômetros de vias por dia.

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Um deles é Raimunda Alves Gomes, 57 anos, que antes mesmo de o sol nascer, enquanto boa parte da cidade ainda dorme, já está de pé. Às 3h30 da manhã, ela começa a rotina que repete há 17 anos nas ruas da capital. O uniforme laranja, que para muitos passa despercebido, representa para ela muito mais do que trabalho; é sustento, conquista e orgulho.

"Criei minha família, paguei minhas contas, reformei minha casa fruto desse trabalho. Meu sonho é ver meus filhos e meus netos felizes", resumiu. Para Raimunda, ter um dia de homenagem representa reconhecimento por uma rotina marcada pelo esforço físico e pela resistência. "A gente trabalha muito, faz o que gosta e acho que é merecedor ter esse dia", afirmou.

Apesar do cansaço da jornada, ela guarda com carinho os momentos de acolhimento recebidos nas ruas. "Já aconteceu de chamarem a gente para tomar um café, oferecer água, refrigerante, um lanche. Às vezes estão fazendo churrasco e perguntam se a gente quer comer. A gente aceita de bom grado", contou, sorrindo.

Festa

Gilbertino Pires, 53, também conhece bem a rotina das madrugadas. Morador de Ceilândia, ele acorda às 3h30, sai de casa às 4h30 e chega à empresa às 6h, desde 2020, quando entrou no SLU. "Essa data é muito especial para a gente. É uma festa, um momento esperado o ano inteiro", disse. Casado e pai de três filhos, ele conta que o tempo em família é curto, mas valorizado. "Quando chego em casa, nem pego no celular. Dou atenção para minha esposa e minha filha. O tempo com a família é precioso", ressaltou.

O funcionário contou que, no pouco tempo livre, os passeios com a filha mais nova, Beatriz, 10, ajudam a aliviar o desgaste da rotina pesada. "Sempre que estou de folga minha prioridade é minha pequena. Ela gosta de ir ao Lago Sul, ao Parque da Cidade, assistir filme no shopping. E o paizão aqui acompanha", brincou.

Gilbertino Pires, 53, conhece bem a rotina das madrugadas. Morador de Ceilândia, ele acorda às 3h30 e sai de casa às 4h30 para trabalhar
Gilbertino Pires, 53, conhece bem a rotina das madrugadas. Morador de Ceilândia, ele acorda às 3h30 e sai de casa às 4h30 para trabalhar (foto: Davi Cruz/CB/D.A Press)

Para Osmildo Santos Pereira, 38, e há 15 trabalhando no serviço de limpeza urbana, o reconhecimento também faz diferença. "É muito bom ter um dia para a gente se divertir, encontrar os amigos e se sentir homenageado", afirmou. Ele lembra que o trabalho exige disposição diária. "Acordo 3h40 da manhã para pegar o primeiro ônibus e chegar na empresa. Tem sol, chuva, cansaço, mas a gente vai", ressaltou.

Ele diz que pequenos gestos transformam o dia. "Quando as crianças passam e abraçam a gente, falam com carinho, aquilo anima demais", declarou. Apesar do reconhecimento, nem sempre, os trabalhadores recebem respeito. Osmildo relatou ter presenciado situações de humilhação durante o expediente. Em uma delas, uma moradora discutiu com a equipe enquanto os profissionais retiravam galhos da rua. "A gente estava fazendo um serviço para ajudar e ela começou a desfazer da gente reclamando do cheiro e do serviço. Fiquei muito chateado. Deu muita raiva e tristeza", contou.

Para Osmildo Santos Pereira, 38 anos, e há 15 trabalhando no serviço de limpeza urbana, o reconhecimento também faz diferença
Para Osmildo Santos Pereira, 38 anos, e há 15 trabalhando no serviço de limpeza urbana, o reconhecimento também faz diferença (foto: Davi Cruz/CB/D.A Press)

Andrew Lima que atua há um ano e quatro meses na empresa, relembrou um episódio recente em que ele e um colega foram mal recebidos ao tentar entrar em um mercado. "A mulher olhou com uma cara meio assim de nojo. Fiquei chateado e voltei para a caçamba", disse. Wesley de Oliveira, 23, há seis meses na função de coletor, relatou constrangimentos vividos no transporte público. "Às vezes no ônibus o pessoal evita sentar do meu lado por causa do uniforme. A gente se sente chateado, porque é o pessoal dessa área que limpa a cidade e eles não valorizam", afirmou.

Fora do uniforme, os dois levam uma rotina simples e voltada para a família e os hobbies. Andrew gosta de jogar videogame, andar de moto e passar tempo com a mãe, que também trabalha na empresa e foi sua inspiração para entrar na profissão. "Recentemente, também realizei um sonho de ter uma motocicleta e ganhei no sorteio do ano passado. Esse ano é minha de novo", brincou.

Já Wesley dedica boa parte do tempo livre à filha recém-nascida. Trabalhando no período da tarde, ele aproveita as folgas e os momentos em casa para acompanhar o crescimento da bebê. "Eu curto muito ficar com minha filha. Preciso aproveitar enquanto ela é pequena porque passa muito rápido", contou.

Saúde mental

Para o psicólogo, mestre e doutor pela PUC-RJ André Machado, a forma como a sociedade encara os trabalhadores da limpeza urbana ainda carrega marcas históricas profundas. "A sociedade brasileira costuma tornar invisíveis profissionais como garis e faxineiros por algo que vem do nosso passado cultural. Desde a escravidão, o trabalho manual foi associado à inferioridade", explicou. Segundo ele, a indiferença cotidiana impacta diretamente a saúde emocional desses profissionais. "Quando alguém evita o olhar ou trata a pessoa como parte da paisagem, o cérebro registra isso como rejeição", afirma.

Por outro lado, gestos simples podem provocar mudanças significativas. "Um bom dia, um sorriso ou um agradecimento ajudam a substituir pensamentos de desvalorização por sentimentos de pertencimento e reconhecimento", disse. André Machado destacou que reconhecer os garis vai além da educação. "Esses profissionais são essenciais para a cidade funcionar. Um olhar carinhoso e atitudes simples ajudam a construir cidades mais humanas, onde todos se sentem vistos e importantes", concluiu

Cursos

Os garis também buscam crescimento pessoal e profissional. As empresas contratadas pelo SLU oferecem cursos gratuitos de informática, salas de leitura e espaços de capacitação para os trabalhadores. Segundo o órgão, o setor também vem passando por transformações para garantir mais dignidade e segurança aos profissionais, com investimentos em equipamentos mais modernos, confortáveis e seguros, além de atendimentos psicossociais.

Dia 16 de maio é comemorado o Dia do Gari
Gilbertino, Raimunda e Osmildo relataram a rotina diária (foto: Davi Cruz/CB/D.A Press)

O presidente do SLU, Luiz Felipe Carvalho, também ressaltou a necessidade de homenagear os profissionais. "O Dia do Gari é uma homenagem e também um dia de reflexão sobre a importância do trabalho dos garis. Sem esses profissionais, a limpeza e a saúde pública da nossa cidade estariam comprometidas."

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DC
postado em 16/05/2026 06:00
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