
Figurinhas carimbadas no álbum de Brasília, as capivaras descansam às margens do Lago Paranoá, atravessam gramados tranquilamente e viraram parada obrigatória para fotos de quem passa pela orla do espelho d'água. Consideradas os maiores roedores do mundo, elas conquistaram um espaço especial na rotina dos brasilienses e são personagens inseparáveis da paisagem da capital.
Segundo levantamento do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), realizado entre 2021 e 2022, a densidade média registrada foi de 4,2 capivaras por quilômetro na região do lago. Como são cerca de 80km de margens do Lago Paranoá, a estimativa aponta para aproximadamente 336 capivaras vivendo ao redor da orla, embora a quantidade mude conforme a época do ano. Em alguns pontos monitorados, grupos com até 30 animais foram registrados.
As Hydrochoerus hydrochaeris, nome científico da espécie, são semiaquáticas e encontram no lago o ambiente perfeito para sobrevivência. Um animal adulto pode chegar entre 1,30 metro e 1,50 metro de comprimento, facilmente ultrapassando os 50kg ou 60kg. A água funciona como abrigo contra predadores, ajuda na regulação térmica e também faz parte da alimentação e reprodução da espécie. Herbívoras, elas se alimentam principalmente de capim, vegetação aquática, folhas e brotos, na maior parte das vezes, durante a noite, pois passam boa parte do dia descansando próximas às margens.
Rotina
Para quem convive diariamente com os animais, a presença deles já faz parte da rotina. Auxiliar de serviços gerais, Antônio Furtado, 37 anos, trabalha há 16 anos próximo à região da Ponte JK e acompanha de perto a movimentação dos grupos. "É muito bom ver essas capivaras todos os dias. Elas deixam o lago mais bonito. O pessoal chega, tira muita foto. São mansas, tranquilas", relatou.
A convivência próxima acabou criando até laços afetivos. "Tem uma grandona que entra aqui no nosso espaço direto. O nome dela é Severina. Se deixar o portão aberto, ela entra de fininho para comer as plantas e fazer a arte dela", brincou Furtado.
Segundo o colega de trabalho, João Alves, 52, jardineiro, houve períodos em que a quantidade de animais impressionou até os frequentadores mais antigos da região. "Aqui no estacionamento externo, já chegou a bater umas 100, 150 com filhote e tudo. Elas sobem lá pra cima e depois descem para dormir aqui perto do asfalto. Foi muito legal ver aquele tanto de capivara junto. O pessoal ficava encantado tirando foto", lembrou.
Leia também: MPDFT sugere ações para evitar atropelamentos de capivaras do Lago Paranoá
O jardineiro ainda contou que, nos dias mais quentes e secos, eles oferecem alimento e hidratação para os bichinhos. "Sempre que dá a gente leva umas folhas de palmeira e uns potes de água pra eles. Virou uma relação de animal doméstico mesmo. São o nosso xodó", afirmou Alves.
Cuidados
Apesar da fama de dóceis, especialistas alertam que as capivaras continuam sendo animais silvestres e precisam ser respeitadas. O médico veterinário Samuel Pinheiro explicou que o comportamento tranquilo não significa domesticação. "Elas continuam sendo animais silvestres. Se se sentirem ameaçadas, principalmente na presença de filhotes, podem reagir de maneira agressiva. São animais extremamente fortes e adaptados ao ambiente aquático", detalhou.
Segundo o veterinário, o Lago Paranoá oferece as condições ideais para a permanência da espécie. "Elas encontram água, vegetação abundante e segurança. Isso favorece a formação de grupos numerosos e uma convivência muito próxima da área urbana", disse Pinheiro.
O especialista ressaltou que as capivaras possuem uma dinâmica social bastante organizada e vivem coletivamente. "São animais que costumam viver em grupos que podem chegar a 20 ou 30 indivíduos. Existe uma interação social muito forte entre eles, e isso chama bastante atenção das pessoas", contou.
O veterinário também destaca o papel ambiental exercido pelos animais no Cerrado. "As capivaras ajudam no controle da vegetação rasteira e aquática, além de contribuírem para dispersão de sementes. Elas participam diretamente do equilíbrio ecológico dessas áreas alagadas", enfatizou.
A principal preocupação, no entanto, envolve os carrapatos. "Do ponto de vista da saúde pública, o maior alerta está relacionado aos ectoparasitas. As capivaras podem funcionar como hospedeiras de carrapatos que, dependendo da região, podem estar associados à febre maculosa", explicou Samuel.
O veterinário acrescentou que o problema não está necessariamente no animal, mas na necessidade de equilíbrio entre fauna silvestre e espaço urbano. "A discussão não é se a capivara é boa ou ruim. O ponto principal é entender como promover uma convivência equilibrada entre os animais, o meio ambiente e a população", concluiu.
No Japão, e mais recentemente, na China, há uma onda cultural muito forte pelas capivaras. A imagem da espécie ficou muito popular com zoológicos e espaços de interação, que mostram o bicho relaxando em águas termais. "O que existe de forma mais forte não é exatamente uma domesticação ampla como cão ou gato, mas uma humanização da imagem do animal e um interesse crescente por convivência e experiências de proximidade", disse Pinheiro.
Proteção
Mesmo populares, as capivaras são protegidas por lei. O abate, caça, captura ou perseguição dos animais configura crime ambiental. A Lei de Crimes Ambientais prevê pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa. Além disso, toda a orla do Lago Paranoá é considerada Área de Preservação Permanente (APP), reforçando a proteção da fauna silvestre presente na região.
Atualmente, o Governo do Distrito Federal mantém um projeto de monitoramento das capivaras em parceria entre o Ibram, a Secretaria de Meio Ambiente, a Secretaria de Saúde e a Universidade Católica de Brasília. O estudo, iniciado em 2025, seguirá até 2027 e busca ampliar o conhecimento sobre a dinâmica populacional da espécie no DF.

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF