A delação premiada do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa sobre movimentações financeiras e políticas para favorecer o Banco Master assombra as campanhas eleitorais em Brasília. As revelações que ele pretende fazer para conseguir benefícios no processo criminal podem abalar candidaturas.
Em meio ao confronto pré-eleitoral, a cinco meses da votação, o clima é de suspense. Paulo Henrique foi preso preventivamente na quarta etapa da Operação Compliance Zero, em 16 de abril, e está detido no Complexo Penitenciário da Papuda. Desde então, ele mudou de advogados e manifestou oficialmente à Justiça a disposição de colaborar com as investigações.
Ele demonstrou que está disposto a apresentar fatos novos que possam elucidar o esquema de lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo o Banco Master. Quando tomou a decisão de delatar, foi advertido de que não conseguirá manipular a Polícia Federal (PF), com verdades seletivas e informações incompletas. Esse caminho não possibilitará homologação da troca de informações por redução de pena ou por liberdade.
Para obter algum tipo de privilegio, ele também terá de avançar em fatos que não são de conhecimento da Polícia Federal ou que ainda não foram comprovados. Muito do que ocorreu nas transações de compra de fundos sem lastro negociados pelo Master com o BRB — que chegam a R$ 21,9 bilhões — pode ser contemplado na delação de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel, que conhecia detalhes das operações.
Interessa à Polícia Federal detalhes que podem comprometer integrantes da política do DF. Ele vai precisar responder pontos como: até onde as conversas do então governador Ibaneis Rocha com Vorcaro trataram de operações que beneficiavam o Master; ou por que Ibaneis defendeu a compra do banco de Vorcaro? Foi convencido pelo seu presidente do BRB ou houve algo mais?
O depoimento de Paulo Henrique Costa em relação a Ibaneis — desde que apresente provas — pode tumultuar a campanha do ex-governador ao Senado. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que representa Ibaneis, afirmou ao Correio que não há motivo para preocupação, uma vez que o ex-governador não teve qualquer participação em fraudes envolvendo o banco e concedia total autonomia à gestão da instituição.
A governadora Celina Leão (PP) também se manifestou nas redes sociais sobre eventual situação de seu nome em delação de Daniel Vorcaro. "Zero. Zero preocupação", disse Celina sobre receio de ser arrastada para o olho do furacão, como aventou o colunista Lauro Jardim, de O Globo, na edição do último domingo. A governadora não tinha uma relação próxima com Paulo Henrique, que despachava diretamente com Ibaneis, e não pretendia mantê-lo quando assumisse o Palácio do Buriti.
Antes mesmo de aparecerem elementos que relacionem Celina à Operação Compliance Zero, Ricardo Cappelli, pré-candidato ao GDF pelo PSB, defendeu o afastamento da governadora do cargo. Outros adversários também criticaram. Sinal de que as operações Master/BRB serão o mote da oposição nestas eleições.
Na delação, Paulo Henrique Costa também terá de esclarecer as negociações com deputados distritais que levaram à aprovação em processo acelerado do projeto de lei que autorizou o BRB a adquirir 49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais do capital social do Banco Master.
O projeto foi aprovado com 14 votos favoráveis e sete contrários, em dois turnos e redação final numa mesma sessão, apesar dos protestos da oposição, que denunciava o risco de um prejuízo bilionário ao BRB. A pergunta que Paulo Henrique precisa responder é: a negociação foi na base da política ou por meio de alguma operação ilícita?
Pessoas que conviveram com Paulo Henrique afirmam que ele não resistirá a uma longa temporada na prisão. Ele tem preocupação com a família, e a situação é realmente difícil, porque ele está com os bens bloqueados pela Justiça. Por isso, o esforço para ser contemplado por benefícios será sem medidas. Mas, para a Polícia Federal, e para homologação do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal (STF), não bastam palavras; é preciso que haja provas e a revelação do rastro do dinheiro.
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