CB.AGRO

Nascem primeiros bezerros de nova raça bovina que chegou ao Brasil

Pecuarista Diego Mendes, doutor em saúde animal, explica a importância da chegada da raça Boran ao Brasil. Vindos do Paraguai, embriões e sêmen da raça africana começam a despertar o interesse de pecuaristas de todo o país

Na última semana, começaram a nascer os primeiros bezerros da Boran no Brasil, primeira nova raça zebuína introduzida no país em mais de 30 anos. Oriundos do Paraguai, embriões e sêmen da raça africana começam a despertar o interesse de pecuaristas de todo o país, que apostam nela para aumentar a produtividade, a rusticidade e a sustentabilidade do rebanho nacional. No CB.Agro — parceria do Correio Braziliense e a TV Brasília — desta sexta-feira (15/5), o pecuarista Diego Mendes, doutor em saúde animal, explicou às jornalistas Mariana Niederauer e Sibele Negromontea a importância desse trabalho para a pecuária brasileira.

Como foi o trabalho para chegar a esse nascimento em solo nacional?

É um trabalho longo. Descobri a raça no início dos anos 2000, pela internet. Em 2007, fui para a Austrália visitar rebanhos australianos e, de lá, segui para a África do Sul, onde conheci outros criadouros. Voltei com o sonho de trazer a raça para o Brasil. Porém, não conseguimos a documentação necessária e o projeto acabou ficando um pouco apagado. Depois, houve uma exportação da África do Sul para o Paraguai. Localizamos esses criadores paraguaios, entramos em contato e começamos a luta para abrir o protocolo de importação de material genético, como embriões e sêmen, porque ainda não existia esse protocolo. Levamos cerca de três anos para conseguir essa autorização. Quando deu certo, iniciamos a importação de 174 embriões. Entre as raças zebuínas, a última a entrar no Brasil foi a Brahman, em 1994. Agora, chega a Boran.

A raça Nelore constitui a grande maioria no Brasil. Qual é o potencial da Boran?

A Boran vem para complementar o Nelore. O Nelore tem excelentes características e provou ser o gado mais adaptado ao Brasil. Porém, como toda raça, também tem limitações. Eu acredito muito nesse complemento entre raças: usar a excelente base que já temos com o Nelore e incorporar genética de fora para melhorar a eficiência do rebanho. A Boran é uma alternativa genética muito interessante por ser um zebu especializado em carne, de porte médio e com aptidão carniceira. No Brasil, nossos zebus de corte costumam ter frame maior, que é a média de altura e a estrutura do esqueleto do animal para prever o potencial de crescimento e peso de abate. A Boran chega com um frame médio, voltado para eficiência produtiva.

Quais outras características são destaque na raça?

É uma raça extremamente fértil e longeva. Na África do Sul e no Quênia, é comum encontrar vacas com mais de 20 anos ainda parindo. Também é muito rústica e adaptada a climas extremos, forragens de baixa qualidade e até à escassez de água em algumas situações. Acreditamos que ela pode complementar muito bem o rebanho nacional, aumentando a eficiência produtiva. A vaca Boran consegue desmamar um bezerro com mais de 50% do próprio peso, o que é uma característica muito importante quando falamos em produtividade por área.

As mudanças climáticas já impactam a pecuária?

Vivemos mudanças climáticas no mundo inteiro. Falta chuva em algumas regiões, sobra em outras, e o clima está cada vez mais imprevisível. Acreditamos que a Boran pode ajudar muito nesse cenário porque vem de uma realidade extremamente inóspita. É um animal preparado para tolerar secas prolongadas e alimentação de baixa qualidade. É uma raça forjada para a sobrevivência. O melhoramento genético começou no Quênia, há mais de 50 anos, com fazendeiros de origem inglesa que selecionaram animais adaptados à região e iniciaram um trabalho de aprimoramento.

O Brasil possui tecnologia suficiente para esse melhoramento genético?

Sim. A tecnologia brasileira em reprodução animal é de ponta. A transferência de embriões no Brasil é altamente viável. Acredito que, com a tecnologia que temos e com a questão nutricional brasileira, mais tecnificada do que em muitos países africanos, conseguiremos desenvolver um Boran diferente do restante do mundo, com características próprias do Brasil. Nosso bioma é diferente do africano, e isso vai exigir adaptações a longo prazo.

O consumidor final também está mais atento à sustentabilidade da produção. Essa é uma preocupação do setor?

Muita gente procura uma agropecuária mais sustentável. Os africanos têm uma lógica interessante: eles adaptam o animal ao ambiente, sem transformar tanto a região. No Brasil, acredito que a Boran pode contribuir bastante para projetos mais sustentáveis.

A raça também responde bem a sistemas de produção mais intensivos?

Já estamos expondo a raça a cruzamentos por meio da inseminação artificial em sistemas mais intensivos, e os resultados têm sido muito positivos. Apesar de termos buscado a Boran pela rusticidade em biomas desafiadores, ela também responde muito bem quando recebe boa nutrição. A genética e a nutrição são totalmente importantes na qualidade da carne.

Assista à entrevista

 

Mais Lidas