
O que parece apenas um pequeno inseto escondido entre os pomares do Distrito Federal virou motivo de preocupação para pesquisadores e produtores rurais. Moscas-das-frutas estão se multiplicando em níveis considerados alarmantes no DF e podem comprometer desde a qualidade das frutas até o futuro de culturas promissoras no Cerrado, como o mirtilo.
Levantamentos realizados neste ano, pela Embrapa, identificaram índices de infestação muito acima do considerado seguro para a produção comercial. Além das espécies já conhecidas pelos agricultores, os pesquisadores também confirmaram a presença da Drosophila suzukii, mosca invasora que preocupa produtores de frutas de pele fina por atacar frutos ainda sadios, diretamente no pé.
A situação coloca em xeque uma das apostas recentes da fruticultura do Distrito Federal: a expansão de frutas finas voltadas ao mercado premium. O temor é que o aumento das pragas torne algumas produções economicamente inviáveis antes mesmo de sua consolidação na região.
A pesquisadora Elisângela Fidelis, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, explicou que o trabalho de monitoramento começou com foco na prevenção de pragas quarentenárias, aquelas consideradas ameaça internacional à agricultura brasileira. Segundo ela, apesar do cenário preocupante dentro dos pomares, o DF continua livre das espécies mais temidas mundialmente. "Até agora, não encontramos as moscas quarentenárias do gênero Bactrocera, que representam grande ameaça para a fruticultura brasileira", afirmou.
Mesmo assim, o alerta permanece ligado. Isso porque a circulação de frutas entre estados e países é vista como uma das principais portas de entrada para novas pragas. "Uma única fruta infestada pode comprometer toda uma região produtora", disse a pesquisadora.
Hoje, o maior desafio identificado pelos cientistas não está apenas na chegada de espécies exóticas, mas no crescimento populacional das moscas já presentes no Cerrado. Em áreas de cultivo de goiaba, os pesquisadores registraram índices até seis vezes superiores ao limite considerado ideal para uma produção de qualidade.
O problema vai além da aparência da fruta. As moscas depositam ovos ainda durante o desenvolvimento do fruto e as larvas crescem protegidas no interior da polpa. Muitas vezes, os danos só aparecem quando a fruta já chegou ao consumidor. "Depois que a fruta está com o ovo da mosca, não tem mais o que fazer. O fruto está perdido", explicou Elisângela Fidelis.
A preocupação aumenta com a presença da Drosophila suzukii, considerada uma das principais ameaças para culturas como morango e mirtilo. Diferentemente das moscas tradicionais, que normalmente atacam frutos maduros ou machucados, essa espécie consegue perfurar frutas ainda firmes e sadias.
Preocupação
Nos campos, os agricultores já conhecem de perto os prejuízos que as moscas-das-frutas podem causar. A produtora rural Luma Cenci, 25, contou que já enfrentou problemas com a praga em sua propriedade, mas conseguiu controlar a situação com mudanças no manejo. "Já tivemos problemas com moscas-das-frutas na produção. É uma situação que afeta diretamente a qualidade dos frutos e exige atenção constante do produtor", relatou.
Segundo ela, o controle só foi possível com a adoção de medidas preventivas e monitoramento permanente da área cultivada. "Hoje não temos mais esse problema porque passamos a investir em monitoramento frequente, limpeza da área, retirada dos frutos comprometidos e uso de produtos biológicos. Também fazemos rotação de culturas e acompanhamos a lavoura de forma mais próxima para evitar que a população da praga aumente", explicou.
Para a produtora, a prevenção é mais eficiente do que tentar combater a infestação depois que ela já está instalada. "Quando o produtor acompanha de perto e age rapidamente, consegue reduzir bastante os prejuízos".
A necessidade de vigilância também é observada por quem aposta em novas culturas no Cerrado. Um dos produtores de mirtilo no Distrito Federal é Murilo Padilha, 52 anos, fruticultor. "Quando começamos a cultivar mirtilo, enfrentamos muitos problemas com moscas-das-frutas. Houve períodos em que perdemos parte da produção porque os frutos eram atacados antes mesmo da colheita. Como o mirtilo é uma fruta muito sensível e de alto valor agregado, qualquer infestação gera prejuízo significativo", relatou.
Segundo o produtor, o controle exigiu mudanças no manejo e acompanhamento constante da lavoura. "Com o tempo passamos a investir mais em monitoramento, manejo preventivo e acompanhamento técnico. Hoje a situação está mais controlada, mas a preocupação continua porque basta um aumento da população da praga para comprometer a qualidade dos frutos e afetar a comercialização", completou.
Para ele, a vigilância permanente é uma condição indispensável para manter a viabilidade da cultura no Distrito Federal. "Quem trabalha com mirtilo sabe que não pode relaxar. É uma cultura que exige atenção constante. Quando a mosca aparece em maior quantidade, o impacto é rápido e pode atingir toda a produção".
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