
O enfrentamento à violência digital contra as mulheres exige qualificação para identificar, acolher e encaminhar as vítimas de crimes praticados em ambientes virtuais. E quem as atende também precisa de apoio emocional, porque também não é fácil lidar com esses relatos. Um dos principais serviços do país para enfrentamento à violência de gênero, a Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, serviço oferecido pelo Ministério das Mulheres, promoveu nesta terça-feira (9/6) uma qualificação para suas atendentes com foco em ocorrências voltadas à esfera digital, tais como perseguição on-line, divulgação não autorizada de conteúdo íntimo, importunação sexual digital e estupro virtual.
Entre os motivos de atenção para o treinamento dessas profissionais, está o aumento no número de registros desse tipo de situação. Dados do Ligue 180 mostram que, em 2025, foram contabilizadas 4.584 denúncias relacionadas à violência digital contra mulheres no país. Em 2026, até agora, já foram contabilizadas 2.281 ocorrências.
A atividade faz parte da campanha O Digital é Nosso Lugar, iniciada em novembro de 2025 pelo Ministério das Mulheres para reafirmar que a internet não é um lugar sem lei, e sim, um espaço de presença de mulheres, que não podem ser silenciadas ou expulsas das redes ou responsabilizadas pela violência que sofrem no ambiente virtual. A campanha também busca conscientizar sobre esse tipo de agressão, pois muitos acreditam que, sendo em ambiente virtual, não seria violência.
O Correio foi convidado a visitar a Central 180 e acompanhar o treinamento dessas profissionais. Durante a formação, conduzida pelas especialistas em gênero Janara Sousa e Almerinda Lopes, as atendentes receberam orientações sobre as diferentes formas de violência praticadas no ambiente virtual.
Professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora da área de violência digital, Janara destacou que o tema necessita ser de conhecimento da sociedade. "Precisamos realmente parar e ajudar as mulheres a identificarem o que é violência digital, como se proteger e o que fazer. Elas precisam saber como agir se estiverem passando por isso, mas também se estiverem vendo alguém em uma situação como essa. É possível buscar orientação no 180, mesmo sem ser a vítima, mas vendo alguém ser vitimada", explicou.
A preparação das equipes também incluiu o enfrentamento da violência política de gênero, que tem encontrado nas redes sociais um movimento para ataques e intimidações. Segundo a coordenadora de atendimento da Central 180, Nery Araújo, a proximidade do período eleitoral exige atenção especial.
"A violência política de gênero está totalmente ligada à violência digital. Estamos em um ano eleitoral e nos preparando para que todas as mulheres, sejam candidatas, sejam lideranças políticas, estejam respaldadas pelo 180", afirmou.
Para Jaqueline Sutarelli, gerente-geral da Central 180, a atualização constante das equipes garante um atendimento mais humanizado. "Essa capacitação sensibiliza ainda mais as atendentes para continuarem oferecendo a mesma escuta ativa, a mesma qualidade de atendimento e esse acolhimento tão importante para que a mulher se sinta segura e consiga se proteger".
Suporte psicológico
Os preparos técnico e emocional são essenciais para lidar com as vítimas. Atualmente, 353 mulheres atuam no atendimento do Ligue 180. Além das qualificações semanais, que somam 90 minutos de treinamento contínuo, as profissionais contam com acompanhamento psicológico individual e grupos de apoio à disposição durante toda a jornada de trabalho.
Há três anos na Central 180, a atendente Ana* participou da capacitação e falou sobre a necessidade de atualização constante diante das transformações tecnológicas.
"A violência contra a mulher sempre apresenta novas nuances. A capacitação é fundamental para que a gente esteja preparada para atender essas situações. Muitas pessoas acreditam que, por acontecer na internet, tudo fica mascarado. Mas existe legislação e existe o Ligue 180 para combater essas práticas", observou.
"Um caso que me assustou foi o de uma moça que teve suas fotos alteradas por inteligência artificial e espalhadas na internet. A tecnologia está avançando muito rápido e isso está se tornando cada vez mais comum", completou.
*O nome da personagem foi alterado para preservar a identidade.
Assista ao vídeo produzido pelo Correio na Central 180
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