Cinema

Atuante por décadas no cinema, Orlando Senna deixa legado irrepreensível

Companheiros do audiovisual brasileiro destacam a atuação de Orlando Senna em segmentos relacionados à preservação de memória e à formação de profissionais

Orlando Senna, nos bastidores do filme Longe do paraíso (2020) -  (crédito: Sueli Seixas/ Divulgação)
Orlando Senna, nos bastidores do filme Longe do paraíso (2020) - (crédito: Sueli Seixas/ Divulgação)

Renovador de gerações de criadores do audiovisual, o cineasta Orlando Senna, falecido na tarde desta terça (9/6), atuou em frentes que garantem uma perenidade a sua obra e legado. Cineasta e estudioso do cinema nacional, Joel Pizzini atesta a o patamar de entrosamento de Senna com Glauber Rocha, uma dupla destinada a firme amizade e comprometimento com a classe criadora. "Glauber teve como dois maiores amigos Orlando Senna e Gustavo Dahl. Com a partida de Orlando perde-se um interlocutor habilidoso no plano político. Se foi mais um líder cultural que seguirá como farol luminoso para o cinema brasileiro. Evocar e reconhecer o legado inspirador de Senna é fundamental. Ele foi um pensador de alma latina. Lembro dele, na universidade, difundindo a atuação que teve em agência de notícias em favor da emancipação de países africanos que sofriam efeitos do domínio colonial", pontua Pizzini.

Orlando Senna, entre outros feitos, é o cocriador do inventivo Iracema, uma transa amazônica (grande premiado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro da edição de 1980). Gestos acusam o caráter generoso de Senna, na memória de Joel Pizzini. "Em Cannes, durante um festival, nos idos dos anos 70, Senna levantou, por meio de premiação, investimentos financeiros para a escola internacional de San Antonio de Los Baños (centro cubano que projeta muitos realizadores do Brasil). Como o dinheiro não podia ser depositado em conta, dado o bloqueio da época, foi a cineasta francesa Agnès Varda quem recebeu o dinheiro, e o Orlando Senna, em avião, levou a bolada para ser investida no ensino", conta Pizzini.

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O enlace de irmão, estruturado junto a Glauber, rendeu o zelo com a obra do autor de Terra em transe, depois de sua morte em 1981. "Para ser ter uma ideia da intimidade, houve parte de roteiro escrito por Glauber Rocha, pelado, sentado à máquina de escrever de Senna (risos). Foi Orlando Senna quem batizou o Tempo Glauber (reduto carioca da preservação da obra de Glauber Rocha). Ele investiu e apostou no projeto abortado à época do governo Temer, de um local físico, com potencial de centro cultural. Ao menos, houve a digitalização de documentos e a restauração dos filmes de Glauber. Como demarca um dos filmes dele: "A política e a poesia são demais para um só homem". Mas Orlando Senna driblou o impasse, e, em atos generosos, apostou na formação de muitos profissionais do audiovisual", conta Pizzini.

Contribuições

Produtora de cinema, e viúva do cineasta Geraldo Moraes, Solange Moraes contou ao Correio dos laços afetivos e da generosidade de Senna. "Tive ele como se fosse um pai. Aos 12 anos, visitei um primeiro set, na vida, montado com o empenho de Orlando e de Conceição Senna (esposa dele por mais de 60 anos), em Lençóis (Bahia). Décadas depois, com Orlando na secretaria do audiovisual, houve um efeito divisor de águas. Ele trouxe conquistas como o projeto Revelando os Brasis e o Doc.Tv projeto do registro de desbravamento da realidade nacional. Nisso, injetou a descentralização do eixo de produção do eixo Rio-SP", comenta Solange, produtora da oficina de roteiros coordenada em Lençóis, por mais de 20 anos, e produtora dos filmes Longe do paraíso (de Orlando) e Brilhante (assinado por Conceição Senna).

O criador de roteiros para filmes de Hector Babenco e de Ruy Guerra, entre outros foi bastante produtivo. "Há um arquivo rico na casa dele que espero que o governo tenha a sensibilidade de cuidar", observa Solange. Cunhada de Orlando, a fotógrafa Sueli Seixas, é responsável pelo acervo de Orlando Senna, e completa: "Ele deixou fotografias analógicas e digitais, conjuntos documentais e filmes, para além de biblioteca especializada no segmento do cinema".

Dea Barbosa, assessora e amiga de Orlando Senna, ressalta que além de um grande cineasta, Senna era um excelente articulador de políticas públicas para o cinema. “Eu pude testemunhar isso quando trabalhei com ele na Secretaria do audiovisual do MinC, tendo como ministro Gilberto Gil, período em que ele articulou os projetos Revelando os Brasis e o DOC TV, entre outros, e depois quando o acompanhei na criação da EBC/TV Brasil”, relembra.

A amiga ainda destaca a paixão de Senna por Cuba e como fundou, ao lado de Gabriel Garcia Marquez, a Escuela Internacional de Cine y Televisión, instituição que formava profissionais de cinema e televisão, onde foi diretor. "Afora isso, foi meu mestre, amigo e cúmplice, e pude me despedir dele no mês de abril, no Rio de Janeiro, quando ele recebeu uma linda e justa homenagem dos amigos e dos companheiros do audiovisual”, contou Dea.

Colaborou Mariana Reginato

 

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postado em 09/06/2026 19:07
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