
A pouco mais de quatro meses das eleições no Distrito Federal, o primeiro grande retrato do cenário político local desenhado pela pesquisa Correio/OPINIÃO Inteligência Política, publicada ontem, indica uma disputa aberta. O levantamento aponta aprovação de 45,7% da governadora Celina Leão (PP), mantém o ex-governador José Roberto Arruda (PSD) entre os principais protagonistas do cenário político local e revela um elevado número de eleitores que não consolidaram suas escolhas.
Realizada entre 11 e 15 de junho, a pesquisa ouviu presencialmente 1.095 eleitores em todas as regiões administrativas do Distrito Federal e possui margem de erro de 3,4 pontos percentuais. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o número RASC-SD0994.
O cenário retratado pelo levantamento reflete uma fase de pré-campanha, marcada por negociações partidárias, indefinições sobre alianças e um eleitorado que não consolidou suas escolhas. Na avaliação do mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB) Valdir Pucci, o levantamento deve ser interpretado como um retrato do momento político. "Não há um engajamento grande do eleitor. Estamos na fase das pré-candidaturas. Esse envolvimento tende a crescer quando a campanha começar oficialmente e os candidatos estiverem definidos", afirmou.
Aprovação
A pesquisa mediu a percepção da população sobre a gestão da governadora Celina Leão, que assumiu o comando da capital federal há pouco mais de dois meses. Segundo o levantamento, 45,7% aprovam a administração da governadora. Outros 31,9% desaprovam e 19,3% não souberam avaliar.
Na avaliação qualitativa, 6,5% classificam a gestão como ótima e 22,8% como boa. A maior parcela dos entrevistados, 38%, considera o governo regular. Outros 6,6% avaliam a administração como ruim e 14,9% como péssima.
Celina entendeu que os índices refletem as ações implementadas nos primeiros meses de gestão. "Eu avalio a notícia de uma forma muito positiva, até porque peguei o GDF com dois grandes desafios, que eram a questão financeira e a questão do BRB. Eu peguei com deficit financeiro de quase R$ 5 bilhões, peguei com um problema do BRB muito grave e dei solução a todos esses problemas. Eu cortei gastos, usei de forma eficiente os recursos e estou ampliando os atendimentos nas áreas prioritárias que são demandas da população, como a saúde", declarou.
A governadora destacou as ações tomadas nos primeiros meses de gestão. "A população está preocupada se você tem condição de realmente organizar o Estado. Em menos de 60 dias eu mostro isso. Eu resolvi o problema do BRB, resolvi os problemas das finanças públicas e estou entregando muito mais na área da saúde", acrescentou.
Na avaliação do sociólogo e mestre em ciência política pela UnB Ariel Calmon, a aprovação representa um ativo importante para a governadora. "A tendência é de que os eleitores recompensem governos bem avaliados e candidatos associados à gestão em exercício. Nesse sentido, Celina Leão parte de uma posição favorável, impulsionada por uma aprovação superior a 45%", analisou.
Bem lembrado
A permanência do ex-governador José Roberto Arruda entre os principais nomes do cenário político local chamou atenção dos analistas. Mesmo afastado do comando do Executivo há anos, Arruda continua aparecendo entre os nomes mais lembrados pelos eleitores.
Na avaliação de Ariel Calmon, a presença de Arruda entre os nomes mais lembrados pelos eleitores reforça a capacidade de o ex-governador manter influência no cenário político local, apesar de anos afastado do Executivo. "O destaque é a performance de Arruda. Mesmo fora de cargos executivos e após enfrentar desgastes políticos significativos, ele mantém um patamar elevado de intenção de voto, o que demonstra a força de sua liderança e de seu capital político", avaliou.
Procurado pela reportagem, o ex-governador comemorou o resultado. "Esse número é a melhor notícia que eu já tive. Se somar os meus votos com os do Izalci, eu estou em primeiro lugar. O resultado mostra que eu estou elegível, que era o que eu precisava. Me dá a certeza de que vamos ganhar a eleição. Sou candidato a governador, não tenho plano B. Quero uma composição com outros partidos. Por enquanto estamos apenas com o Avante, mas quero ampliar as alianças", declarou.
Segundo Ariel Calmon, a posição de Arruda influencia diretamente as negociações partidárias. "Ao afirmar que não possui outros planos, ele sinaliza que pretende permanecer na disputa e obriga os partidos de centro-direita a incorporarem essa variável em seus cálculos estratégicos."
Votos indefinidos
Um dos principais pontos observados pelos especialistas é o elevado número de eleitores que não consolidaram suas escolhas. O elevado percentual de indecisos é considerado esperado pelos especialistas neste estágio da corrida eleitoral, quando as convenções partidárias não ocorreram e muitas alianças seguem em negociação. Segundo Valdir Pucci, o eleitor tende a se envolver mais intensamente com a disputa apenas após o início oficial da campanha. "Não há um engajamento grande do eleitor. Estamos na fase das pré-candidaturas. Esse envolvimento tende a crescer quando a campanha começar oficialmente e os candidatos estiverem definidos", explicou.
A deputada federal Paula Belmonte (PSDB) avaliou esse cenário do levantamento. "Um dado que me chama especialmente a atenção é o número expressivo de eleitores indecisos. Isso demonstra que grande parte da população está observando, avaliando alternativas e esperando conhecer melhor os projetos e propostas que serão apresentados para o Distrito Federal", destacou.
Segundo a parlamentar, o momento oferece espaço para o crescimento de diferentes candidaturas. "Vejo esse cenário como um sinal de que há um espaço importante para o diálogo e construção de uma candidatura conectada com as reais necessidades das pessoas", disse.
Mudanças
Os números divulgados provocaram reações entre os adversários da atual gestão. O ex-presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) Ricardo Capelli (PSB) questionou os resultados apresentados.
"Eu não acredito nessa pesquisa. Em nenhum levantamento que eu acompanho apareço com esse percentual. Se alguém acha que isso vai me desanimar, acontece exatamente o contrário. Eu fico mais animado porque nós vamos ganhar a eleição", declarou. Capelli ressaltou que segue dialogando com partidos de diferentes campos políticos na tentativa de construir uma frente ampla para a disputa eleitoral.
O senador Izalci Lucas (PL) criticou a metodologia e o cenário apontado pelo levantamento. "Recebo esses números com naturalidade, pois a política no DF não se faz com projeções de laboratório. A pergunta que fica é inevitável: vocês fizeram essa pesquisa dentro do Palácio do Buriti?".
O parlamentar relacionou a avaliação do governo aos problemas enfrentados em áreas como saúde e educação e à crise envolvendo o BRB. "As ruas nos mostram que ninguém mais quer a Celina. O que eles querem é alguém com experiência e que não esteja envolvido em escândalos de corrupção", disse.
Leandro Grass (PT) afirmou que a prioridade do grupo é apresentar um projeto alternativo para o Distrito Federal. "Não temos apenas um nome, mas um projeto. Estamos trabalhando com o objetivo de vencer as eleições e reconstruir o DF. Vamos apresentar e implementar soluções para os problemas reais que sufocam a população. Sem mentiras, sem ilusões ou fantasias", ressaltou.
Pré-candidata da Unidade Popular (UP), Samara Mineiro avaliou positivamente o desempenho registrado pela legenda no levantamento. "É bastante positivo pontuar nesta pesquisa, após pouco mais de 15 dias do lançamento da pré-candidatura, e com todas as barreiras impostas pelo nosso sistema eleitoral profundamente desigual, que impede o acesso ao fundo partidário, espaços de rádio e TV e muitas vezes inclusive nos priva de participar de debates aos novos partidos. A UP é o partido que mais cresce proporcionalmente. Temos sido recebidos com entusiasmo pela população do DF, que busca uma renovação na política e vê na candidatura de uma mulher periférica, professora, uma alternativa para uma vida digna na capital", ressaltou.
A reportagem procurou os pré-candidatos Kiko Caputo (NOVO) e Reguffe (Solidariedade) para comentar os resultados, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição.
Efeito BRB
Um dos temas que mais tem mobilizado o debate político é a crise envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. A pesquisa mediu o impacto do caso junto ao eleitorado e identificou que 45% dos entrevistados afirmam que o episódio interfere na escolha do voto para as eleições de outubro. Outros 50% disseram que a crise não terá influência em sua decisão eleitoral, enquanto 4% não souberam responder.
O tema ganhou espaço nas discussões políticas após a revelação das operações financeiras que resultaram em prejuízos bilionários ao BRB e levaram à prisão do ex-presidente da instituição Paulo Henrique Costa e do empresário Daniel Vorcaro, controlador do Master.
O resultado indica que a crise do BRB/Master segue presente no debate público e tem potencial para influenciar uma parcela significativa do eleitorado. Na avaliação de Valdir Pucci, o dado reforça a tendência de o eleitor brasiliense observar temas diretamente ligados à administração local. "A eleição para o Buriti tende a ser decidida por questões locais. O eleitor consegue diferenciar as disputas nacionais das regionais e normalmente avalia problemas e soluções relacionados à sua realidade cotidiana", destacou.
Próximos capítulos
Apesar das movimentações dos pré-candidatos, os especialistas alertam que a pesquisa deve ser encarada como um retrato do momento político. "Ela é importante para mostrar como os candidatos estão sendo vistos pela sociedade hoje, mas não permite prever o resultado da eleição", afirma Valdir Pucci.
O cientista político destacou que a tendência histórica do Distrito Federal é de maior engajamento dos eleitores apenas durante a campanha oficial, quando os nomes estarão definidos e o debate eleitoral ganhará as ruas.
Saiba Mais
Paulo Gontijo
Jornalista e repórter da editoria de Cidades do Correio Braziliense. Atuou na comunicação interna do Banco do Brasil e integrou a equipe de Marcelo Tas, com interesse em narrativas humanizadas, acessibilidade e temas sociais.
Mila Ferreira
RepórterJornalista graduada pelo IESB e pós-graduada em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela PUC-RS. Experiência como roteirista e assessora de comunicação pública e corporativa. Repórter na editoria de Cidades do Correio Braziliense
Ana Carolina Alves
RepórterFormada em Jornalismo pela Universidade de Brasília, com interesse na cobertura de pautas de direitos humanos, justiça e questões sociais

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