Crime ao volante

'Ela era alegre e acolhedora', diz amiga de mulher que morreu atropelada

Elcina Pereira Brito, 58 anos, foi atingida por um Prisma branco enquanto caminhava no Setor Hapitacional Arapoanga. O motorista teve a prisão em flagrante convertida para preventiva. Esse é o terceiro caso de atropelamento em três dias no DF

O Distrito Federal registrou o terceiro atropelamento fatal em um intervalo de apenas três dias. O caso mais recente ocorreu nessa terça-feira (2/6), no Setor Habitacional Arapoanga, e resultou na morte da aposentada Elcina Pereira Brito, 58 anos. A vítima, que trabalhava como costureira e completaria 59 anos no próximo dia 11 de julho, foi atingida por um Chevrolet Prisma branco enquanto caminhava pela ciclovia da região. No volante, estava Erick Sávio Alves de Souza, 21, que dirigia sob efeito de drogas e sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Ele teve a prisão em flagrante convertida para preventiva e ficará preso por tempo indeterminado.

Câmeras de segurança no local registraram o momento em que o veículo, trafegando em alta velocidade por uma via estreita e movimentada, invadiu a pista exclusiva para bicicletas e pedestres e arremessou o corpo da costureira contra a entrada de comércios da quadra. Elcina morreu na hora. Aos policiais, o motorista admitiu ter consumido maconha e o medicamento de tarja preta Rohypnol antes de assumir a direção. No interior do carro, os agentes apreenderam porções de entorpecentes e uma cartela do remédio de uso controlado.

No Arapoanga, o clima é de revolta e consternação. "Ela era líder comunitária da cidade e sempre buscava soluções para as demandas locais na tentativa de ajudar pessoas em vulnerabilidade. Era mobilizada, querida e conhecida por todos", contou Paulo Silva, diretor da rádio Terra FM, de Planaltina. O radialista relatou que a equipe de reportagem estava na padaria ao lado do local do sinistro no momento da colisão. "Estávamos tomando café quando ouvimos um grande barulho. Só conseguimos identificá-la depois da chegada da Polícia Militar. Foi um choque", completou.

Falta

Nas redes sociais, familiares de Elcina se despediram, mas, ainda muito abalados, preferiram não falar com a imprensa. Em uma das homenagens, uma sobrinha da vítima a descreveu como uma segunda mãe. "Descanse em paz. Te amaremos eternamente", escreveu. Em outra publicação, uma mulher que se identifica como comadre da vítima também lamentou a morte. "Saudades eternas. Que o Senhor a receba em sua glória e conceda conforto a todos que sentem sua falta", afirmou. "Sua presença continua viva em nossas memórias e em nossos corações", acrescentou.

Elcina morava em um lote com várias kitnets na região do Arapoanga, onde ocorreu o atropelamento. Ela deixa dois filhos que moram em Goiânia.

Próxima da vítima, a moradora Ana Alves, 41, descreveu a amiga como uma pessoa acolhedora e muito querida na comunidade. "Ela era alegre, para cima, muito acolhedora. No domingo, ia uma 'pancada' de vizinhos comer lá. A casa dela era aberta, todo mundo frequentava", lembrou.

Material cedido ao Correio - Elcina Pereira tinha 58 anos e era aposentada

A rotina da vítima era conhecida pelos vizinhos. "Todos os dias ela saía para fazer essa caminhada, era de costume", disse Ana. Ela destacou a ausência que Elcina deixará no convívio do bairro. "Ela vai fazer muita falta aqui. Vou lembrar do sorriso dela, ela ria alto. Daqui de casa eu escutava. Vou lembrar do café amargo, do jeito que eu gosto e que só ela sabia fazer", relatou.

Prisão

O delegado Richard Valeriano, da 16ª Delegacia (Planaltina), afirmou que o motorista foi detido no local e se recusou a fazer o teste do bafômetro, mas apresentava sinais de alteração. "Foi lavrado um auto de constatação de alteração da capacidade psicomotora. Ele foi autuado em flagrante pelos crimes de homicídio culposo, agravado por estar sob influência de substância entorpecente, lesão corporal culposa, já que a passageira também se feriu, e por conduzir veículo sem a devida habilitação, gerando perigo de dano", explicou.

A Justiça do Distrito Federal converteu em preventiva a prisão em flagrante do motorista. De acordo com o delegado, o suspeito possui antecedentes criminais. "Ele tem passagem por tráfico de drogas, adulteração de sinal identificador de veículo e outras infrações. O autuado vai ser encaminhado para a audiência de custódia, provavelmente nesta quarta, e o juiz vai avaliar se ele permanece preso ou se vai ser colocado em liberdade com alguma restrição", afirmou. "Diante da gravidade do crime e dos antecedentes, a autoridade policial representou pela prisão preventiva", declarou.

Durante o interrogatório prestado na delegacia, Erick relatou que havia saído durante a noite com um amigo e retornava para casa quando ocorreu o atropelamento. Ele disse que dirigia um carro alugado, pertencente à tia, e que seguia em baixa velocidade, entre 25 e 30 km/h, ao se aproximar de um retorno. 

O motorista sustentou que não teve culpa e que a vítima teria provocado a situação ao atravessar de forma inesperada. "Ela correu para cima do meu carro", declarou. Ao longo do depoimento, o homem demonstrou nervosismo e pediu diversas vezes para ser liberado, alegando ter dois filhos e preocupação com a família. Ele mencionou dificuldades financeiras, incluindo uma dívida relacionada ao veículo.

Erick confirmou ter tido passagens pela polícia por tráfico de drogas no passado, segundo ele, por portar pequena quantidade de maconha e por envolvimento com uma motocicleta com placa adulterada. Disse que, neste último caso, paga atualmente uma penalidade mensal. Apesar disso, ele negou envolvimento com atividades criminosas recentes e afirmou que "não é bandido".

Outros dois casos de atropelamento aconteceram no último sábado. Um deles foi na Rodovia Presidente Juscelino Kubitschek, em frente a um posto de combustíveis, no sentido Valparaíso de Goiás. No local, os socorristas encontraram uma mulher caída sobre a pista, em parada cardiorrespiratória e com traumatismo cranioencefálico grave. A vítima não resistiu aos ferimentos e teve o óbito constatado ainda na via. Pouco depois, outro atropelamento fatal foi registrado na região da Estância Mestre D'Armas, em Planaltina. Segundo o CBMDF, a vítima, um homem, estava sem sinais vitais quando os bombeiros chegaram. O motorista fugiu.

*Colaborou Davi Cruz

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