Taguatinga completa 68 anos nesta sexta-feira (5/6). Fundada antes mesmo da inauguração oficial de Brasília, a região mantém viva a característica que marcou sua origem: a capacidade de reunir diferentes pessoas, histórias e iniciativas em torno de um mesmo território.
Com o objetivo de fortalecer essa vocação, a Rede Cidadã de Taguatinga (RECITA), criada em 2022, busca aproximar moradores, coletivos, instituições e o poder público em torno de projetos para a cidade. Um dos integrantes da rede, Júlio Carneiro, conta ao Correio que a proposta é justamente criar espaços de diálogo e participação.
Júlio também destaca que um dos resultados foi a aproximação entre gerações que compartilham o mesmo interesse pela cidade. “Reconhecemos que temos poucos anos de existência e que toda iniciativa social tem limites, mas insistimos naquilo que parece ser a principal necessidade da cidade: cultivar espaços de conexão”, destaca Julio.
Nos últimos anos, jovens passaram a integrar a rede e a atuar ao lado de moradores mais antigos e agentes culturais que ajudam a preservar a memória da cidade. A convivência tem fortalecido manifestações artísticas já tradicionais em Taguatinga e aberto espaço para novas expressões culturais, como o hip hop e as batalhas de rima.
De acordo com Felipe Resende, presidente da rede, a proposta vai além das atividades culturais. “Sonhamos que o local abrigue também uma casa dos conselhos, integrando diferentes conselhos comunitários de políticas públicas, além de uma incubadora de projetos sociais, culturais e econômicos”, explica.
A valorização da memória e da identidade local também está entre as prioridades da iniciativa. A rede tem buscado aproximar universidades e projetos de extensão acadêmica das demandas da cidade, utilizando o conhecimento produzido nas instituições de ensino como ferramenta para enfrentar desafios urbanos e preservar o patrimônio cultural e ambiental de Taguatinga.
Na área ambiental, a atuação da RECITA inclui ações voltadas à preservação de espaços públicos e áreas verdes, como a Praça do DI, o Taguaparque, o Parque União, o Parque Boca da Mata, a Floresta Nacional e a Área de Relevante Interesse Ecológico Juscelino Kubitschek (ARIE JK).
Além disso, a entidade acompanha debates sobre planejamento urbano e mobilidade, participando de conselhos e colegiados ligados a temas como cultura, meio ambiente, segurança e transporte. A proposta é ampliar a participação da sociedade civil nas decisões que impactam diretamente o desenvolvimento da cidade.
Como próximo passo, a rede pretende promover uma reunião pública aberta para construir propostas voltadas ao futuro de Taguatinga e dialogar com representantes políticos sobre uma agenda cidadã para a região. A iniciativa parte de uma pergunta: “Que cidade queremos construir juntos?”.
A rede também abriu uma chamada para ideias projetos comunitários. Iniciativas de caráter comunitário, cultural, artístico, esportivo e social são bem-vindas no projeto. O espaço está aberto para oficinas, rodas de conversa, clubes de leitura, cinema ou debates, aulas de teatro, dança ou artes marciais, torneios, campeonatos, seminários e reuniões comunitárias.
A própria história de Taguatinga ajuda a explicar o surgimento de iniciativas como a RECITA. Planejada para receber trabalhadores que participavam da construção de Brasília, a cidade nasceu da mistura de pessoas vindas de diferentes regiões do país. Décadas depois, essa diversidade continua sendo uma das características mais marcantes do território.
Nos últimos anos, jovens passaram a fazer parte do movimento e a atuar ao lado de moradores mais antigos, artistas, educadores e agentes culturais que acompanham a história da cidade há décadas.
Essa aproximação tem produzido encontros pouco comuns entre gerações. De um lado, pessoas ligadas à tradição cultural de Taguatinga. Do outro, jovens envolvidos com manifestações contemporâneas, como o hip hop, as batalhas de rima, o audiovisual independente e novas formas de ocupação dos espaços urbanos.
De espaço abandonado a centro comunitário
Pode-se dizer que um dos projeto mais ambicioso da RECITA está ligado ao edifício localizado no Setor Hoteleiro Sul de Taguatinga. O prédio, que já abrigou diferentes atividades ao longo dos anos, ficou vazio em 2014. Durante a pandemia, artistas ocuparam o espaço e passaram a utilizá-lo como centro cultural informal, diante da falta de locais para apresentações e encontros.
Com o fim do período mais crítico da covid-19, parte dos grupos deixou o local. Os coletivos de Taguatinga que permaneceram, porém, encontraram dificuldades para manter as atividades. A situação começou a mudar após a criação da RECITA, em 2022.
Segundo Júlio, a associação passou a atuar em parceria com os grupos que já ocupavam o edifício e iniciou tratativas com a União para regularizar a utilização do espaço. O resultado foi a concessão da responsabilidade pela gestão do prédio pelos próximos dez anos, com a contrapartida de desenvolver atividades voltadas à comunidade.
Embora ainda não haja data para a inauguração oficial, a intenção é colocar pelo menos um dos andares em funcionamento o mais rápido possível. Entre as primeiras iniciativas previstas estão cursos de panificação, rodas de educação popular em saúde, atividades de capoeira, clubes de leitura para mulheres e is encontros ligados aos conselhos comunitários de saúde, segurança e planejamento urbano.
"Somos uma associação cidadã. O objetivo é dar espaço para que as pessoas coloquem seus projetos em prática, fortalecer o sentido de comunidade e promover o encontro entre diferentes gerações", afirma Júlio.
