
Seis meses separam duas histórias que, à primeira vista, não têm relação entre si. Mas ambas desembocam na mesma rua do Setor de Oficinas do Riacho Fundo 1, a poucos metros da entrada da cidade. Em abril de 2025, um assassinato seguido de esquartejamento (veja abaixo). Cerca de 180 dias depois, no segundo andar de um prédio da mesma via, a polícia encontrou um apartamento transformado em entreposto do tráfico. Nos cômodos vazios estavam 490 placas de haxixe. A apreensão revelou que o endereço discreto era uma peça da logística de uma organização criminosa responsável por abastecer a capital e o Entorno a partir de conexões com a Região Norte.
Cercado por oficinas mecânicas, lanchonetes e salões de beleza, o edifício tem fachada simples e sinais de desgaste. No hall de entrada, à esquerda, uma placa de aviso do regimento interno elenca cinco proibições, quatro deveres, orientações aos tutores de animais e horários permitidos para obras e mudanças. Entre as vedações listadas, estão fumar nas janelas e corredores do prédio, promover festas e causar tumulto.
As escadas levam até o terceiro andar. No segundo, fica o apartamento 204, onde estava o maior e invisível problema daquela edificação. No dia da visita da reportagem, duas mulheres, com a ajuda de dois homens, faziam a mudança de um dos imóveis do andar. A equipe perguntou se havia moradores no 204. "Depois da confusão que teve, não tem mais ninguém. A polícia revirou tudo", disse uma das mulheres.
Desde às 23h de 8 de outubro de 2025, quando policiais militares arrombaram a porta do apartamento, ninguém voltou a ocupar o imóvel. Restaram apenas as contas do proprietário — atualmente preso no Complexo Penitenciário da Papuda — na caixa de correspondências. Evaldo Pires da Costa Junior é velho conhecido da polícia. Integrante da facção brasiliense Comboio do Cão (CDC), acumula passagens por homicídio, organização criminosa e porte de arma de uso restrito.
Evaldo tinha 18 anos quando participou de um assassinato, em outubro de 2008, em Planaltina. Segundo a ocorrência obtida pelo Correio, ele e um comparsa estavam em uma moto e abriram fogo contra três jovens. Um morreu e dois ficaram feridos no provável acerto de contas.
Cabia a Evaldo alugar o apartamento e mantê-lo em funcionamento. Pagava R$ 400 mensais pelo imóvel e R$ 160 de condomínio. Quase não permanecia ali. Ia apenas para vigiar a droga e deixava o local pouco depois. Quando policiais militares arrombaram a porta após denúncia anônima, encontraram 47kg de haxixe.
Cinco meses e 11 dias depois da apreensão da carga de haxixe no apartamento, a Coordenação de Repressão às Drogas (Cord/PCDF) deflagrou a megaoperação Resina Oculta. A lista de investigados adicionou mais nove pessoas, além de Evaldo. A investigação mostrou que o grupo de traficantes se desmembrava em funções para trazer drogas ao DF e ao Entorno, movimentando cifras milionárias por meio de empresas de fachada e plataformas digitais.
A reportagem entrou em contato com a Atual Condomínios, administradora do edifício onde Evaldo alugou o apartamento. Por mensagem, a empresa negou ter informações sobre negociações de aluguel, valores ou demais condições relacionadas às unidades residenciais, uma vez que "se tratam de propriedades privadas cujas tratativas ocorrem diretamente entre proprietários e locatários".
Esquema
O apartamento 204 nunca foi o destino final da droga. Era apenas uma escala. Mas até a escolha do imóvel se torna uma peça fundamental da logística do tráfico. Localização, período de permanência e escolha do "olheiro" são previamente definidos com cautela pelos criminosos de alto escalão para a instalação das chamadas "casas-bomba" ou "entoques".
O delegado Luiz Henrique, da Cord, explica que a escolha dos imóveis segue critérios logísticos. As organizações criminosas priorizam regiões administrativas com aluguéis mais baratos e vias que permitam rotas rápidas de fuga. No Distrito Federal, Samambaia, Recanto das Emas e Sol Nascente figuram entre os locais preferidos.
"Eles adotam a discrição e tentam manter uma rotina aparentemente normal para despistar os vizinhos", afirma o delegado. Há situações nas quais os criminosos destroem câmeras de monitoramento instaladas nas ruas para dificultar a identificação da movimentação.
Figura central nessa etapa logística, o olheiro atua como cão feroz. Na maioria dos casos, o criminoso dessa função não reside no local. Visita-o com frequência para vistoriar a droga. Dentro do imóvel, normalmente não há estrutura de moradia. Eventualmente, a polícia encontra um colchão ou cama.
Segundo o delegado Luiz Henrique, entre as atribuições do olheiro estão o recebimento, acondicionamento, pesagem e entrega dos entorpecentes. "O traficante maior evita ao máximo tocar na droga", explica. Ainda de acordo com o investigador, há tempo determinado para a permanência no imóvel. "Em regra, permanecem cerca de seis meses. Quando desconfiam que podem ter sido descobertos, mudam de endereço."
Nos últimos 12 meses, as forças de segurança do DF descobriram ao menos 12 casas-bomba espalhadas em Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo 2 e Recanto das Emas.
A distribuição dos entorpecentes obedece a um ritual preciso e desemboca em pontos específicos longe das casas. As investigações mostram que o repasse ocorre em postos de gasolina ou em estacionamentos públicos. Algumas exceções são abertas para clientes fixos e confiáveis. Nesses casos, a entrega pode ocorrer na porta do imóvel.
Em uma das operações da Cord, a polícia monitorou um depósito de drogas e identificou uma movimentação incomum. No caso, o traficante buscou o carro do comprador, abasteceu com os entorpecentes e devolveu as chaves.
Região estratégica
Samambaia é a segunda região com o maior número de moradores do DF. São 218.840 habitantes, segundo dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta densidade populacional se traduz em uma ampla oferta de imóveis residenciais, sobretudo casas e sobrados.
Em comparação com áreas centrais de Brasília, os aluguéis em Samambaia tendem a ser mais baratos. Não foi à toa que a cidade entrou no radar de uma organização criminosa. Segundo investigação que culminou na Operação Irmãos, da Cord, um grupo de traficantes alugou uma série de imóveis para montar depósitos de entorpecentes trazidos de Rondônia. A estrutura, de acordo com a polícia, era comandada por Igor Filipe Silva Araújo e Matheus Araújo Nunes, presos em julho de 2025.
A reportagem visitou um dos imóveis usados pela quadrilha. O apartamento fica na ADE Oeste, QN 831, nas últimas quadras de Samambaia. O prédio, pintado de azul, tem três andares e não conta com porteiro. No térreo, uma placa anuncia uma conveniência. O espaço, porém, está em obras, ocupado apenas por operários que trabalham na reforma.
Os apartamentos seguem um padrão construtivo. Os imóveis ficam lado a lado, protegidos por uma grade preta de ferro. Embora haja fechadura, a porta costuma permanecer destrancada durante boa parte do dia.
Ofensiva
Descobrir endereços de casas de entoque é uma das etapas. Entrar nesses imóveis exige planejamento, inteligência e equipes preparadas para situações de alto risco. Entram em cena as equipes das Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) da PMDF. Cerca de 200 policiais compõem a unidade especializada, que é voltada ao policiamento ostensivo de alta intensidade e para o enfrentamento da criminalidade violenta.
Uma das estratégias adotadas pela companhia é o rodízio de áreas de patrulhamento e operações. Quando os crimes investigados têm origem no DF, a unidade tem acesso para cortar vias do Entorno e adjacências. "Se a polícia do DF não tiver liberdade para trabalhar nas cidades do Entorno e vice-versa, o combate se torna limitado", afirmou o tenente-coronel Panisset, comandante da Rotam.
A corporação trabalha com um alto volume de denúncias encaminhadas pela população, por unidades da própria PM e por outras forças de segurança. As informações são analisadas pelo setor de inteligência, responsável por verificar a consistência dos relatos, cruzar dados e identificar indícios que justifiquem o emprego das equipes em campo.
"Quando falamos de crime organizado estamos lidando com criminosos especializados, com alto poder financeiro e extremo grau de violência. Eles alimentam uma rede de contato e estudam possibilidades a mais para escapar das mãos do Estado", comentou o tenente-coronel.
Para o comandante da Rotam, os imóveis representam apenas a face mais visível da logística do crime organizado. "Tem que haver quem alugue, quem financie, quem abasteça e quem vigie. Essas casas são usadas para praticamente toda modalidade criminosa: armazenamento de drogas, desmanche de veículos, guarda de produtos roubados. Quando fechamos uma delas, interrompemos uma etapa importante dessa cadeia", detalhou.
O Correio não localizou a defesa dos suspeitos citados nesta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.
Assassinato seguido de esquartejamento
Um morador de rua chamado Sidney, de 56 anos, foi brutalmente assassinado e esquartejado no Riacho Fundo I, em abril de 2025. Partes do corpo foram encontradas em caixas dentro de contêineres de lixo. Dois suspeitos, Augusto Cesar Nunes Romano e Gerson de Sousa Basílio, foram presos. A motivação, segundo a polícia, estaria relacionada a uma discussão entre a vítima e os autores dentro de um apartamento.

Cidades DF
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