
Perto de completar oito meses do escândalo envolvendo operações com o Banco Master, as ações do Banco de Brasília (BRB) acumulam queda de 62,94% desde o início das investigações. Em 17 de novembro de 2025, um dia antes da primeira fase da Operação Compliance Zero, os papéis do banco eram negociados a R$ 8,15. Atualmente, segundo a cotação do próprio BRB, cada ação vale R$ 3,02.
A forte desvalorização reflete diretamente a crise de confiança do mercado após o chamado "Caso Master", avalia Renan Silva, professor de economia do Ibmec Brasília. "Esse movimento do mercado sinaliza um elevado nível de incerteza e desconfiança dos investidores quanto à solvência e à capacidade de recuperação da instituição", afirma. Segundo ele, a falta de transparência financeira agravou o cenário: "A queda acentuada indica que o mercado está tateando no escuro", diz.
Para tentar reverter o quadro, o banco tem adotado medidas voltadas à melhoria da liquidez e ao fortalecimento da governança, embora o processo seja considerado complexo. "A nova gestão promoveu a venda de cerca de R$ 5 bilhões em carteiras de crédito e realizou negociações de ativos com garantia do Tesouro", explica o especialista. Ele ressalta que, no médio prazo, a recuperação depende de medidas estruturais: "A execução de um plano de capitalização robusto e a conclusão das auditorias financeiras são passos essenciais para 'virar a página'", assinala, ponderando que o sucesso dessas iniciativas está condicionado à aprovação interna e à superação de questionamentos judiciais.
Outro ponto crítico é a ausência das demonstrações financeiras desde junho de 2025, considerada pelo economista como um fator decisivo para a instabilidade. "Sem balanços auditados, o que classifico como gravíssimo, investidores não possuem referência para avaliar a saúde financeira do banco", analisa. Ele alerta que o atraso pode gerar sanções: "O banco enfrenta a possibilidade de multas que podem atingir R$ 3 milhões devido ao descumprimento dos prazos estabelecidos pela CVM e pelo Banco Central".
Economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo explica que o preço das ações reflete a expectativa do mercado em relação ao valor e à capacidade de recuperação da instituição. "As ações costumam ser negociadas acima do valor patrimonial da empresa. Mas, no caso do BRB, como os balanços não foram publicados, o mercado fica tateando no escuro. As ações refletem essa crise, e a tendência é de que ainda sofram novas quedas enquanto esse cenário persistir", afirma.
Na avaliação de Bergo, o processo ainda é cercado de incertezas e a recuperação da confiança dependerá principalmente das decisões do controlador do banco, o Governo do Distrito Federal (GDF).
Caso Master
Em março de 2025, o GDF anunciou a intenção de comprar parte do Banco Master por R$ 2 bilhões. A operação foi rejeitada pelo Banco Central seis meses depois. Em novembro, a Polícia Federal realizou a Operação Compliance Zero para investigar a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito sem lastro do Master ao BRB. No mesmo dia, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo. Em abril deste ano, foi preso preventivamente. O controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, também foi preso, e a instituição foi liquidada pelo Banco Central.
As operações investigadas comprometeram os índices de capital do BRB, levando o banco a apresentar um plano de capitalização ao Banco Central. Para viabilizar a recuperação da instituição, o GDF firmou um acordo homologado pelo STF, que autoriza a contratação de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao FGC, com garantia de um consórcio de bancos e contragarantia de recursos dos fundos de participação. Apesar de já ter sido aprovada pela Câmara Legislativa (CLDF), a operação ainda depende da aprovação das instâncias internas do FGC.
Procurado, até o fechamento desta edição, o BRB não comentou a queda nas ações e o atraso nos balanços.
Saiba Mais
Débito automático
O BRB divulgou ontem que os clientes podem solicitar o cancelamento de débito automático vinculado a contratos de crédito. A medida ocorreu após determinação da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). De acordo com mensagem postada no site do BRB, para cancelar ou reativar o débito automático, os clientes devem entrar em contato com o SAC da instituição. O caso teve início em maio, após representação da Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF), que apontou relatos de consumidores impedidos de cancelar o débito automático. Com base na apuração, a Senacon determinou que o BRB divulgasse esse direito e adequasse seus procedimentos internos.

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