
Antes da eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo, havia um ritual silencioso na redação do Correio. E começava muito antes do apito inicial, quando o editor perguntava: "Como está a movimentação na Asa Sul?" A coordenadora de produção respondia do Guará, enquanto um repórter estava a caminho de Ceilândia onde o bar de bairro, de repente, virava estádio. A Seleção Brasileira entrava em campo, mas a editoria de Cidades também.
Enquanto milhões de brasileiros assistiam ao jogo, a equipe do jornal jogava outra partida. Não havia gramado, mas asfalto. Não havia chuteiras nos pés, mas celulares nas mãos. O placar interessava, claro, mas talvez mais importante fosse descobrir como Brasília vivia aqueles 90 minutos.
A cada gol, os repórteres precisavam vencer o abraço coletivo para entrevistar o garçom que acabava de vender mais uma rodada. A cada defesa do goleiro, os fotógrafos registravam a tensão estampada no rosto de quem segurava o copo sem perceber. Quando a derrota ameaçava, era preciso encontrar as palavras certas para traduzir o silêncio. E, quando a vitória vinha, era preciso correr antes que a festa terminasse.
Ao longo do Mundial da Fifa, as matérias mostravam bares lotados, vendas aquecidas, ruas coloridas de verde e amarelo, ambulantes comemorando faturamentos improváveis e comerciantes agradecendo ao calendário atípico. Mas, por trás de cada linha publicada, havia uma equipe que também aprendia a torcer contra o relógio. Enquanto o país comemorava ou lamentava, a reportagem se comunicava com os subeditores enquanto voltava para a redação para transformar emoções em notícia.
Existe uma curiosa ironia no jornalismo: os profissionais estão sempre no centro dos acontecimentos, mas raramente fazem parte da história. Somos testemunhas da felicidade alheia, cronistas da euforia coletiva, observadores do abraço que não pode prolongar porque ainda falta ouvir mais uma fonte, conferir mais um dado, escrever mais um parágrafo.
Durante os dias em que o Brasil permaneceu na Copa, a cidade ganhou uma pulsação diferente. O comércio vendeu mais, os bares ficaram cheios, as buzinas voltaram a conversar entre si. E o Correio cumpre sua missão de registrar não apenas o futebol, mas os efeitos que ele provocava na vida da capital.
Quando a Seleção foi eliminada, os bares esvaziaram. As bandeiras começaram a desaparecer das janelas. Os vendedores recolheram camisas, cornetas e bandeirinhas. Também a rotina da editoria de Cidades voltou ao compasso habitual, sem as escalas especiais e sem a ansiedade de decidir, todas as manhãs, onde estaria a melhor história.
Mas ficou uma certeza: Copas do Mundo acabam, mas o jornalismo, não. Porque enquanto houver uma cidade vivendo intensamente qualquer emoção coletiva, haverá sempre uma equipe disposta a percorrer suas ruas para contar o que os olhos apressados da torcida nem sempre conseguem perceber. No dia seguinte ao jogo, quando a festa é lembrança e os gritos viram eco, é a reportagem que preserva aquilo que o apito final nunca consegue levar embora.
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