Estilo

Moda underground do DF ganha força e molda identidade urbana

Inspiradas pela cultura hip-hop, marcas autorais transformam o estilo em símbolo de representatividade e diálogo com as periferias locais

A New foi fundada pelo estilista Henzo Ariel, que se inspirou na trajetória de outros negros como ele -  (crédito: Tiago Damasceno )
A New foi fundada pelo estilista Henzo Ariel, que se inspirou na trajetória de outros negros como ele - (crédito: Tiago Damasceno )

*Brunna Ramos

Entre ruas grafitadas e bailes de hip-hop que constroem a identidade urbana da capital federal, a moda underground tem ganhado cada vez mais destaque na cena cultural do DF. Com estilistas e coletivos culturais criando marcas independentes e autorais, que refletem a autenticidade brasiliense, o estilo tem mudado o cenário fashion, despertado o interesse da juventude e ajudado a moldar o que é visto nas ruas.

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As roupas streetwear, que começaram nos bairros periféricos, hoje dominam passarelas, vitrines e feeds ao redor do mundo. O visual se constrói com calças largas, jaquetas robustas (como as bombers e as puffers) e tênis esportivos, com o uso frequente de acessórios,como bonés, correntes e pingentes, bandanas, muitas vezes referenciadas no grafite de rua. Na estética feminina, a força da identidade preta se destaca nas tranças afro, como as box braids e nagô, e nas unhas longas com nail art geométrica e pedrarias, além das clássicas bolsas de ombro e minissaia.

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Em Brasília, marcas e coletivos artísticos têm desenvolvido roupas, desfiles de moda e até festivais musicais para celebrar o movimento, que reúne trap, funk e batalhas de rima para falar de todo um território. Uma das marcas que representam essa movimentação é a Tela Ambulante. Com produções colaborativas, a iniciativa foca na criação de peças que dialogam com a realidade das periferias locais.

Fundador da marca, o estilista Victor Hugo Soulivier, 28 anos, conta que, atualmente, o coletivo reúne mais de 70 colaboradores e já alcançou reconhecimento internacional. "Foi uma marca criada em fundo de quintal e que ganhou o mundo. Tivemos a oportunidade de representar o Brasil na Semana de Moda de Camarões, na África."

Pertencimento

A comunicadora Maria Luísa Antunes, 23 anos, é fundadora do projeto de jornalismo independente Visão Periférica, que aborda temas ligados à cultura preta e marginalizada. Malu também trabalha como produtora executiva e artística na empresa Entre Quadras Studio.

A moradora do Guará conta que sua relação com a moda foi construída ao lado da cultura hip-hop e da descoberta da própria identidade. "O meu processo com a moda caminhou muito com a cultura hip-hop e com a negritude também. Foi quando eu comecei a entender a potência que eu tinha e a me identificar, construir quem eu era", afirma.

O movimento hip-hop já é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Distrito Federal, por meio da Lei nº 7.274, desde 2023. 

Segundo Malu, a aproximação com a cultura foi fundamental para o processo de autoestima e reconhecimento da própria imagem. "Com isso, comecei a deixar o meu cabelo natural, comecei a enxergar a beleza em mim, na minha cor, no meu cabelo, no que eu gosto de escutar e na forma que eu posso me vestir. Foi um processo até chegar na estética com a qual me identifico hoje", relembra.

Para ela, as maiores referências de estilo não estão em celebridades, mas nas pessoas que compartilham o mesmo território e vivências. "Minhas maiores referências são minhas amigas pretas e as pessoas que convivem comigo. Eu vejo a maneira como cada uma se veste e como aquilo retrata exatamente o estilo de vida delas. É daí que eu tiro inspiração", destaca.

Entre as marcas que também ajudam a consolidar essa ideia está a New, criada pelo estilista Henzo Ariel, conhecido como Atlantayo, de 20 anos. O fundador conta que a marca começou baseada na trajetória de outros negros. "O que me tocou no começo foi ver como e onde outros negros chegaram com a moda."

  • Modelos da marca brasiliense Tela Ambulante
    Modelos da marca brasiliense Tela Ambulante Brunna Ramos/CB/DA Press
  • João Favilla, trapper brasiliense da nova geração
    João Favilla, trapper brasiliense da nova geração Yasmin Isbert
  • A estudante e produtora cultural Malu Antunes descobriu a própria identidade por meio da moda. Na foto, ela mostra as tatuagens
    A estudante e produtora cultural Malu Antunes descobriu a própria identidade por meio da moda. Na foto, ela mostra as tatuagens Davi Pereira/CB/D.A Press
  • Malu Antunes mostra o colorido das unhas
    Malu Antunes mostra o colorido das unhas Davi Pereira/CB/D.A Press
  • A estudante e produtora cultural Malu Antunes descobriu a própria identidade por meio da moda
    A estudante e produtora cultural Malu Antunes descobriu a própria identidade por meio da moda Davi Pereira/CB/D.A Press

Inspirado por criadores negros como Virgil Abloh, Will Cypriano e Alisson Abreu, Atlantayo conta que o projeto nasceu do desejo de transformar a forma como as pessoas vivem, se vestem e se conectam. "O papel de uma marca independente vai muito além de vender roupas. A gente cria uma comunidade, um estilo de vida em que as pessoas se conectam", afirma.

Moda e música

O estilo é também muito consumido no meio musical da capital. Rappers, trappers, DJs e MCs utilizam do vestuário como uma forma de extensão artística. João Favilla, 24 anos, faz parte da nova geração de artistas que ajudam a movimentar a cena do DF. De Sobradinho, ele iniciou sua trajetória no trap ainda na adolescência. 

Para Favilla, música e moda caminham lado a lado como uma extensão de identidade: "A roupa é uma forma de se expressar. A forma que você está vestido mostra para o mundo sua mensagem". 

Além das coleções, marcas têm realizado eventos musicais. Neste ano, a New promoveu a festa New Listen Party, com nomes do rap nacional como Ciça, Derek e Coquetel Molotov em uma celebração que reuniu mais de duas mil pessoas.

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Segundo Atlantayo, essa aproximação faz parte da identidade da marca. "A gente enxerga a moda não apenas como resistência, mas como uma revolução cultural", afirma.

Artistas do trap brasiliense também têm feito essa conexão. Hoje, além da carreira musical, Favilla atua como produtor e organiza eventos como o Baile Rari. A segunda edição gratuita será realizada em 8 de agosto, na Bigode Tabacaria, em Taguatinga, com o slogan "O Luxo Nasce na Quebrada". O evento reúne artistas independentes da capital em uma programação voltada para a cultura urbana, com o objetivo de fortalecer e ampliar o espaço para artistas locais, incentivando a circulação da produção cultural da região. "Isso está totalmente ligado à música, a maneira como a gente se veste também faz parte do que a gente quer comunicar." 

Ferramenta de identidade

Nas periferias da capital, a moda ligada à cultura hip-hop se torna ferramenta de afirmação identitária. Segundo a pesquisadora das relações entre moda, política e cultura, Iara Vidal: "Para jovens marginalizados, exibir esse estilo era uma forma de reivindicar autoestima em meio à pobreza e à discriminação, um gesto de poder diante de um sistema que os invisibiliza", afirma.

Para o estilista Victor Hugo Soulivier, a moda produzida nas periferias vai além da estética e ocupa um papel político. "A moda pode, sim, ser uma forma de resistência cultural e social. Mas acredito que estamos vivendo também um momento de revolução cultural, em que deixamos apenas de resistir para criar e construir nossa própria potência." 

Segundo ele, o coletivo busca fortalecer narrativas de grupos historicamente marginalizados. "A gente trabalha para que corpos negros, periféricos e LGBTQIA sejam reconhecidos na arte e na cultura. O underground é um lugar de pertencimento, onde esses corpos podem respirar e existir como são, sem precisar se enquadrar em um padrão de beleza ou de comportamento."

Para Iara, essa identidade também se manifesta na criação local. "Os criadores do DF adicionam elementos próprios da realidade brasiliense, moldando uma identidade exclusiva." Ao escolher roupas produzidas na própria quebrada, acrescenta, "o jovem transforma o corpo em painel de protesto".

*Estagiária sob a supervisão de Tharsila Prates

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postado em 29/07/2026 05:00
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