O avanço na tecnologia de identificação necropapiloscópica permitiu que a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) alcançasse a marca de 118 identidades recuperadas a partir de um acervo histórico de 409 perícias reprocessadas. O Projeto Orfeu, capitaneado pelo Instituto de Identificação (II), aplica inteligência artificial, redes neurais e algoritmos avançados para identificar impressões digitais antes consideradas ilegíveis devido ao avançado estado de decomposição, queimaduras ou carbonização dos corpos.
A iniciativa foca em registros coletados desde 1994, estipulando um limite de três décadas, período em que as limitações das mídias físicas — como papéis de fax — dificultavam o armazenamento e a leitura das minúcias biométricas. A metodologia do projeto foi dividida em um fluxo que demandou seis meses de dedicação exclusiva de peritos no segundo semestre de 2024.
O processo consiste em cinco etapas iniciais: desarquivamento das pastas, busca em arquivos físicos antigos, triagem cruzada entre o banco do Instituto de Identificação e o Instituto de Medicina Legal (IML), redigitalização das impressões em papel coletadas na época da perícia e avaliação de viabilidade técnica.
Segundo a diretora-adjunta do II, Vanessa Spagnolo, o trabalho pericial no DF foi modernizado para extinguir o reconhecimento puramente visual por parentes. "Todos os cadáveres que passam pelo IML de Brasília só são liberados após a identificação necropapiloscópica. Desde 2009 nós fazemos esse trabalho; não existe mais o reconhecimento de familiar. Trata-se de um processo muito técnico", explicou.
Como funciona o processo
O salto produtivo da força-tarefa, que resultou em uma taxa de recuperação de 28,8%, ocorreu após a implementação de uma nova tecnologia adquirida junto a uma empresa eslovaca em 2025. O sistema automatizado opera de forma multibiométrica, integrando biometria facial, impressões digitais e palmares. Sozinha, a ferramenta da PCDF respondeu por 51 positivações.
Quando o banco local apresenta resultado negativo, os dados são rodados no sistema automatizado da Polícia Federal (ABIS), que forneceu 39 identificações. O cruzamento estendeu-se ainda ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com quatro laudos positivos, e ao envio de ofícios circulares para outros estados, que geraram 24 identificações, a exemplo de prontuários civis de Goiás e do Maranhão.
A chefe do Laboratório de Necropapiloscopia, Renata Simões Müller, detalhou que o perfil das identidades restabelecidas acompanha a estatística nacional de mortes violentas, sendo 93,2% dos cadáveres do sexo masculino. Com o sucesso do fluxo, a corporação planeja criar um banco pesquisável e permanente de cadáveres não identificados no sistema para consultas rápidas contra registros de desaparecidos de todo o país.
Müller reforçou que o projeto terá ciclos de reprocessamento bienais (a cada 24 meses) junto à Polícia Federal para aproveitar as constantes atualizações de algoritmos. Para as famílias que buscam por entes sumidos, o Instituto disponibilizou o canal direto pelo e-mail ii-lence@pcdf.df.gov.br, no qual é possível fornecer dados — em especial, as datas de desaparecimento — e documentos com digitais antigas para novos confrontos.
