RELIGIÃO

No Dia de Zé Pilintra, Brasília celebra fé, cultura e tradição

Símbolo de proteção para muitos brasileiros, Zé Pilintra reúne diferentes gerações e realidades em torno da fé, da cultura popular e da espiritualidade

Nesta terça-feira (07/7), devotos de diferentes partes do Brasil celebram o Dia de Zé Pilintra. Conhecido pelo terno branco, gravata vermelha, chapéu Panamá e pelo jeito elegante, a entidade é uma das mais populares da Umbanda e também está presente em outras tradições espiritualistas. Associado à proteção, à justiça e ao amparo daqueles que mais precisam, Zé Pilintra perpassa além dos limites da religião e ocupa um espaço importante na cultura popular brasileira.

Em Brasília, essa presença pode ser percebida de diferentes formas. Seja nos terreiros, em bares inspirados na figura da entidade ou nas histórias compartilhadas entre amigos e familiares, Zé Pilintra faz parte da rotina de muitos. Na capital federal, onde culturas de todas as regiões do país se encontram, a devoção também ganhou espaço e passou a reunir pessoas de diferentes origens e crenças.

Entre elas está o cozinheiro Eduardo Zedes, nascido e criado em Brasília. Para ele, a relação com Zé Pilintra vai além da tradição religiosa. Ao longo da vida, diz ter vivido experiências que fortaleceram sua fé e fizeram da entidade uma presença constante em sua caminhada.

Segundo Zedes, a força de Zé Pilintra está diretamente ligada à necessidade humana de encontrar acolhimento e esperança diante das dificuldades.

“O Zé Pilintra é fruto da necessidade que o nosso povo tem de ser amparado. O brasileiro sempre precisou de apoio e por isso, essa cultura do amparo religioso faz tanto sentido. Eu vivi muitas experiências que reforçaram essa presença na minha vida e na das pessoas que estão ao meu redor. Para mim, ele sempre esteve presente.”

Na visão do brasiliense, Brasília representa um retrato do próprio Brasil. A diversidade da cidade permitiu que diferentes manifestações religiosas encontrassem espaço para crescer, fortalecendo também a devoção a Zé Pilintra.

“Brasília reúne um pouco de tudo o que existe no país. Nas periferias surgiram centros espiritualistas que acolheram pessoas de todas as classes sociais. Zé Pilintra faz parte tanto da realidade de quem enfrenta muitas dificuldades quanto da vida de quem encontrou conforto na fé para superar seus próprios desafios”, contou Zedes.

Além de ser uma figura conhecida pelas roupas características ou pelas representações populares, Zé Pilintra desperta identificação em pessoas que enxergam na entidade um símbolo de proteção, força e esperança. Em Brasília, essa devoção mostra como a cidade também preserva tradições que atravessam gerações e unem diferentes histórias por meio da fé.

Além da figura do malandro

Zé Pilintra ocupa um papel muito mais profundo dentro das religiões de matriz afro-brasileira. Na Umbanda, ele é considerado o chefe da falange dos malandros, espíritos que, segundo a tradição, mantêm uma ligação mais próxima com as experiências e desafios vividos pelos seres humanos.

Na Casa Espiritualista Caboclo das Sete Encruzilhadas (Cecse), localizada próximo à descida do Colorado, Zé Pilintra é o regente espiritual da casa. O jornalista e médium Gabriel Luiz, conta ao Correio que atua no terreiro há três anos, a convite da entidade, Zé acompanha a trajetória do centro desde sua fundação e teve papel fundamental no crescimento. Atualmente, a casa reúne cerca de 150 médiuns e recebe aproximadamente 600 pacientes a cada gira.

Divulgação/Cecse - Gabriel Luiz, recebendo o amaci, um banho de equilíbrio e proteção, do meu babalaô (pai de santo)

Para Luiz, um dos principais equívocos sobre Zé Pilintra está na interpretação da figura do malandro. Dentro da religião, a malandragem não é vista como sinônimo de desonestidade, mas como inteligência, resistência e capacidade de superar adversidades. “Em vida, os malandros eram pessoas julgadas pela sociedade, mas que nunca esqueceram quem realmente eram”, explica.

Segundo o médium, o maior ensinamento transmitido por Zé Pilintra é justamente o autoconhecimento. A entidade incentiva as pessoas a assumirem a responsabilidade pela própria trajetória e a reconhecerem seu potencial. 

Diferente do Cristianismo, na Umbanda, não existe a figura do diabo ou de um responsável externo pelos caminhos individuais. Cada indivíduo possui responsabilidade pelas suas atitudes, transformação e evolução espiritual depende das escolhas de cada pessoa.

Essa mensagem aparece também nos atendimentos espirituais realizados no terreiro. Gabriel Luiz conta que, a maioria dos consulentes chega ao centro enfrentando momentos de dor, insegurança ou baixa autoestima. O trabalho desenvolvido por Zé Pilintra busca justamente despertar a confiança e a fé que muitas vezes foram perdidas ao longo da vida. O processo, segundo ele, pode ser desafiador, pois exige que a pessoa abandone padrões antigos e assuma uma nova consciência sobre si mesma.

Entre os ensinamentos mais repetidos pela entidade está uma frase que se tornou símbolo da casa: “O amor vence o medo”. Luiz conta que na casa de axé, há até mesmo um quadro pintado com a frase. “Quando deixamos o medo nos paralisar, ele faz questão de nos levar até esse quadro para que a gente leia essas palavras e relembre que somos capazes”. 

Divulgação/Cecse - Quadro presente na Casa Espiritualista Caboclo das Sete Encruzilhadas

Para os devotos, a identificação com a entidade acontece porque ela representa características presentes no cotidiano de muitos brasileiros. Trabalhador, resiliente e sempre disposto a seguir em frente apesar das dificuldades, Zé Pilintra tornou-se um símbolo de esperança para pessoas de diferentes idades e classes sociais.

Luiz também destaca a importância de combater estereótipos e usos indevidos da imagem da entidade. Segundo ele, práticas que não estejam fundamentadas nos princípios de amor, caridade e fraternidade não representam os ensinamentos de Zé Pilintra e contribuem para reforçar preconceitos históricos contra as religiões de matriz africana.

Além de uma figura popular do imaginário brasileiro, Zé Pilintra permanece como uma referência espiritual para milhares de fiéis. Seus ensinamentos sobre autoconhecimento, responsabilidade e amor ao próximo ajudam a explicar por que a devoção continua atravessando gerações.

O encontro com o samba 

O que começou como uma homenagem a Zé Pilintra se transformou em um dos maiores encontros de cultura, fé e samba dedicados à entidade. Idealizado pela produtora cultural Rose Ribeiro, o Samba do Seu Zé nasceu da devoção e da vontade de criar um espaço onde espiritualidade e cultura popular pudessem caminhar juntas.

Segundo a organizadora, o projeto surgiu para celebrar Mestre Zé Pilintra de forma respeitosa, valorizando também a importância do samba como expressão de resistência, identidade e ancestralidade. Com o passar dos anos, a iniciativa cresceu, passou por diferentes cidades brasileiras e alcançou reconhecimento até mesmo em países da Europa, ampliando a mensagem de respeito às tradições afro-brasileiras.

Divulgação/SambadoSeuZé - Da jurema nordestina ao berço do samba carioca. Zé Pilintra migrou do Catimbó para os morros do Rio, adotando o terno branco e o chapéu panamá

Além do aspecto cultural, o evento também desenvolve um trabalho social. De acordo com Rose, o Samba incentiva campanhas solidárias e ações voltadas para pessoas em situação de vulnerabilidade. Para ela, a fé não se manifesta apenas na devoção, mas também no cuidado com o próximo. “É uma forma de mostrar que a religiosidade também transforma vidas por meio da solidariedade e do amor ao próximo”, afirma.

Outro objetivo do projeto é contribuir para o combate à intolerância religiosa. A produtora destaca que o evento busca aproximar o público das tradições de matriz africana por meio da informação e da cultura. Segundo ela, muitos preconceitos são desconstruídos quando as pessoas têm a oportunidade de conhecer de perto os valores presentes nessas religiões. Rose também ressalta que o encontro não realiza rituais religiosos ou incorporações, sendo uma manifestação artística e cultural inspirada nos ensinamentos de Zé Pilintra.

A música ocupa papel central na programação. A escolha dos artistas, segundo a idealizadora, não se baseia apenas na qualidade musical, mas também no compromisso com a proposta do evento. O repertório reúne diferentes vertentes do samba e busca valorizar a cultura popular, a ancestralidade e os valores associados a Mestre Zé Pilintra.

Atualmente, o público do Samba é formado por pessoas de diferentes idades, crenças e origens. Muitos chegam motivados pela fé, enquanto outros são atraídos pela música ou pela curiosidade. Para Rose, essa diversidade é uma das principais características do projeto, pois demonstra que o respeito é capaz de aproximar pessoas com trajetórias distintas.

A organizadora também acredita que o evento ajuda a apresentar uma visão mais ampla sobre Zé Pilintra. Frequentemente associado apenas à figura do malandro, ele é retratado no projeto como uma entidade ligada ao acolhimento, à sabedoria, à justiça e à proteção daqueles que mais precisam. Esses valores são transmitidos por meio da música, das ações solidárias e da convivência entre os participantes.

A próxima edição será o Samba das Marias, uma homenagem à força e à espiritualidade feminina. A proposta é celebrar figuras femininas associadas ao acolhimento, à coragem, à proteção e à resistência, mantendo a essência do Samba do Seu Zé e ampliando o diálogo sobre a importância das mulheres dentro da cultura e da religiosidade popular.

Rose define o Samba como um espaço de encontro entre histórias, culturas e crenças. Para ela, o principal objetivo continua sendo promover união, combater preconceitos e valorizar as raízes brasileiras por meio da arte, da fé e da esperança.

*Estagiárias sob supervisão de Paulo Floro.

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