
Há 25 dias, Janaína Rodrigues da Silva, 45 anos, conseguiu um trabalho extra como cabo eleitoral na campanha de um candidato à deputado distrital. Nesse período, deslocava-se, todas as tardes, de Sobradinho para o Taquari acompanhada de um grupo. O serviço também representava um recomeço para Janaína, que enfrentava, havia mais de duas décadas, problemas com álcool e drogas e desejava se livrar dos vícios. A mudança de rumo terminou, no entanto, de maneira trágica. Em uma chácara abandonada de Sobradinho 2, às margens de uma rodovia, o corpo dela foi encontrado nu, com os pés amarrados, marcas de violência causadas por faca e parcialmente queimado.
O registro da ocorrência indica que o crime ocorreu entre 0h50 e 1h de ontem. Naquele intervalo, um ciclista pedalava no acostamento da rodovia quando viu um homem agredindo uma mulher em uma área conhecida pela presença de usuários de drogas. Era Janaína. O local é cercado por árvores e abriga uma pequena estrutura improvisada de pedaços de madeira, lençol e entulhos. Assustado, o ciclista seguiu alguns metros e encontrou um morador fumando na porta de casa. Narrou a ele o que havia visto e os dois retornaram ao local para tentar socorrer a mulher.
Quando chegaram, viram algo pior: o suspeito colocava um colchão sobre o corpo de Janaína e tentava atear fogo. O ciclista e o morador gritaram, e o homem tentou avançar contra os dois com um facão nas mãos. Em seguida, fugiu. Horas depois, peritos criminais encontraram mais indícios da brutalidade. Janaína estava com os pés amarrados, tinha, no corpo, marcas de facadas, e o corpo estava parcialmente queimado.
Mudança de vida
Luanny Stheffany Rodrigues, 23, mora com a avó paterna, na AR 14 de Sobradinho 2. Estava em casa quando viu, nas redes sociais, a notícia de uma mulher assassinada na região. Não demorou muito para que o celular começasse a bipar de notificações. Eram amigas manifestando pesar em decorrência do falecimento de Janaína. Sem entender, tentou falar com a mãe, mas não teve notícias. Preocupada, procurou a 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 2).
"Repassei aos policiais as informações sobre as características e os dados pessoais da minha mãe. Mas ainda não sabia de nada, não tinha nenhuma confirmação", relatou ao Correio. Infelizmente, as informações coincidiam com os dados colhidos pelos investigadores. Mais tarde, uma parente de Janaína foi ao Instituto de Medicina Legal (IML) e reconheceu o corpo. Era ela.
Janaína morava com a mãe em uma casa humilde de Sobradinho 2. Era mãe de Luanny e de outra jovem, de 20 anos. Mas quando Luanny tinha 2 anos, ela perdeu a guarda da filha. Em lágrimas, a filha afirma não acreditar no crime cometido contra a mãe e que ela não merecia esse fim. "Ela não fazia mal a ninguém, não tinha maldade no coração. Sempre foi muito corajosa e não deixava ninguém pisar nela, mas jamais prejudicou alguém", narrou.
Há mais de 20 anos, Janaína enfrentava problemas com o álcool e drogas. Na maior parte do dia, ficava na rua. "Eu sempre tive muito medo de ela morrer. Ela queria mudar de vida, queria se internar, mas não tinha força", lamentou aos prantos.
A filha mantinha conversas frequentes com a mãe, mas se encontrou com ela pela última vez em 7 de agosto, data do aniversário de Janaína. Mãe e filhas estavam em casa e comeram pizza para comemorar os 45 anos.
Até o fechamento desta edição, ninguém havia sido preso pelo crime. Policiais civis montaram uma força-tarefa de buscas. Ontem, houve reforço de um helicóptero da Polícia Civil no sobrevoo de uma mata. O delegado Ricardo Viana, chefe da 35ª DP, afirma que, como protocolo, o caso é tratado como feminicídio. Segundo ele, testemunhas foram ouvidas para auxiliar na elucidação do caso. Entre elas, o morador próximo que presenciou o homicídio.
Outros casos
No Distrito Federal, a covardia contra as mulheres tem sido uma constante: em menos de 15 dias, três homens, em diferentes regiões, mataram as companheiras de forma brutal. Oficialmente, 15 mulheres foram assassinadas por serem mulheres neste ano, conforme dados da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF), da Secretaria de Segurança do DF (SSP-DF). O painel, que detalha onde, quando e de que forma os homens as mataram, ainda não contempla os dois crimes mais recentes deste mês. A última atualização é de 3 de setembro.
Na segunda-feira, Flávia Gomes, 36, voltava do supermercado com a filha de 4 anos no colo, no Itapoã, quando foi esfaqueada por Anderson Gonçalves, 44, com quem mantinha uma relação de mais de nove anos. Ela foi ferida no peito, no abdômen e nas costas. Pessoas próximas a Flávia sabiam que a relação era marcada por violência psicológica e física. Em uma das ocasiões, Anderson já havia agredido a companheira na frente de toda a família.
Em 29 de agosto, João Alberto Mesquita da Silva, 44, matou a ex-esposa, Jussiara Ferreira dos Santos, 42, em uma kitnet na QR 504 de Samambaia. As investigações apontam que uma "amiga" da vítima, Gisele Moreira Silva, 44, teria ajudado o feminicida nas facadas. Os golpes atingiram a região do dorso e provocaram uma perfuração no intestino. Ela foi levada ao hospital, mas morreu dois dias depois. João Alberto e Gisele foram presos.
Triste recorde
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde a criação da tipificação penal do crime, em 2015. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizaram 1.571 desses crimes ao longo do ano passado, um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024. O número representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em razão da condição de gênero.
Os feminicídios têm rosto e modus operandi. De acordo com o relatório, 96,4% dos crimes de autoria identificada foram cometidos por homens, sendo 79,8% parceiros ou ex-parceiros da vítima — 60,9% parceiro íntimo e 18,9% ex-parceiro —, e 12,1% é familiar. Entre as vítimas, 62,5% foram mortas dentro de suas residências, 65,1% eram negras e 56,5% tinham faixa etária entre 25 e 44 anos.

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