Eleições 2026

Candidatos ao GDF iniciam corrida em busca dos eleitores de Arruda

Com o indeferimento da candidatura do ex-governador pelo TSE, a uma semana do primeiro turno, concorrentes ao Palácio do Buriti têm uma janela curta para ajustar estratégias e ampliar negociações partidárias

Fora da disputa, Arruda orientou apoiadores a votarem conscientemente -  (crédito:  Ed Alves/CB/D.A Press)
Fora da disputa, Arruda orientou apoiadores a votarem conscientemente - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

O primeiro dia de campanha sem José Roberto Arruda (PSD) na disputa pelo Governo do Distrito Federal abriu uma nova etapa na corrida ao Palácio do Buriti. Com o ex-governador fora da eleição, os demais candidatos passam a disputar um eleitorado que, até a última quinta-feira (24/9), tinha o ex-governador como opção de voto. A tarefa agora é transformar a ausência em oportunidade eleitoral, seja pela aproximação com os apoiadores, seja pela apresentação de projetos capazes de ocupar o espaço deixado por ele.

Arruda chegou à reta final da campanha com mais de 20% das intenções de voto em levantamentos recentes. Na pesquisa Correio/Opinião Inteligência Política divulgada nesta semana, ele aparecia com 20,6%, em segundo lugar, dentro de um cenário ainda marcado pela incerteza sobre sua situação jurídica.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Nessa sexta-feira (25/9), porém, o ex-governador deixou de fazer campanha e não poderá mais participar de debates ou propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por cinco votos a dois, confirmou o indeferimento do registro e determinou o fim da condição de Arruda como candidato na disputa.

O efeito mais imediato da decisão não está apenas na retirada de um nome da corrida, mas na redistribuição de um contingente expressivo de eleitores a pouco mais de uma semana do primeiro turno. Com a eleição marcada para 4 de outubro, os candidatos têm agora uma janela curta para tentar convencer quem pretendia votar no ex-governador ou ainda não decidiu qual caminho seguirá.

Leandro Gabiati, cientista político e professor do Ibmec Brasília considera que a eleição entra em um cenário mais concentrado entre direita e esquerda. Nesse contexto, ele avalia que Celina Leão (PP) tende a reforçar elementos de proximidade com o ex-governador, sobretudo no campo ideológico, enquanto Leandro Grass (PT) deve explorar o discurso de oposição ao atual governo. "Os estrategistas de campanha terão que ser rápidos nos seus movimentos, pois estamos a uma semana do primeiro turno", destacou.

Outro fator a ser acompanhado, segundo o especialista, é a postura que Arruda adotará em relação aos candidatos que permanecem na disputa. Uma manifestação pública poderia ocorrer por meio de um apoio formal ou de gestos e declarações mais indiretas. "Serão relevantes os instrumentos capazes de produzir identificação rapidamente: redes sociais, declarações, apoios políticos, mobilização territorial e, sobretudo, uma eventual sinalização do próprio Arruda", afirmou.

Afinidade ideológica

Na avaliação de Valdir Pucci, mestre em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), mesmo sendo um candidato de centro-direita, o eleitorado de Arruda não deve migrar, de forma hegemônica, para uma ala conservadora. "Esse voto pode ir para um candidato mais de centro-direita, mas pensando na questão do voto útil, para tentar impedir a reeleição da Celina, o eleitor pode votar no Leandro Grass, muito mais por oposição do que afinidade ideológica", disse. 

Pucci explica que, com a reta final da campanha, um ajuste no discurso é mais complicado e que os candidatos podem "tentar se colocar como apoiadores de algumas ideias de Arruda, daquelas ideias mais próximas do seu eleitorado". Segundo o especialista, mesmo que o ex-governador tivesse declarado apoio abertamente a algum dos postulantes ao Buriti, "a maior parte do eleitorado tende a analisar as opções que estão postas ou decide não participar do processo", diante desse tipo de situação. 

Para Bruno Saboya, doutor em estratégia de marketing e professor do Ibmec Brasília, a atração do eleitorado de Arruda exige focar em atributos de posicionamento, em vez de tentar mimetizar a persona do ex-gestor. O docente ressalta que o caminho mais eficiente é demonstrar conhecimento prático dos problemas das RAs com foco no pragmatismo das entregas, transmitindo ao eleitor a mensagem de competência própria para gerir a cidade, com foco em soluções observáveis da rotina local.

A estratégia mais segura passa por declarações pontuais e articulações de bastidor. Caso adversários tentem carimbar o postulante como "herdeiro", a orientação é estancar o desgaste de forma curta e categórica. "Algo conceitualmente como: 'reconheço o que funcionou, não respondo pelos erros de outros governos e tenho meu próprio projeto para Brasília'. Quanto mais tempo o candidato gastar explicando se é ou não 'arrudista', mais fortalece o rótulo", advertiu.

  • Paula Belmonte busca diálogo direto com o ex-governador
    Paula Belmonte busca diálogo direto com o ex-governador Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Leandro Grass mira eleitores
    Leandro Grass mira eleitores "órfãos" de olho no segundo turno Júnior Rosa/Divulgação
  • Cappelli disse que foi o único a defender o candidato do PSD
    Cappelli disse que foi o único a defender o candidato do PSD Ed Alves/CB/D.A Press
  • Celina Leão aposta em projetos semelhantes para atrair eleitores
    Celina Leão aposta em projetos semelhantes para atrair eleitores Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Respeito ao eleitor

Ontem, Celina Leão afirmou que não pretende tratar o eleitorado de Arruda como um bloco que possa ser transferido automaticamente para outra candidatura. "Eu tenho muito respeito pelo eleitor e não acredito que voto tenha dono. Quem acompanhava qualquer outra candidatura vai fazer sua escolha olhando para aquilo que considera melhor para o Distrito Federal", afirmou. Segundo ela, a estratégia será apresentar o trabalho realizado e as propostas para os próximos quatro anos.

A candidata destacou ações voltadas às regiões administrativas como parte da estratégia para manter o diálogo com a população. "Criamos o GDF na Sua Porta justamente para levar o governo para dentro das cidades, ouvir a população e resolver os problemas onde eles acontecem", disse. Celina citou propostas como ampliação do metrô e investimentos em saúde, infraestrutura, moradia, regularização e geração de emprego. 

A campanha de Leandro Grass aposta na tese de uma frente ampla oposicionista para atrair os eleitores "órfãos" de Arruda, projetando a união daqueles que buscam derrotar o grupo do atual governo. O comitê do candidato ressalta ter mantido uma postura respeitosa com José Roberto Arruda e aponta semelhanças programáticas diretas entre as duas chapas, como o combate às filas da saúde, obras de mobilidade com foco na tarifa zero no transporte público e a oposição à privatização de estatais do DF.

Sem fechar portas para alianças formais ou informais, a coordenação da campanha confirma tratativas e considera o movimento estratégico para o desfecho do pleito. "O ex-governador representa uma parcela importante da sociedade brasiliense e um grupo político que tem presença na cidade. É natural que estejamos conversando, e é claro que o apoio direto ou indireto de Arruda poderá ser decisivo para o resultado das eleições", destacou o coordenador da campanha de Grass, Guilherme Sigmaringa, presidente do PT-DF.

Paula Belmonte (PSDB) confirmou que pretende buscar diretamente o apoio de Arruda para fortalecer a campanha no segundo turno. A tucana aposta na intensificação das agendas de rua e em propostas de obras estruturantes, como a construção de um segundo hospital em Ceilândia. "Queremos apresentar Paula Belmonte a essas pessoas, ouvir suas prioridades e mostrar que existe uma candidatura com propostas concretas para as cidades", destacou nota do PSDB.

Representante do Novo, Kiko Caputo aposta na relação de mais de duas décadas com Arruda para atrair o eleitorado do representante do PSD e confirma conversas em andamento para formalizar a aliança. Para conquistar a preferência dos moradores de Ceilândia, Samambaia e Taguatinga, o candidato vai intensificar agendas nas ruas e incorporar bandeiras de Arruda ao seu plano, com foco em obras estruturantes como a expansão do metrô e a construção de quatro novos hospitais. "Arruda e Kiko possuem relacionamento profissional há mais de duas décadas. Com essa trajetória, o apoio nesse momento é natural", informou a equipe do candidato.

"Tenho feito campanha nas ruas, cumprimentando as pessoas, apresentando as minhas propostas, assim como o Arruda sempre fez", afirma Ricardo Cappelli (PSB) que se diz o único a defender publicamente o direito do ex-governador de disputar a eleição e disse acreditar que parte desse eleitorado pode encontrar nele uma alternativa. "Eu tenho a expectativa de que o eleitor dele, que não quer a Celina e não quer votar no PT, vai compreender isso e me apoiar nessa reta final", afirmou. 

Samara Mineiro (UP) frisou que a candidatura pretende disputar parte do eleitorado e citou o desempenho na pesquisa DataFolha como sinal desse movimento. "Uma parcela de seu eleitorado quer mudança no governo e vê a candidatura da Unidade Popular (UP) como alternativa", afirmou. Apesar disso, a candidata descartou uma aproximação. "Não estamos em diálogo com o ex-governador Arruda e nem com seu grupo político".

Professor Robson (PSTU) disse que a saída do concorrente não provocará mudanças na estratégia da campanha. "A nossa candidatura não fará qualquer mudança ou concessão em seu programa político para tentar capitalizar o eleitorado de Arruda", afirmou. Entre as bandeiras citadas pelo candidato estão a defesa de um sistema de transporte público estatal, o fortalecimento da saúde e da educação e mudanças na política de trabalho. 

Para o candidato Elisson Ferreira (Agir), as convergências programáticas com o plano do ex-governador  indicam abertura para diálogos com o grupo político, embora sem acordo formal selado. "Nossa candidatura se apresenta como uma nova geração para o DF, mas uma nova geração que sabe reconhecer a experiência e tudo aquilo que foi construído por quem já governou Brasília", afirmou.

Em nota, a campanha de Rico Pinheiro (PRTB) afirmou que pretende dialogar com os eleitores de Arruda. "Respeitamos profundamente o eleitor que acompanhava a trajetória do ex-governador e o convidamos a unir forças em prol do desenvolvimento do DF", afirmou a campanha. Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento e a autonomia das administrações regionais, expansão e modernização do transporte público e ampliação do atendimento de saúde.

 

  • Google Discover Icon
postado em 26/09/2026 05:00
x