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'Sofri intolerância religiosa', diz médium do DF alvo de denúncias

A médium Maira Rocha, moradora de Águas Claras, deu a sua versão sobre as críticas que vem recebendo por conta de cartas psicografadas. Ela é uma das fundadoras da Casa de Caridade Inácio Daniel e se diz universalista

A médium Maira Rocha deu sua versão, em entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, sobre as acusações que vem recebendo de que estaria tirando da internet informações para cartas psicografadas por ela. Maira tem 39 anos, mora em Águas Claras, é teóloga, advogada e estudiosa em espiritualidade, comportamento humano e saúde mental. É cofundadora da Casa da Caridade Inácio Daniel, instituição que desenvolve mais de 20 projetos de assistência e promoção social.

Como funciona a Casa de Caridade Inácio Daniel, fundada pela senhora?

A Casa hoje tem 22 projetos sociais, desde cesta básica, a enxoval de criança, a entrega de material escolar, a pensão, que é do Flor de Mandacaru, que é paga para as pessoas com câncer ou com doença degenerativa. São 22 projetos que atendem 16 comunidades em Brasília, duas comunidades em Goiás e no interior do Ceará. Nós atendemos mais ou menos 5 mil famílias. Temos médicos que atendem gratuitamente, são 12 especialidades, a gente paga exame, remédio, são mais de mil cestas por mês. O trabalho da Casa é a caridade material. Temos também a área de estudos espíritas, o dia do catolicismo, que é na segunda-feira; temos o dia que pratica-se o espiritismo com o espiritualismo da umbanda na quarta-feira; e temos o Despertar Comigo Maira Rocha e as psicografias.

Nas sessões, as cartas são psicografadas na hora?

As cartas nunca foram feitas em casa, as cartas sempre foram psicografadas na hora. Nós temos mil vagas e geralmente cinco mil pessoas querendo a psicografia. A coisa mais normal é ter mil pessoas inscritas e quatro mil na fila de espera. Para participar, a pessoa manda o nome e o telefone. As cartas são escritas na hora.

De que forma você seleciona as pessoas que vão participar?

Não sou eu quem seleciono, quem seleciona é a espiritualidade e o mentor. Eles escolhem dentre essas mil, seis ou sete para receber (a carta psicografada). Aleatório. As psicografias são feitas de forma marcada só quatro vezes por ano, porque as pessoas podem chegar na casa (de Caridade Inácio Daniel) a qualquer momento e receber uma carta. Não sou eu quem escolho. Essas (datas para) psicografias marcadas são para facilitar a vida de quem mora fora. Porque tem gente que vem do Pará, tem gente que vem do exterior. A gente marca com uns 15 dias ou antes de antecedência para que as pessoas possam comprar essas passagens. Mas a casa em si tem como o carro-chefe principal a caridade.

Como se manifesta a sua mediunidade?

Foi a partir dos 7 anos de idade, quando eu estava na terceira série. A minha mãe se lembra desde (quando tinha) os 4 anos, porque fui uma criança que aprendi a ler e escrever sem que ninguém me ensinasse, ninguém encarnado. Eu aprendi com espíritos desencarnados. Eu só passei a compreender que as pessoas que eu via eram as pessoas que tinham passado aqui pela Terra, quando, com 7 anos, reconheci um vizinho que desencarnou e que aparece para mim. Eu fui uma criança extremamente diferente, extremamente complicada. O lugar que eu mais gostava era o cemitério da cidade. Até hoje é um lugar onde vou, leio livros. Entre 7 e 8 anos, comecei a escrever todas as experiências que tinha. E foi aí que nasceram, podemos dizer, as primeiras cartas, que estão com minha mãe. Na adolescência foi quando a minha mediunidade aflorou ainda mais. Então, eu escuto, eu vejo, eu toco e eles me tocam também.

O que tem a dizer sobre os ataques que vem recebendo?

Esses ataques começaram quando eu não quis participar de uma cúpula que existe dentro do espiritismo para distinguir quais são os médiuns verdadeiros e os falsos. Fui procurada em 2019 por uma pessoa de nome Guilherme Velho, para assinar uma abaixo assinado contra um outro médium e eu não aceitei. Dentro do espiritismo no Brasil, os médiuns que são federados, ou seja, ligados à Federação Espírita Brasileira (FEB), têm uma proteção maior e aqueles que não são federados, ou eles são atacados para eles saírem do cenário, ou ficam como eu sou, independente. A questão principal em relação a mim é a intolerância religiosa, porque não sou espírita kardecista, como eles chamam. Estou mais para uma espiritualista, universalista. A bandeira da Casa da Caridade e a minha bandeira são a união das religiões. Eu transito muito bem dentro da umbanda, dentro do povo evangélico e dentro do catolicismo. Somos ecléticos no que diz respeito à religião. E eu nunca tratei a doutrina espírita como se ela fosse uma religião, mas sim uma doutrina, uma filosofia.

Como recebeu as denúncias?

Em 2024, haviam publicado uma matéria falsa em um outro meio de comunicação e, posteriormente, eu ganhei na Justiça em todas as instâncias. Foi frustrante, foi decepcionante, porque eu imaginava que esse processo que estava passando, de intolerância religiosa, teria ficado em 2024. Me ver da forma que eu me vi na mídia (recentemente) foi angustiante, decepcionante. Ver cartas falsas sendo colocadas lá, vídeos cortados, editados, transformando algo que eu disse em uma coisa totalmente diferente. Foi impactante mesmo, é uma tristeza enorme ter que combater intolerância religiosa em pleno 2026 e que isso custe o assassinato da minha reputação.

As pessoas que tiveram cartas psicografadas pela senhora alegaram depois que as informações da carta estavam disponíveis na internet. Elas estavam mentindo?

Uma das pessoas que alegaram isso fez um primeiro depoimento ao meu favor, ela recebeu a carta (psicografada) em 2025 e fez um depoimento lindíssimo ao meu favor, dizendo que tudo que eu estava falando condizia (com os fatos) e que não estava na internet. (Hoje) Ela alega que existe um Facebook onde essas informações (sobre o marido falecido) poderiam ser encontradas, porém ela alega que esse Facebook estava inativo quando recebeu a carta e continua inativo agora. Ela entrou em contato comigo depois de um ano, porque, segundo ela, a família do pai do filho dela, que desencarnou, teria alegado que por ela ter colocado o filho dela dentro do espiritismo, iria tomá-lo na Justiça, e que por isso ela precisou tirar o primeiro vídeo do ar. Precisa saber em qual depoimento ela está falando a verdade. Uma das coisas que ela disse na tevê foi que no dia em que ela recebeu a carta, a carta já estava pronta. Ao mesmo tempo, ela disse que a única coisa que nunca poderia ser encontrada no Facebook, que eu falei lá, que é a questão do bullying do filho dela, foi dita em uma carta do menino para mim. Só que preciso entender então se a carta (psicografada) já estava pronta, como é que eu pude modificar com a carta dessa criança. Essa carta nunca chegou até mim porque no dia das sessões de psicografia eu não atendo as famílias antes. Mas se tivesse chegado, como é que eu tinha tido tempo de trocar algo que está numa carta pronta. Então, ela mesmo entra nessa contradição. Vão ter nas cartas situações que certamente estarão igual à internet. Eu gostaria de discutir e de fazer a crítica do restante da carta que não está na internet. Nessas cartas que a mídia trouxe, por exemplo, numa carta de três folhas, eles colocaram três parágrafos que teoricamente teriam as coincidências da internet.

A senhora recebeu críticas pelos leilões que realizava de roupas e objetos seus. Como se defende?

O presidente da FEB vem dizendo que Allan Kardec proibia esse tipo de situação. E eu mostrei logo em seguida no vídeo que, três dias antes, cinco dias antes eu tinha feito um congresso espírita da FEB com o Ideak (Instituto de Divulgação Espírita Allan Kardec) e lá foram leiloados vários quadros pictográficos. E a pictografia ainda é um pouco mais polêmica, porque teoricamente o médium faz a pictografia por Monet, Leonardo da Vinci e outros, outros pintores famosos que incorporariam no médium. Cinco dias antes, a própria FEB fez um leilão sobre esses quadros de Monet, São Francisco de Assis e foramo leiloados em alto valor. O que Kardec proíbe é a comercialização da mediunidade, isto é, que eu cobre de você uma comunicação mediúnica, agora, rifa, leilão, doação, tudo isso é válido para que os centros espíritas possam se manter. Os centros espíritas não têm outro tipo de contribuição, a não ser esses trabalhos. Colocaram na mídia como se eu tivesse vendendo ou leiloando coisas minhas da psicografia para ficar mais cara, porque teria a minha energia. As roupas da psicografia são camisas da Casa da Caridade e calças brancas. Nenhuma delas foi leiloada, até porque eu não posso, eu só uso cada roupa uma única vez. Todos os vestidos que estavam lá eram roupas de festa, de saída. Sim, tinha roupas minhas, mas tinha roupas de voluntários, roupas de loja que nos doam peças da coleção passada. Da psicografia não tinha exatamente nada. A verba do leilão é para a Casa de Caridade, que não recebe doação pública ou governamental. Fizemos um único leilão em 2024, onde arrecadamos R$ 59 mil para a construção da sede.

Qual a sua missão na Terra?

A minha missão é mostrar que existe vida após a vida. E quando se mostra que existe vida após a vida, nós renovamos a nossa esperança. Minha missão é, por intermédio da mediunidade, poder unir pessoas que queiram fazer o bem para a humanidade. Nós não estamos falando sobre religião, nós estamos falando sobre amor, sobre amar. A minha missão é servir e o serviço dentro da espiritualidade significa também abrir bandeiras em prol da liberdade religiosa, que as pessoas sejam quem elas são, contra o monopólio da fé e principalmente, deixando as pessoas poderem seguir o seu caminho, fazendo o bem da forma que elas podem, não com exigência, não com com recursos que não sejam seus. A vida eterna nós começamos a plantar aqui, seja qual for sua religião. Então, é necessário que a gente abra os olhos para o amor ao próximo.

A senhora é inocente das acusações que sofreu na Justiça?

Eu não tenho nenhuma acusação na Justiça. Se tem notícia-crime, deve ser anônima no Ministério Público e eu ainda não fui chamada a explicar nada, até porque o Ministério Público, quando é pela ouvidoria, ele só chama se eles forem colocar para frente, já fizeram isso uma outra vez. Fizeram uma notícia-crime anônima e o Ministério Público arquivou dizendo que tinha ares de intolerância religiosa. Então, se existe, eu ainda ainda não fui chamada e processo eu sei que não existe. Tenho dois perseguidores, que são réus nesse processo de intolerância religiosa. Numa primeira instância, eles foram absolvidos, mas na segunda instância, a promotoria requereu o cancelamento da sentença e a condenação deles.

*Procurada pelo Correio, a FEB não quis comentar sobre a perseguição alegada

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