Entrevista | LU ALCKMIN | Idealizadora do Padaria Artesanal

Projeto idealizado por Dona Lu Alckmin ensina receitas que mudam vidas

A segunda-dama do Brasil, Lu Alckmin, detalha a trajetória do projeto social, seu impacto na autonomia de mulheres vulneráveis e a expansão da iniciativa pelo país. "Resgate da dignidade e da autonomia financeira", destaca

Lu Alckmin, segunda-dama do Brasil, foi a entrevistada do Podcast do Correio -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Lu Alckmin, segunda-dama do Brasil, foi a entrevistada do Podcast do Correio - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Idealizadora do projeto Padaria Artesanal, a segunda-dama do Brasil, Lu Alckmin, participou do Podcast do Correio para detalhar a trajetória e o impacto social da iniciativa que ensina o ofício da panificação comunitária. Em conversa com as jornalistas Mariana Niederauer e Sibele Negromonte, ela relembrou a origem do programa há 25 anos e explicou como a metodologia de capacitação em apenas oito horas tem garantido segurança alimentar, geração de renda e autonomia para milhares de famílias em situação de vulnerabilidade. Morando em Brasília desde 2023, dona Lu abordou a criação do Polo da Padaria Artesanal do Brasil na capital federal e as parcerias com a sociedade civil que vêm permitindo a expansão do projeto.

Como surgiu a ideia do projeto da Padaria Artesanal e como foram os primeiros passos dessa iniciativa?

Fique por dentro das notícias que importam para você!

Eu venho de uma família numerosa, de 11 irmãos, e meus pais sempre nos ensinaram o valor do carinho e do cuidado com o próximo. Minha mãe ajudava pessoas carentes, e eu cresci querendo seguir esse exemplo. Em 2000, eu era voluntária do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, ao lado de dona Lila Covas. Durante uma visita à periferia, conversando com mulheres muito carentes, percebi que elas não olhavam nos meus olhos. Quando perguntei o motivo, uma delas me disse que estavam com fome e que o sonho delas era comer pão. Aquilo me cortou o coração. No ano seguinte, quando o Geraldo (Alckmin) assumiu o governo de São Paulo, e eu assumi a presidência do Fundo Social, chamei uma equipe e nutricionistas para criar um projeto focado em ensinar a população a fazer pães nutritivos, saborosos e de baixo custo. Em 14 anos à frente do órgão em São Paulo, qualificamos mais de 100 mil pessoas.

De que maneira essa capacitação impacta a vida de mulheres em situação de vulnerabilidade e violência doméstica?

O impacto é direto no resgate da dignidade e na autonomia financeira. Lembro-me de uma mulher em São Paulo que, ao receber o diploma, disse-me chorando que agora o marido não bateria mais nela, pois ela havia aprendido a fazer os pães para vender e sustentar os filhos. Muitas mulheres apanhavam porque não tinham condições econômicas de sair daquela situação. O pão dá uma oportunidade de transformação. Com 1 kg de farinha, que custa pouco, é possível produzir até 100 pãezinhos de ervas. Damos a ferramenta para que a pessoa perceba seu próprio valor e consiga gerar renda para a família.

Assista à entrevista completa:

 

 

Como se deu a expansão do projeto para Brasília e para o restante do país a partir de 2023?

Quando cheguei a Brasília, em 2023, vim com o sonho de levar o projeto para todo o Brasil. No entanto, aqui não havia a estrutura de um Fundo Social. Por meio de uma conversa com o arcebispo Dom Paulo Cezar Costa, conseguimos o espaço de uma cozinha na Paróquia Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora das Mercês, na 615 Sul, para estruturar o Polo da Padaria Artesanal do Brasil. Mobilizamos a sociedade civil e empresários para reformar o local e doar os kits de equipamentos. Hoje, no DF, já temos 45 unidades formadas, e multiplicadores de 18 estados já vieram a Brasília para se capacitar e replicar o aprendizado em suas regiões.

Qual é a dinâmica do curso e como funciona o apoio fornecido às entidades cadastradas?

O treinamento dura oito horas, concentradas em um único dia. As turmas aprendem dez receitas de pães de alto valor nutritivo e de fácil execução, como os pães de cenoura, beterraba, ervas, mandioca e a rosca estrela. Cada entidade que envia voluntários para a capacitação assume o compromisso de replicar esse conhecimento em sua comunidade. Após a formação dos multiplicadores, a entidade parceira recebe o kit da Padaria Artesanal — composto por um forno de aço inox, uma mesa de inox, nove formas e um liquidificador industrial —, viabilizado integralmente por doações da sociedade civil e de empresas, sem custos governamentais. Em média, 20 pessoas são qualificadas em cada treinamento.

Ao longo desses 25 anos de projeto, que histórias marcantes a senhora guarda das pessoas que passaram pela Padaria Artesanal?

Em Brasília, na creche de Samambaia, uma jovem mãe de dois filhos autistas me contou emocionada que as crianças têm seletividade alimentar, mas voltaram a comer hortaliças e legumes porque ela passou a fazer o pão de beterraba, chamando-o de "pão da Barbie", e o pão de ervas, dizendo ser "do Hulk". Em outro caso, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, um rapaz desempregado aprendeu o ofício, envolveu os pais e abriu o próprio negócio da família, o "Delícias do Caio". O pão devolve a dignidade e mostra que, quando se dá oportunidade a um ser humano, ele se transforma.

Quais são os próximos passos do projeto?

Meu objetivo é levar a Padaria Artesanal a todos os 27 estados do país. Já alcançamos 18 estados por meio desse modelo de multiplicação e parcerias com a sociedade civil, sindicatos e entidades como o Senai. Quem quiser aprender ou indicar uma instituição para receber o projeto pode entrar em contato pelo e-mail padariaartesanaloficial@gmail.com para receber as orientações e a localização da unidade mais próxima.

 

  • Google Discover Icon
postado em 01/10/2026 05:09 / atualizado em 01/10/2026 05:22
x