Investigação

Faccionados transformavam pauladas em espetáculo e decretavam mortes no DF

Jhonatan Miguel Pereira foi torturado sob acusação de furtar drogas e morto a tiros oito dias depois, segundo a investigação; polícia apura uma sequência de homicídios atribuídos ao grupo

Jamilson, Osnairdson e Vitor são procurados pela polícia -  (crédito: PCDF/Divulgação)
Jamilson, Osnairdson e Vitor são procurados pela polícia - (crédito: PCDF/Divulgação)

Em um story privado, restrito aos “melhores amigos” de uma conta no Instagram, traficantes de São Sebastião divulgavam sessões de tortura de pessoas que, segundo as regras impostas pelo grupo, infringiram regras. Em um dos vídeos obtidos pelo Correio, aparece o jovem Jhonatan Miguel Pereira, 20 anos. Sob a acusação de furtar drogas, ele recebe 20 pauladas em cada mão. Em 26 de setembro, pouco mais de uma semana depois, o grupo determinou a execução do jovem, morto a tiros em Capão Comprido. O homicídio é um dos cinco ocorridos em 18 dias na área. A Polícia Civil prendeu três lideranças da quadrilha e divulgou a foto de outros três foragidos.

Capão Comprido é uma área de invasão em São Sebastião e está em constante expansão. Atualmente, tem 403,64 hectares. Dos barracos irregulares, um grupo formado por cinco homens e uma mulher definiu as regras para o tráfico de drogas, desde a escolha dos pontos de maior movimento ao recebimento e armazenamento dos entorpecentes.

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A atuação em São Sebastião é mais um braço do Comboio do Cão, facção criminosa fundada no DF. No topo da hierarquia está Thiago Henrique Alves de Souza, apontado como o “01” do grupo e preso em 15 de outubro. O segundo na linha de comando, Jamilson Costa, está foragido. Também integram o bando Thales Santana, identificado como o autor das pauladas em Miguel e já preso pela polícia, e Paulinha, também detida. Os outros dois são Osnairdson da Silva e Vitor Rodrigues, ambos foragidos.

Sequência

A primeira vítima da quadrilha foi uma mulher, Edilene da Rocha Borges, 30, usuária de drogas. A execução a tiros ocorreu em 24 de setembro e foi acordada após, segundo as investigações, a vítima ter furtado 1kg de maconha do grupo. De acordo com o delegado Thiago Peralva, o suspeito do crime é Jamilson Costa.

Miguel foi o segundo. Mas, antes de ser morto, recebeu 20 pauladas em cada uma das mãos. A gravação funcionou como espetáculo nas redes sociais e serviu de alerta aos infratores das normas. No vídeo, a vítima implora. “Por favor, por favor”. Thales, o agressor e posteriormente autor do homicídio, ordena: “Bota a mão, parceiro”. Atrás, um segundo rapaz envolvido diz: “Se não botar, vai ser na cabeça.” A reportagem optou por não divulgar o vídeo em decorrência da extrema violência.

Miguel morreu dois dias depois de Edilene, em 26 de setembro, a tiros. O “tribunal” sentenciou a vítima à morte por supostos furtos.

Menos de 24 horas depois, mais um assassinato. A vítima, Felipe Rodrigues de Jesus, recebeu 12 tiros. Dessa vez, Thiago, o líder, se apadrinhou de Vitor para cometer a execução. O motivo, aponta a investigação, teria sido uma reclamação de Felipe quanto à quantidade de cocaína comprada por ele nas mãos dos traficantes. “Ele teria adquirido a droga com a esposa do Thiago e teria discutido com ela”, afirmou o delegado.

Inimigo interno

No começo de outubro, o grupo sofreu uma ruptura. A polícia colheu elementos que apontam para uma possível retaliação a Thales por parte de algumas pessoas do bando. Em 4 de outubro, foram a um barraco onde funcionava o ponto de drogas comandado por Thales para matá-lo. Encontraram, porém, um usuário chamado Josué Brandão. Mesmo sem nenhuma rivalidade, assassinaram Josué.

A quinta vítima é Luigi Guilherme Marques, morto em 11 de outubro. O homicídio de Luigi não está totalmente esclarecido, mas a suspeita é de uma vingança em decorrência de uma desavença antiga com os faccionados.

Um dia depois, em 12 de outubro, Jadeilson Costa, irmão de Jamilson, um dos líderes, foi alvo de uma tentativa de homicídio. Levou quatro tiros e sobreviveu. O inquérito está em andamento.

Em 14 de outubro, um adolescente foi morto a tiros em plena luz do dia. Esse caso também está em andamento.

“Nossa investigação revelou que, além do tráfico que operava, eles sentenciavam as vítimas em uma espécie de tribunal. As mortes perpassavam por ordens deferidas nesse tribunal. Qualquer um que cometesse furtos, devesse ou reclamasse da droga, estava sujeito à pena de morte”, destacou o delegado.

Foragidos

A polícia procura pelos três foragidos líderes da quadrilha: Jamilson, Osnairdson e Vitor. Qualquer informação sobre o paradeiro dos suspeitos, ligue 197. A denúncia é sigilosa.

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postado em 21/10/2026 17:25 / atualizado em 21/10/2026 20:42
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