Em minoria no Legislativo, os parlamentares do campo progressista no Distrito Federal se preparam para um início de legislatura com o desafio de fazer valer suas propostas de campanha. Da ampliação de creches e do passe livre nos ônibus às cobranças sobre a gestão do Banco de Brasília (BRB), distritais e federais do PT, PSol, PSB e PV buscam construir uma agenda comum.
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O espaço da esquerda na Câmara Legislativa (CLDF) será limitado diante da força política da base de apoio à governadora Celina Leão (PP). A avaliação é do cientista político e mestre em sociologia Fabio Vidal. Segundo ele, embora a esquerda tenha eleito nomes com votação expressiva, o desempenho individual nas urnas não se traduz, necessariamente, em poder de decisão no Legislativo. "A esquerda tem os puxadores de voto, mas não tem a bancada. E, na política, quem decide é a bancada", esclarece.
As dificuldades se estendem à transformação das propostas eleitorais em políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde, educação, transporte e moradia. "Na prática, o papel dessa esquerda será o de uma oposição minoritária diante de um governo forte", analisa. Segundo Vidal, parte das mudanças nesses setores depende de iniciativas do Executivo. "Um deputado pode propor, cobrar e pressionar, mas dificilmente consegue fazer uma política sair do papel sozinho", ressalta.
Outro ponto de atenção, nesse cenário, será a atuação conjunta dos parlamentares de esquerda no Distrito Federal, que dependerá da capacidade de conciliar diferenças partidárias e estabelecer prioridades comuns. No entanto, ela ressalta que a união entre as siglas não ocorre automaticamente. "O caminho é pactuar prioridades e coordenar a atuação, preservando a identidade de cada partido", avalia a advogada eleitoral Lívia Medeiros.
Segundo a especialista, disputas por protagonismo, estratégias eleitorais distintas e divergências entre partidos podem dificultar a construção de uma agenda compartilhada. "A população precisa perceber como essa união melhora a vida dela", destaca. Para Lívia, mesmo sem ocupar o Governo do Distrito Federal (GDF), os parlamentares de esquerda podem influenciar as políticas públicas por meio da fiscalização do Executivo, da articulação institucional e da apresentação de propostas próprias.
Prioridades
Max Maciel, deputado distrital (PSol)
O distrital mais votado da história da Camâra Legislativa pretende concentrar o mandato em propostas para mobilidade urbana, saúde, educação, meio ambiente e gestão pública. Segundo o parlamentar, a prioridade será manter uma atuação próxima das comunidades e ampliar o acesso a serviços públicos nas regiões administrativas. "A periferia precisa estar no centro do orçamento, das políticas públicas e das decisões do governo", ressalta. Para esta legislatura, Maciel diz ter definido 26 pontos prioritários. Para viabilizar as propostas, o distrital pretende combinar atuação legislativa, fiscalização do Executivo, articulação política e destinação de emendas parlamentares. Segundo ele, durante o primeiro mandato foram destinados mais de R$ 116 milhões para áreas como saúde, educação, infraestrutura, cultura, mobilidade, meio ambiente, assistência social, esporte e segurança pública.
Chico Vigilante, deputado distrital (PT)
O petista aponta a saúde pública, o atendimento à população idosa e a qualificação profissional de jovens como prioridades para o mandato. O parlamentar avalia que a rede pública de saúde enfrenta problemas urgentes, com longas filas e dificuldades de acesso a consultas, exames e procedimentos. "É uma realidade que exige providências imediatas do poder público", destaca. Na articulação política, Chico Vigilante pretende trabalhar em conjunto com parlamentares do campo progressista, incluindo representantes do PT, PSB e PSol, para defender pautas comuns. O distrital afirma que apoiará propostas que representem avanços para a população, independentemente da origem partidária, mas promete fazer oposição a iniciativas que considere prejudiciais aos trabalhadores e à sociedade.
Gabriel Magno, deputado distrital (PT)
O distrital pretende continuar cobrando a nomeação de aprovados em concursos públicos, a valorização dos profissionais, a construção de escolas e a ampliação dos recursos do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF). Outro eixo do mandato será a fiscalização do uso do dinheiro público, especialmente diante das operações envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. Para ampliar a força política dessas propostas, o deputado defende uma atuação conjunta entre os parlamentares de esquerda na CLDF e no Congresso Nacional. Ele também considera fundamental aproximar os mandatos de sindicatos, movimentos sociais, estudantes e trabalhadores. "A unidade da esquerda é fundamental para construir uma alternativa política comprometida com os direitos da população do Distrito Federal", aponta.
Keka Bagno, deputada distrital (PSol)
A estreante na Casa pretende priorizar propostas com atenção especial às mulheres, à população negra e aos moradores das periferias. Entre as principais bandeiras estão a gratuidade nos ônibus, o acesso ao aluguel sem exigência de fiador e a aprovação do Projeto de Lei do Cuidado. "O DF precisa enfrentar as desigualdades que fazem tanta gente passar horas no transporte público, esperar meses por atendimento na saúde e trabalhar sem conseguir pagar as contas de casa", explica. A articulação com outros representantes da esquerda também deve integrar a estratégia do mandato. Com a chegada dela à Câmara Legislativa e a atuação de Fábio Félix no Congresso Nacional, a deputada eleita acredita que o campo progressista poderá ampliar sua capacidade de articulação. "Agora, com Max e eu, na Câmara Legislativa, e Fábio (Félix) no Congresso Nacional, essa atuação ganha ainda mais força", enfatiza.
Ricardo Vale, deputado distrital (PT)
O petista aponta a saúde, a educação, a cultura, o esporte e o transporte público como prioridades do mandato e cobra medidas para recuperar a capacidade financeira do Distrito Federal, especialmente diante da crise envolvendo o BRB. "É urgente que o Distrito Federal resolva essas questões financeiras e passe a enfrentar os problemas reais que atormentam nossa população", afirma. Para levar adiante as propostas, o parlamentar defende a combinação de projetos de lei, emendas ao orçamento e acompanhamento das demandas da população. "Creio que ouvir as pessoas e atuar para resolver suas pautas junto ao Poder Público também possibilitam tornar concretas as pautas defendidas pela esquerda", avalia.
Múcio Botelho, deputado distrital (PSB)
O pessebista defende "um transporte público mais eficiente, a ampliação do acesso à moradia, o fortalecimento da economia criativa, a recuperação dos espaços públicos e a valorização dos servidores" como suas principais bandeiras de atuação na CLDF. Além da apresentação de propostas, Múcio destaca a fiscalização dos contratos e das despesas do governo como uma das frentes de atuação do mandato. Para ele, o acompanhamento dos gastos públicos deve considerar a qualidade dos serviços oferecidos à população e os resultados entregues pelo Executivo. Na avaliação do deputado, um dos desafios para a destinação dos recursos públicos é evitar que decisões orçamentárias sejam influenciadas pelo alinhamento político dos parlamentares ao governo.
Dayse Amarilio, deputada distrital (PSB)
A reportagem tentou contato com a parlamentar eleita, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.
Fábio Félix, deputado federal (PSol)
De acordo com o parlamentar, seu mandato se concentrará no combate ao alto custo de vida no Distrito Federal, com atenção especial ao preço dos aluguéis e à dificuldade de acesso à moradia. Outra prioridade será a situação do BRB. Félix defende a responsabilização dos envolvidos nas operações que, segundo ele, comprometeram a instituição financeira. O parlamentar também defende o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Félix também pretende ampliar a articulação entre os partidos de esquerda na Câmara Legislativa para defender pautas comuns, como a saúde pública e a gratuidade no transporte. O deputado avalia, porém, que a cooperação política não precisa se restringir às siglas do mesmo campo ideológico. "Mesmo com a direita democrática, atuações conjuntas em torno de demandas concretas da população e da defesa da democracia podem e devem acontecer", diz.
Reginaldo Veras, deputado federal (PV)
Reginaldo Veras (PV) pretende manter a educação pública como principal prioridade do mandato, com foco em investimentos nas escolas e universidades e na valorização dos professores e demais servidores. O parlamentar também aponta a saúde, o transporte público e a moradia digna como áreas que precisam de atenção. "Não basta destinar dinheiro: é preciso garantir que os investimentos cheguem à população e façam a diferença", explica. A articulação entre os partidos progressistas também aparece entre as prioridades do deputado. Veras defende a construção de uma agenda conjunta em torno da democracia, dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores. Para ele, a capacidade de atuação da esquerda dependerá também do cenário político nacional. "Precisamos construir uma agenda conjunta em defesa da democracia, dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores".
Agnelo Queiroz, deputado federal (PT)
O ex-governador do Distrito Federal afirma que pretende trabalhar pela destinação de recursos do Orçamento da União e pela articulação com o Ministério da Saúde para enfrentar os problemas da rede pública local. Outra prioridade do parlamentar será a ampliação da oferta de creches públicas. Na mobilidade urbana, Agnelo quer retomar projetos de corredores de transporte, como os BRTs Norte e Oeste. A defesa do Fundo Constitucional do DF também estará entre as prioridades do deputado. Agnelo enfatiza que a manutenção dos recursos é essencial para financiar áreas como segurança pública, saúde e educação. "É de fundamental importância manter os recursos, porque é justamente a manutenção das áreas essenciais da cidade, como a segurança pública, a saúde e a educação", diz. Para ele, a articulação com o governo federal será decisiva para garantir os recursos necessários.
