
Celina Leão (PP) foi reeleita governadora do Distrito Federal com 57,18% dos votos válidos, superando o candidato de esquerda Leandro Grass (PT), que somou 42,82%. O resultado reflete, no plano local, a disputa polarizada nacional entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) — em um DF que, historicamente, pende para o campo da direita, mas que nesta eleição sentiu o impacto da forte mobilização nacional da esquerda em torno da candidatura de Lula, alcançando também o eleitorado brasiliense.
Apesar do cenário nacional aquecido e do escândalo envolvendo o BRB e o Banco Master, a governadora conseguiu contornar a crise sem comprometer sua reeleição, demonstrando habilidade política para navegar entre os desafios locais e o ambiente polarizado. O Correio ouviu dois especialistas sobre os desafios que Celina Leão enfrentará neste novo mandato.
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O cientista político André César, analista da Hold Consultoria, explicou que a governadora reeleita irá enfrentar os mesmos desafios e determinou que são empecilhos "eternos", que repercutem em todas as áreas do DF. "São problemas que não são de hoje. Ela vai ter que mostrar um projeto e apresentar um plano de ações imediatas", disse. Segundo o especialista, Celina terá, ainda, outro desafio: recuperar a imagem do GDF. "Essa é uma mácula que ficou e que vai dar problemas nesse novo governo dela", enfatizou.
O especialista destacou que a campanha feita por Celina Leão foi determinante para fazer com que ela tenha sido eleita com 987.142 votos. "Para conseguir a reeleição, é fundamental tocar uma campanha de maneira acertada para os interesses, para as questões que importam", explicou. André César ainda enfatizou que o PT perdeu espaço também no DF. "O eleitor médio olha o PT, em especial no DF, como um partido que teve problemas quando esteve a frente do Palácio do Buriti. Isso também é importante para o posicionamento. Nesse sentido, o eleitor, em geral, é conservador", acrescentou.
No cenário em que a maioria dos deputados — distritais e federais — e senadores eleitos de direita, o cientista político afirmou que Celina tem condições de trabalhar com uma base já consolidada. "Ela pode ter sucesso e evitar problemas que vão aparecer", destacou. Apesar do cenário favorável, André César ressaltou que a questão do BRB pode atrapalhar o governo de Celina. "Apesar disso, parece que vem um pouco de euforia por causa da vitória e ela vai avançar no terreno", complementou.
Sobre as promessas feitas por Celina durante a campanha, o especialista entrevistado pelo Correio, citou cinco pontos principais de atenção para o governo da Celina. "O tripé básico será saúde, educação e segurança pública. Depois, tem trabalho e infraestrutura geral da cidade. Que são linhas mestras e básicas", pontuou. O especialista também ressaltou a importância do Banco de Brasília para os próximos quatro anos. "A questão BRB é um fantasma, que pode assombrar o segundo governo Celina. A gente não sabe o que pode aparecer", detalhou.
Legitimidade política
O cientista político pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em democracia participativa Rócio Barreto comentou que os votos brancos e nulos podem indicar se as regiões receberam as políticas públicas solicitadas pela população.
Com a definição de parlamentares na Câmara Legislativa do DF e na bancada brasiliense no Congresso Nacional, Barreto avaliou que Celina terá legitimidade política para reorganizar e ampliar sua base na Câmara, mas que isso não é uma garantia de apoio automático de deputados distritais. "A governabilidade depende muito da capacidade de construir acordos, definir prioridades e manter diálogo com parlamentares dos mais variados partidos, ideologias e composições. Os deputados eleitos querem corresponder ao programa com as suas bases", disse. Para o especialista em democracia, a governadora reeleita irá enfrentar dificuldades em "construir uma maioria funcional, sem transformar a negociação política em distribuição de vantagem, cargos e o que é incompatível com o interesse público e a transparência".
Com diversas promessas feitas durante a campanha, Barreto elenca que Celina terá dificuldades para assumir compromissos que dependem de mudanças estruturais, como grandes investimentos e articulação entre instituições de saúde, por exemplo. "Isso exige profissionais e estrutura e organização da rede, além de acompanhamento e valorização dos profissionais de todas as áreas", disse.
Poder federal
Para André César, se Flávio Bolsonaro (PL) fosse eleito, Celina teria um "grande entendimento" e facilidade em estabelecer um diálogo. "É uma situação de ganha-ganha. Os interesses dos dois se complementam. Inclusive, com interesse do Flávio em Brasília", disse. Já com Luis Inácio Lula da Silva (PT) reeleito, a avaliação do especialista é de que será um caminho mais sinuoso, porém, "não é do interesse de Celina brigar com o governo federal". Ele reforça que Celina irá prezar por negociações. "Isso é próprio da política. Mesmo sendo diferentes, há interesses em comum. Não vai ser uma ruptura", acrescentou.
Por sua vez, Rócio Barreto explica que a relação irá depender da afinidade política entre os governos e da capacidade de Celina de criar uma agenda institucional de interesse do DF. "Diferenças partidárias, ideológicas, poderiam gerar dificuldade de interlocução em determinadas pautas, mas não impedirá acordos sobre saúde, segurança, mobilidade, infraestrutura e as políticas sociais, que é um dos carros-chefes do DF", afirmou. O especialista ressaltou que a governadora precisa manter o diálogo técnicos e político com ministérios, parlamentares federais e órgãos da União para buscar recursos e viabilizar os projetos.
Artigo
O que esperar a partir de 2027 - Evelyn Apolinaria, cientista política e coordenadora-geral do Observatório do Congresso
A vitória de Celina Leão (PP) fará dela a governante com a posição mais confortável desde a redemocratização no relacionamento com a Câmara Legislativa. Ela chegou ao segundo turno com 49,93% dos votos válidos no primeiro, contra 34,47% de Leandro Grass (PT). Ao longo de 2023-2026, o Executivo local conviveu com uma maioria ampla e estável: em 2024, a base de Ibaneis Rocha somava cerca de 18 dos 24 distritais, contando os independentes, e a oposição, com seis, não tinha capacidade de obstrução. O resultado foi um padrão de governabilidade assentado em uma maioria com baixo tensionamento legislativo e uma tramitação rápida de projetos do Buriti.
Esse padrão veio se desgastando antes da eleição. A crise BRB-Master, a saída de Ibaneis em março de 2026 e o rompimento do PL com o então governador, acompanhado de pedido de CPI, mostraram que a maioria numérica da direita na CLDF, naquele momento, não se traduziria automaticamente em coesão governista. A nova composição de 2026, no entanto, demonstra que as alianças já foram costuradas desde a campanha. O PL elegeu a maior bancada, com cinco cadeiras, mas nenhum partido passa disso: PT, Republicanos, MDB e PP têm três cada, PSOL e PSB, duas, e União, Podemos e PSD, uma. Somadas, as legendas de centro-direita e direita ocupam 17 das 24 vagas, enquanto PT, PSOL e PSB reúnem sete. Porém, a governabilidade de Celina dependerá da capacidade da governadora de administrar uma maioria fragmentada em dez partidos, na qual cada sigla terá incentivo para negociar caro seu apoio.
O que esperar de 2027, portanto, é uma governabilidade hegemônica, sim, mas mais transacional do que a do ciclo anterior. A governadora terá a vantagem de uma vitória robusta e de uma base ampla, mas deverá partilhar espaço com um PL fortalecido, que ajudou a eleger e que tem agenda e interesses próprios, e conviver com restrições fiscais herdadas do episódio do BRB, que reduzem a margem para distribuir recursos e cargos. A oposição, embora minoritária, tende a ganhar visibilidade com nomes de forte votação, como Max Maciel, o mais votado do pleito. O teste inicial estará no orçamento de 2027 e na definição da presidência da Casa, momentos em que se verá se a maioria numérica se converte em uma coalizão eficiente ou se a fragmentação cobra o seu preço.
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O que esperar a partir de 2027
A vitória de Celina Leão (PP) fará dela a governante com a posição mais confortável desde a redemocratização no relacionamento com a Câmara Legislativa. Ela chegou ao segundo turno com 49,93% dos votos válidos no primeiro, contra 34,47% de Leandro Grass (PT). Ao longo de 2023-2026, o Executivo local conviveu com uma maioria ampla e estável: em 2024, a base de Ibaneis Rocha somava cerca de 18 dos 24 distritais, contando os independentes, e a oposição, com seis, não tinha capacidade de obstrução. O resultado foi um padrão de governabilidade assentado em uma maioria com baixo tensionamento legislativo e uma tramitação rápida de projetos do Buriti.
Esse padrão veio se desgastando antes da eleição. A crise BRB-Master, a saída de Ibaneis em março de 2026 e o rompimento do PL com o então governador, acompanhado de pedido de CPI, mostraram que a maioria numérica da direita na CLDF, naquele momento, não se traduziria automaticamente em coesão governista. A nova composição de 2026, no entanto, demonstra que as alianças já foram costuradas desde a campanha. O PL elegeu a maior bancada, com cinco cadeiras, mas nenhum partido passa disso: PT, Republicanos, MDB e PP têm três cada, PSOL e PSB, duas, e União, Podemos e PSD, uma. Somadas, as legendas de centro-direita e direita ocupam 17 das 24 vagas, enquanto PT, PSOL e PSB reúnem sete. Porém, a governabilidade de Celina dependerá da capacidade da governadora de administrar uma maioria fragmentada em dez partidos, na qual cada sigla terá incentivo para negociar caro seu apoio.
O que esperar de 2027, portanto, é uma governabilidade hegemônica, sim, mas mais transacional do que a do ciclo anterior. A governadora terá a vantagem de uma vitória robusta e de uma base ampla, mas deverá partilhar espaço com um PL fortalecido, que ajudou a eleger e que tem agenda e interesses próprios, e conviver com restrições fiscais herdadas do episódio do BRB, que reduzem a margem para distribuir recursos e cargos. A oposição, embora minoritária, tende a ganhar visibilidade com nomes de forte votação, como Max Maciel, o mais votado do pleito. O teste inicial estará no orçamento de 2027 e na definição da presidência da Casa, momentos em que se verá se a maioria numérica se converte em uma coalizão eficiente ou se a fragmentação cobra o seu preço.
Cidades DF
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