Agricultura

Produção de trigo no DF deve aumentar mais de 70% este ano, estima IBGE

Melhoramento genético, com cultivares mais tolerantes ao calor, a doenças e à seca, impulsiona a expansão do cereal na região. Mas a elevação das temperaturas e dos custos, e as dificuldades de comercialização ainda desafiam produtores

A produção deste ano na capital deve ficar em 29,8 mil toneladas do grão contra 17,4 mil toneladas em 2025, um aumento de 71,1%, de acordo com o IBGE -  (crédito: Julio Albrecht)
A produção deste ano na capital deve ficar em 29,8 mil toneladas do grão contra 17,4 mil toneladas em 2025, um aumento de 71,1%, de acordo com o IBGE - (crédito: Julio Albrecht)

Originalmente de clima temperado, o trigo tem ganhado cada vez mais espaço nas condições tropicais do Distrito Federal. Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área plantada com o grão na capital praticamente dobrou entre 2025 e 2026, passando de 4 mil hectares para 7.920 hectares, um aumento de 98%. O instituto prevê, ainda, que a produção deste ano deve ser 71,1% maior do que a do ano passado: cerca de 29,8 mil toneladas contra 17,4 mil toneladas. 

Apesar de esses números estarem sujeitos a revisão até o fim do ano, para especialistas e produtores alguns fatores explicam o aumento do interesse pelo trigo na região, principalmente o cultivo de sequeiro, que dispensa irrigação e apresenta custos menores. "Esse fator, associado ao preço atraente do trigo, levou vários produtores a optarem por plantar a cultura", destaca o chefe da seção de Pesquisas Agropecuárias da Superintendência Estadual do IBGE no Distrito Federal, Elton Fior.

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O agrônomo Cláudio Malinski, da Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (COOPA-DF), assinala que o grão faz parte da chamada rotação de culturas, quebrando a sequência de pragas e doenças que normalmente ocorrem no solo. Ele aponta, também, a possibilidade de semear o trigo após o período favorável ao milho de segunda safra como um atrativo aos produtores do DF. Já o pesquisador Julio Albrecht, da Embrapa Cerrados (DF), comenta que o desenvolvimento de cultivares adaptadas viabilizou a cultura na região e aponta como vantagem o fato de o trigo deixar palhada na lavoura, o que contribui para o manejo de doenças e plantas daninhas, favorecendo os cultivos seguintes.

Qualidade

O trigo produzido no DF se destaca pela qualidade superior, especialmente pela força de glúten, característica que contribui para a melhoria das farinhas utilizadas na panificação. O agrônomo Cláudio Malinski conta que essa qualidade do cereal produzido no Cerrado tem atraído compradores de outros estados. "São empresas que compram o trigo da região para misturá-lo ao de outras origens e melhorar a farinha produzida", comenta.

Segundo Malinski, uma das vantagens da produção regional é a colheita em período normalmente seco, o que favorece a qualidade dos grãos e permite a secagem natural, reduzindo a necessidade de gastar energia com secadores. "Aqui não ocorrem micotoxinas, como no Sul do Brasil, onde normalmente chove na colheita", acrescenta.

Trigo produzido no DF melhora farinhas usadas na panificação
Trigo produzido no DF melhora farinhas usadas na panificação (foto: COOPA-DF/Divulgação)

O agrônomo relata que a COOPA-DF adquiriu 15 mil toneladas de trigo na última safra. "Esse volume, somado aos estoques, é suficiente para atender à demanda anual da cooperativa. Cerca de 70% desse trigo se transforma em farinha", diz. Malinski conta, no entanto, que o excesso de calor prejudicou os grãos nesta safra. As temperaturas elevadas aceleraram o ciclo das plantas e reduziram o rendimento de extração de farinha na indústria.

O calor e as chuvas em junho também prejudicaram a produtividade do trigo cultivado por Alan Cenci, neste ano, no PAD-DF. Ele cultivou 330 hectares, sendo 180 irrigados e 150 de sequeiro. "A lavoura se pagou, mas praticamente não deixou lucro nenhum, por conta da produtividade mais baixa", relata.

Mesmo com o resultado, o produtor, que cultiva trigo há mais de 30 anos, pretende manter o cereal na propriedade. Além da geração de receita, ele destaca os benefícios da rotação de culturas: a palhada deixada pelo trigo e sua contribuição para o manejo de doenças do solo e de plantas daninhas favorecem os plantios seguintes. "A gente planta trigo pensando na próxima cultura que vai plantar lá na frente", diz.

Cláudio Malinski reforça a importância da estratégia usada por Cenci. "Se plantar leguminosas, ou seja, soja e feijão, com muita frequência, esse solo acaba ficando degradado e desenvolve muitos microorganismos prejudiciais, patógenos", explica. A entrada do trigo na rotação de culturas melhora o sistema, deixando o ambiente mais favorável para os plantios que vêm depois. "Às vezes, o trigo não precisa dar muito lucro, mas o fato de ajudar a melhorar o ambiente facilita bastante. O produtor planta o trigo pensando no sistema de produção, não só na lucratividade", completa.

Pesquisa

O desenvolvimento de cultivares de trigo mais resistentes à seca e ao calor está entre as prioridades da Embrapa para ampliar a segurança da produção no Cerrado. Segundo o pesquisador Julio Albrecht, esse trabalho é especialmente importante para o cultivo de sequeiro, que depende das chuvas. Entre os resultados, Albrecht destaca a BRS Savana, desenvolvida para esse sistema.

O pesquisador também aponta a perspectiva de lançamento de uma cultivar transgênica mais resistente à falta de água, que está sendo desenvolvida pela Embrapa. Outra frente de pesquisa é a resistência à brusone, apontada por Albrecht como a principal doença do trigo na região.

Trigo avança no DF
Área plantada com o grão na capital quase dobrou entre 2025 e 2026 (foto: COOPA-DF/Divulgação)

"O problema ocorre com maior intensidade nas lavouras de sequeiro e exige atenção às épocas recomendadas de plantio e à escolha de cultivares mais tolerantes. Para o sistema irrigado, a pesquisa também busca combinar resistência à doença, produtividade elevada e qualidade da farinha para panificação", acrescenta.

De acordo com Albrecht, o trabalho de adaptação do trigo ao Cerrado feito pela Embrapa começou com a avaliação de materiais trazidos do Sul do Brasil. Depois, a empresa incorporou materiais do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, do México, e realizou cruzamentos para selecionar plantas mais adequadas às condições do Brasil Central.

"Os primeiros materiais avaliados produziam entre 2 mil e 2,5 mil quilos por hectare. Com o melhoramento genético e o desenvolvimento das técnicas de cultivo, os rendimentos avançaram. Hoje, as médias são de 6 mil a 7 mil quilos por hectare no sistema irrigado do DF e de aproximadamente 3 mil quilos no sequeiro. Alguns produtores alcançam entre 9 mil e 9,5 mil quilos por hectare nas áreas irrigadas", enumera.

Entre as cultivares desenvolvidas pela Embrapa está a BRS 264, que se destaca pela produtividade e pela qualidade para panificação. Indicada, principalmente, para o sistema irrigado, ela contribuiu para a expansão da cultura na região e mantém a preferência de moinhos, segundo o pesquisador. A empresa também lançou a BRS 404, para sequeiro, e a BRS Cracker, primeira cultivar de trigo tropical do mundo desenvolvida especificamente para a indústria de biscoitos. Além da genética, o trabalho envolve recomendações sobre épocas de plantio, escolha de áreas, densidade de plantas e espaçamento. 

O pesquisador associa o interesse dos agricultores pelo cereal também aos benefícios da rotação de culturas. Segundo ele, a palhada deixada pelo trigo contribui para reduzir a infestação de plantas daninhas e os custos das lavouras seguintes. A alternância de cultivos também auxilia no manejo de doenças e na manutenção de um sistema produtivo mais saudável.

A qualidade industrial e o calendário de colheita são outros atrativos. Albrecht explica que parte da produção regional chega ao mercado antes da entrada mais intensa da safra do Sul, o que pode favorecer os preços recebidos pelos agricultores. 

A comercialização, porém, ainda limita a expansão. "O número de moinhos no Distrito Federal e no Entorno é reduzido, o que pode dificultar a venda da produção", comenta. Ele relata que empresas de outras regiões buscam trigo local pela qualidade industrial e que há interesse na instalação de novas unidades de processamento.

"À medida que forem construídos mais moinhos aqui na região, nós, tranquilamente, proximamente, alcançaremos talvez 1 milhão, 2 milhões de hectares plantados. Com isso, podemos ajudar o Brasil a diminuir os gastos que temos com a importação de trigo", finaliza o pesquisador.

Custos de produção

Para o secretário de Agricultura do Distrito Federal, Rafael Bueno, a triticultura vem ganhando destaque na região como alternativa de renda e diversificação da produção agrícola, mas, apesar das oportunidades, os custos de produção representam um dos principais desafios para a atividade.

 03/07/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Cidades. CB Agro recebe Rafael Bueno, Secretário de Agricultura do DF,
Rafael Bueno, secretário de Agricultura do DF (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

"A alta dos preços dos fertilizantes, influenciada por conflitos geopolíticos internacionais, como os do Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, pressiona os custos de produção. O aumento do preço do diesel também impacta as operações com máquinas agrícolas e o transporte de insumos e produtos", aponta.

Bueno aponta que o fortalecimento da triticultura no DF depende do aprimoramento das técnicas de manejo, do planejamento da adubação e da adoção de estratégias que ampliem a eficiência produtiva e garantam maior viabilidade econômica para os produtores rurais.

"O Governo do Distrito Federal (GDF) tem incentivado o desenvolvimento da cultura por meio de políticas de apoio aos produtores rurais, como o Pró-Rural, programa que oferece benefícios tributários, incluindo a possibilidade de redução de até 80% do ICMS, conforme as regras de adesão e enquadramento", explica o secretário.

Segundo a engenheira-agrônoma Adriana Nascimento, responsável pela cadeia de grãos na Emater-DF, o Distrito Federal tem 49 produtores de trigo, concentrados principalmente no Paranoá e em Planaltina. Para apoiar a atividade, a empresa oferece assistência técnica e capacitação em manejo agronômico e ambiental, além de participar da validação de cultivares de trigo tropical adaptadas à escassez de água e resistentes a pragas e doenças.

A expectativa é de ganhos de produtividade, manutenção das áreas irrigadas de alta eficiência e expansão gradual do cultivo de sequeiro. "O avanço do melhoramento genético pode contribuir para ampliar a oferta regional e reduzir a necessidade de aquisição de trigo de outras origens pelas indústrias do DF. A cadeia também gera empregos no campo e em atividades como transporte e processamento dos grãos", enfatiza Adriana.

Evolução da triticultura na capital — Área plantada (hectares)

  • 2016: 420 
  • 2017: 1.083
  • 2018: 1.900
  • 2019: 2.950
  • 2020: 2.500
  • 2021: 3.000
  • 2022: 3.300
  • 2023: 3.200
  • 2024: 5.300
  • 2025: 4.000
  • 2026: 7.920
  • Fonte: IBGE — Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA)

 

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postado em 03/11/2026 05:00
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