
Enquanto a maioria das pessoas enfrenta um declínio natural da saúde com o passar das décadas, um grupo restrito de indivíduos desafia as estatísticas biológicas. São os supercentenários, pessoas que ultrapassaram a marca dos 110 anos de idade. E uma pesquisa inédita, publicada nesta terça-feira (6/1) no Genomy Psichiatry, mostra como quatro pesquisadores brasileiros investigam como essas pessoas conseguem adiar ou evitar doenças graves, como o câncer e a demência, mantendo a funcionalidade em idades extremas.
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Liderada pelo Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), a pesquisa identificou que a miscigenação do país é uma peça-chave para entender a longevidade. A mistura entre nativos americanos, europeus, africanos e asiáticos criou um cenário genético único.
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Estudos revelaram mais de 8 milhões de variantes genômicas na população brasileira que não existem em bancos de dados globais. Essa diversidade permite a descoberta de "genes protetores" que permanecem invisíveis em populações mais homogêneas da Europa ou América do Norte. Atualmente, o Brasil tem três dos 10 homens mais velhos do mundo já validados, além de uma proporção de mulheres supercentenárias superior à de países como os Estados Unidos.
Os três pilares da resistência biológica
A longevidade desses indivíduos não é apenas fruto do acaso ou de bons hábitos; ela está escrita em sua arquitetura celular. A psquisas aponta três mecanismos principais:
- Adaptação imunológica: Com o passar dos anos, o sistema imunológico costuma perder eficiência. Nos supercentenários, o que ocorre é diferente: há uma adaptação funcional. Eles apresentam uma expansão de células de defesa específicas, chamadas células T CD4+ citotóxicas, que ajudam a controlar infecções e o surgimento de células doentes mesmo em idades avançadas.
- Limpeza celular (Proteostase): Outro fator decisivo é a capacidade das células de eliminar componentes danificados. Esse processo, conhecido como autofagia, funciona como um sistema de limpeza interna. Nos supercentenários, ele se mantém ativo em níveis semelhantes aos observados em pessoas muito mais jovens, evitando o acúmulo de resíduos celulares associados a falhas no organismo.
- Estabilidade do DNA: Foram detectadas variantes raras em genes ligados ao reparo de danos no DNA. Isso significa que as células desses indivíduos são mais eficientes em se auto-reparar contra agressões externas e mutações. Variantes genéticas associadas ao conserto de danos e à organização do material genético ajudam a manter a estabilidade das células ao longo de décadas, reduzindo o risco de doenças
Segundo os pesquisadores, a robustez biológica desse grupo foi colocada à prova durante a pandemia de covid-19 em 2020. Antes mesmo da disponibilidade de vacinas, pesquisadores acompanharam supercentenários brasileiros que sobreviveram à doença. Eles apresentaram níveis elevados de anticorpos e proteínas de defesa natural, demonstrando uma resistência superior à média da população.
Os cientistas também observaram um padrão familiar. Parentes próximos de centenários têm probabilidade significativamente maior de atingir idades avançadas. Casos acompanhados no Brasil mostram famílias com vários membros ultrapassando os 100 anos, reforçando a influência da herança genética na longevidade.

Ciência e Saúde
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