
Mais do que a quantidade, é a variedade de atividades físicas praticadas ao longo da vida que impacta positivamente na longevidade, diz um estudo publicado na revista British Medical Journal Medicine. Os autores, da Escola de Saúde Pública Harvard T. H. Chan, em Harvard, analisaram dados de dois grandes estudos longitudinais que, juntos, reúnem informações sobre estilo de vida e saúde de aproximadamente 100 mil pessoas, acompanhadas por três décadas. Eles concluíram que o risco de morte por todas as causas é menor entre aquelas que se dedicaram a diversas modalidades, independentemente do volume total de exercício realizado.
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Nos estudos avaliados, os participantes relataram periodicamente quais atividades praticavam — como caminhada, corrida, ciclismo, musculação, natação e esportes com raquete — além da frequência e da duração. A partir desses dados, os pesquisadores calcularam tanto o volume total de exercício, medido em equivalentes metabólicos (METs), quanto o número de diferentes modalidades experimentadas ao longo do tempo.
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A análise mostrou que pessoas que se dedicaram a atividades diversas apresentaram menor risco de morte por qualquer causa em comparação com aquelas que realizavam menos tipos de exercício. O resultado foi observado mesmo quando o volume total da prática era semelhante.
A associação também foi notada quando os pesquisadores avaliaram causas específicas de mortalidade, como doenças cardiovasculares, câncer e enfermidades respiratórias. Segundo os autores, a diversidade parece oferecer benefício adicional além do simples cumprimento das recomendações mínimas de atividade física.
Estabilização
Outro destaque foi que a relação entre volume total de exercício e mortalidade não foi linear. Após determinado nível de prática, os ganhos adicionais tenderam a se estabilizar. Já a variedade de atividades manteve associação independente, com menor risco.
O estudo também examinou modalidades específicas. Caminhada, corrida, treinamento de força e esportes de raquete estiveram entre as atividades associadas a menor risco de mortalidade. A natação, por sua vez, não teve relação estatisticamente significativa com a redução do risco na análise. Os pesquisadores destacam que as diferenças podem refletir características dos praticantes, intensidade do esforço ou outros fatores não completamente controlados.
Por se tratar de um estudo observacional, os resultados não estabelecem relação de causa e efeito, ressaltaram os autores. Porém, eles afirmam que os dados reforçam o papel central da atividade física na promoção da saúde e sugerem que combinar diferentes tipos de exercício ao longo da vida pode estar associado a benefícios adicionais.
Adaptações
"Cada tipo de exercício gera adaptações morfofisiológicas específicas com base nos parâmetros do treinamento. Por isso, quanto mais aspectos da nossa saúde conseguimos abordar com os tipos de treinamentos, menor é o risco de mortalidade", observa o educador físico Jáder Guerra, coordenador técnico da Academia Corpo e Saúde, em Brasília. "Para exemplificar, pensemos em uma mulher de 60 anos que treina corrida de rua há muitos anos. A saúde cardiovascular dessa atleta provavelmente será excelente, mas o treino mais indicado para prevenir a sarcopenia (perda progressiva de massa corporal) é a musculação ou o treino de flexibilidade."
Os pesquisadores da Universidade de Harvard reconhecem que há poucas evidências sobre os potenciais efeitos da variedade de atividades físicas na saúde. Mas destacam algumas hipóteses. "Vários estudos constataram que a prática conjunta de exercícios aeróbicos e treinamento de resistência melhora a função física de forma mais eficaz do que qualquer um dos tipos isoladamente", escreveram, no artigo. Eles também acreditam que o platô atingido por praticantes de atividades pode influenciar, pois variar a prática pode ajudar a colher mais benefícios quando a anterior já não traz mais resultados.
"Ao longo de milhares de anos, nosso corpo evoluiu para ser extremamente eficiente em cumprir desafios. Quando o colocamos frente uma tarefa — nesse caso, podemos pensar em um exercício físico, ele se adaptará até que consiga executar com maestria, mas para por aí. Quando a tarefa não é mais desafiadora, está na hora de incrementar o treino", recomenda Jáder Guerra, destacando a necessidade do acompanhamento de um profissional para evitar lesões e melhorar o desempenho.
Saiba Mais
Duas perguntas para Jefferson Rodrigues, profissional de educação física, fisiologista e vice-presidente da Academia Brasileira do Sono/SC
Do ponto de vista fisiológico, quais mecanismos explicam o benefício da variedade de atividades físicas?
Cada atividade física tem a sua demanda, com relação a ser mais aeróbico, mais anaeróbico, exigir mais força, enquanto outras requerem mais a parte cognitiva, concentração, coordenação. Então, quanto mais a gente utiliza uma variedade de modalidades esportivas, mais valências físicas a gente trabalha. E isso traz um repertório de melhor qualidade, não só em relação ao condicionamento físico, mas também cognitivo. Às vezes, até com relação às atividades coletivas, a gente trabalha uma questão de controle de ansiedade e de estresse, por estar interagindo com o grupo. Isso também trazer outros efeitos que vão além do esporte
O estudo aponta que há um ponto a partir do qual aumentar o volume da atividade não traz mais benefícios. Como identificar esse limite para evitar sobrecarga?
Todas as atividades físicas que extrapolam aquilo que é o fisiológico, quando o corpo não tem o tempo necessário para poder se recuperar, acaba trazendo riscos. Tanto que o índice de lesão após a maturidade em atletas é muito maior do que na população em geral. Os atletas são submetidos cada dia mais a uma carga de treinamento muito superior ao que o corpo suportaria, e isso gera não só lesões agudas, principalmente articulares, como também demandas fisiológicas muito graves, como hipertrofia cardíaca. Então, existe uma dosagem no treino, e isso é fundamental. O equilíbrio do exercício físico é aquilo que o corpo suporta. E uma das coisas que é importante é progressivamente aumentar essa carga e o tempo de duração dos exercícios, pensando na saúde, para o exercício proporcionar apenas benefícios e não malefícios. (PO)

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