Pesquisadores brasileiros registraram pela primeira vez um caso de leucismo em um Sapajus libidinosus, espécie conhecida como macaco-prego barbado, no Parque Nacional de Ubajara, na Serra da Ibiapaba (CE). O filhote, apelidado de “Fantasma”, apresenta manchas brancas espalhadas pelo corpo, sinal de perda parcial de melanina na pelagem, condição considerada extremamente rara entre primatas.
O registro marca o primeiro relato do fenômeno na espécie em ambiente natural. Diferentemente do albinismo, já descrito anteriormente em macacos-prego mantidos em cativeiro, o leucismo é uma condição congênita que reduz parcial ou totalmente a pigmentação dos pelos, mas preserva a coloração escura dos olhos.
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O primatólogo Tiago Falótico observou o animal enquanto instalava gravadores de som na área de estudo. “Primeiro vi um macaco branco, diferente, que nem era do nosso grupo de pesquisa. Fui atrás e encontrei o filhote branquinho”, relatou ao Jornal da USP. O pesquisador é associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, e preside o Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo).
A equipe avistou o filhote duas vezes, com intervalo de 30 dias. Segundo os pesquisadores, o comportamento do animal é compatível com o de um infante saudável: permanece a maior parte do tempo carregado pela mãe, mas já demonstra curiosidade e explora o ambiente por conta própria. Não houve registro de rejeição no grupo, e o animal segue socialmente integrado.
Hipóteses genéticas e ambientais
O parque, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), abrange cerca de 6.300 hectares e reúne florestas, cavernas, montanhas e cachoeiras. A área apresenta microclimas distintos, variando entre regiões úmidas e frias no planalto e áreas mais secas na transição para o semiárido.
Diante da ocorrência rara, os pesquisadores avaliaram possíveis causas ambientais, como poluição ou deficiência alimentar. No entanto, a hipótese perdeu força. “Se fosse algo ambiental, como contaminação ou alimentação inadequada, esperaríamos ver mais casos distribuídos pelos grupos”, afirma Falótico. Para ele, a explicação mais provável é uma mutação genética espontânea.
A descoberta levou a equipe a revisar bancos de dados antigos. Neles, identificaram um macho adulto conhecido como “Jenipapo”, que apresenta uma mancha branca sutil na cabeça, e também uma leve despigmentação nos testículos. O animal, contudo, pertence a outro grupo e não é pai do filhote. “O pai provável é o Zeca, macho do grupo do Fantasma, que acompanhamos há anos”, explica a pesquisadora Tatiane Valença, coautora do estudo.
Desde o início das pesquisas na área, há seis anos, nenhum outro indivíduo com padrão semelhante foi registrado. O artigo foi publicado na revista Primates.
Sinal de alerta para conservação
A presença de dois indivíduos com alterações na pigmentação levanta preocupações sobre possível redução da variabilidade genética da população. Caso a hipótese genética se confirme, o leucismo pode indicar endogamia em um grupo isolado, com fluxo gênico limitado.
“Um animal com coloração diferente pode sinalizar que a população está restrita a um fragmento e não está trocando genes com outros grupos”, alerta Falótico. O pesquisador também menciona pressões adicionais, como a presença de animais domésticos nas bordas do parque e a expansão urbana.
A preocupação vai além da genética. A população de macacos-prego do Ubajara é reconhecida por comportamentos raros de uso de ferramentas. Além de utilizarem pedras para quebrar cocos, prática já observada em outras regiões, esses primatas usam pedras para cavar e varetas para extrair aranhas de tocas, comportamento registrado anteriormente apenas na Serra da Capivara.
“Conservar essa população é fundamental não só para proteger a espécie, mas também para preservar tradições culturais transmitidas entre gerações”, afirma Tatiane. “Esses comportamentos são essenciais para a sobrevivência dos animais e ajudam a compreender aspectos da própria evolução humana.”
O monitoramento de longo prazo deverá indicar se o caso do “Fantasma” permanece isolado ou se representa um sinal mais amplo de alterações na dinâmica populacional da espécie no parque cearense.
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