
Pela primeira vez, cientistas confirmaram a ocorrência de descargas elétricas na atmosfera de Marte. A descoberta foi feita a partir de dados coletados pela sonda MAVEN (Mars Atmosphere and Volatile Evolution), da Nasa, lançada em 2013. A evidência não veio por imagens, mas por som, conhecidas como “assobios”, semelhantes às registradas na Terra quando há ocorrência de raios.
Apesar da recente perda de contato com a sonda, pesquisadores analisaram cerca de 180 mil observações acumuladas ao longo da missão e encontraram a detecção definitiva de descargas elétricas na atmosfera marciana. Os resultados foram publicados na revista científica Science Advances e também apresentados na LPSC 2025 (Conferência de Ciência Lunar e Planetária).
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Como os raios foram identificados
Diferentemente do que acontece aqui, em que a eletricidade se forma principalmente em nuvens de tempestade, em Marte os raios estão associados às tempestades de poeira, com o atrito entre os grãos de areia gerando eletricidade estática, o mesmo princípio de um choque ao tocar uma maçaneta após caminhar sobre um tapete (triboeletrificação), mas em escala planetária.
O que já se sabia
Antes da confirmação pela MAVEN, o rover Perseverance já havia identificado indícios de eletricidade na superfície marciana. Em dois anos marcianos (equivalentes a 687 dias terrestres), foram registrados 55 eventos sonoros, sendo 16 associados a redemoinhos de poeira.
Esses redemoinhos acumulam cargas elétricas à medida que giram, criando campos intensos capazes de gerar descargas. Nesse processo, partículas maiores tendem a ficar carregadas positivamente, enquanto partículas menores ficam negativamente carregadas, a separação dessas cargas cria condições para a formação de raios.
Por que a descoberta é importante
Existem três motivos principais que fazem essa descoberta ser como encontrar uma peça importante de um quebra-cabeça:
Primeiro, porque descargas elétricas podem alterar a química da atmosfera. Na Terra primitiva, bilhões de anos atrás, os raios podem ter contribuído para a formação de moléculas essenciais à origem da vida. A presença desse fenômeno em Marte levanta novas questões sobre possíveis processos químicos semelhantes no passado marciano.
Segundo, a descoberta é relevante para futuras missões tripuladas, descargas elétricas associadas a tempestades de poeira podem representar risco para equipamentos eletrônicos e para a segurança de astronautas.
Por fim, os raios também influenciam a composição atmosférica, eles podem gerar gases como o ozônio e outras substâncias que interferem na estabilidade da atmosfera. Compreender esse processo ajuda cientistas a entender como Marte passou de um planeta com rios e lagos para o ambiente árido e rarefeito observado atualmente.
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O legado da missão
Mesmo após silenciar, a sonda deixa um vasto conjunto de dados que continuará sendo analisado nos próximos anos e pode contribuir diretamente para o planejamento e a segurança das primeiras missões tripuladas ao planeta, previstas para a próxima década.
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca
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