RIO DE JANEIRO

Grávidas com câncer de mama podem e devem tratar a doença, dizem especialistas na Onco Rio

Tema foi debate da 11º edição do evento, que começou nesta sexta-feira (27/3); congresso reune médicos do Brasil e do exterior para discutir avanços e desafios na oncologia

Grávidas com câncer de mama podem e devem tratar a doença, dizem especialistas na Onco Rio -  (crédito:  Giovanna Sfalsin/CB/D.A Press )
Grávidas com câncer de mama podem e devem tratar a doença, dizem especialistas na Onco Rio - (crédito: Giovanna Sfalsin/CB/D.A Press )

Rio de Janeiro — Nesta sexta-feira (27/3), começou no Rio de Janeiro, a 11ª edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio, com especialistas do Brasil e do exterior para discutir avanços, desafios e perspectivas no tratamento do câncer. Logo após a abertura, a médica oncologista Laura Testa falou sobre a abordagem do câncer de mama em gestantes.

Segundo a especialista, o primeiro passo ao receber o diagnóstico é compreender profundamente a doença, independentemente da gestação. “ Hoje em dia, a gente já sabe que não é uma doença só, então existem subtipos diferentes. Para saber como tratar, eu preciso de dois conjuntos de informação: onde essa doença está — o tamanho, se já se espalhou — e também a biologia do tumor, se ele se alimenta de hormônio feminino, se tem proteínas como o HER2, que está presente em cerca de 20% a 30% dos casos. Quando a gente junta tudo isso, consegue definir o plano de tratamento”, explicou.

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A partir disso, o desafio passa a ser adaptar a terapêutica à gestação, garantindo segurança para mãe e bebê.

Segundo Laura, nem sempre o tratamento precisa ser adiado, pelo contrário. “A gente precisa entender de forma muito clara qual seria o tratamento dessa paciente se ela não estivesse grávida e, a partir disso, fazer adaptações para que ele seja seguro para o bebê. No primeiro trimestre, quando o bebê está sendo formado, a gente evita medicamentos. Se o diagnóstico acontece nesse período, muitas vezes a gente prioriza a cirurgia. Já em outros casos, a quimioterapia pode ser indicada mais adiante, porque hoje existem esquemas com dados sólidos mostrando segurança para gestantes”, afirmou.

“Temos dados de pacientes que, por algum motivo, não fizeram tratamento durante a gestação e os resultados são muito ruins do ponto de vista oncológico. Não tratar pode parecer uma decisão mais segura, mas não é. Em alguns casos, a doença evolui tanto que prejudica a mãe e o bebê. Por isso, é fundamental que as pessoas saibam que existe tratamento seguro e que não se deve postergar nem o diagnóstico nem o início da terapia”, completou.

Apesar dos avanços, há limitações importantes. Terapias hormonais e medicamentos específicos continuam contraindicados durante a gestação. “Os tratamentos de bloqueio hormonal não são feitos durante a gestação, porque atuam diretamente nos hormônios e podem prejudicar a formação do bebê. Os medicamentos anti-HER2 também não são utilizados, porque podem reduzir o líquido amniótico. Além disso, quando surgem tratamentos novos, a gente demora mais para entender se eles são seguros para gestantes, então esse cuidado é sempre mais cauteloso.”

O momento do parto também pode ser impactado pelo tratamento. “Às vezes, a gente precisa interromper o tratamento algumas semanas antes do parto e não dá para esperar a paciente entrar em trabalho de parto naturalmente. Em alguns casos, o parto é induzido ou é feita uma cesárea para evitar que ela fique muito tempo sem tratamento. Sempre que possível, o parto normal é preferível, mas isso depende muito de cada situação”, explicou.

A médica destacou ainda que em sua experiência clínica, mulheres grávidas tendem a demonstrar uma força emocional singular. “Cuidar de pacientes gestantes não é mais fácil, mas é diferente. Elas têm uma motivação muito grande para tratar. É muito bonito de ver. Existe uma vontade muito forte de ficar bem, e isso impacta até na forma como elas enfrentam o tratamento. Na minha experiência, muitas têm menos efeitos colaterais, menos náuseas, menos queda de cabelo. A gente não tem estudos que comprovem isso, mas é uma observação muito marcante.”

Os casos mais difíceis, segundo ela, são aqueles em que o diagnóstico ocorre em estágio avançado. “Quando a gente tem uma doença metastática durante a gestação, o desafio é muito maior. Surge uma angústia na família sobre quem priorizar, mas a nossa missão é cuidar de todas as vidas que estão ali. A decisão final é da paciente, mas a gente precisa dar suporte para mãe e bebê”, afirmou.

Depois do câncer

Outro ponto abordado foi o futuro dessas mulheres após o tratamento. De acordo com a oncologista, o planejamento da fertilidade deve começar antes mesmo do tratamento. Isso porque a quimioterapia pode reduzir as chances de engravidar no futuro. “É fundamental conversar sobre preservação da fertilidade desde o início. Em alguns casos, fazemos a coleta de óvulos antes do tratamento”, disse.

Após o fim da terapia, a gravidez pode ser considerada, respeitando intervalos de segurança e, principalmente, a interrupção de medicamentos que possam afetar o bebê.

A especialista destacou ainda que entender que a história da paciente vai muito além do diagnóstico. “A pessoa não é só o diagnóstico. Ela é mãe, filha, profissional, tem sonhos, medos, planos. Quando a gente pergunta sobre a vida dela, o trabalho, a família, a gente entende quem está ali. Esse é, talvez, o momento mais importante da consulta. Não é só sobre a doença, é sobre cuidar de alguém por inteiro”, afirmou.

O evento segue até este sábado (28/3), com uma programação de palestras e debates sobre diferentes áreas da oncologia.

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postado em 27/03/2026 18:27
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