
Rio de Janeiro - O Ministério da Saúde formalizou a assinatura de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) entre o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD. O objetivo é a produção nacional do pembrolizumabe, um dos medicamentos mais avançados no tratamento oncológico. O acordo foi firmado durante o evento Diálogo Internacional, realizado no Rio de Janeiro, que reuniu representantes de 20 países e instituições brasileiras da área da saúde.
A iniciativa integra uma política pública de cerca de duas décadas voltada à internalização de tecnologias estratégicas para o Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo é reduzir a dependência externa e ampliar a autonomia nacional na produção de medicamentos de alto custo e complexidade. Segundo a secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, Fernanda De Negri, o processo completo de transferência tecnológica deve levar aproximadamente dez anos até que o Butantan domine integralmente a produção da molécula.
No Brasil, a substância já tem mais de 40 indicações aprovadas pela Anvisa, e novas ampliações de uso seguem em análise. No SUS, entretanto, seu uso está atualmente restrito ao melanoma, após recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Ampliação
Com a nova parceria, a expectativa, segundo Rodrigo Cruz, diretor executivo de relações governamentais da MSD, é ampliar o acesso ao medicamento para outros quatro tipos de câncer — esôfago, colo do útero, pulmão e mama triplo negativo.
Apesar de o domínio completo da tecnologia demandar uma década, o governo afirma que os efeitos da parceria serão imediatos. O medicamento já integra o rol do SUS para melanoma, e a previsão é que o Instituto Butantan comece a fornecer o produto ao ministério em poucos meses. Atualmente, o investimento anual no fármaco ultrapassa R$ 400 milhões, beneficiando cerca de 1.700 pacientes em todo o país.
De acordo com Fernanda De Negri, a PDP permitirá que laboratórios públicos passem a produzir moléculas inovadoras ainda inexistentes no Brasil. Além do avanço tecnológico, a expectativa do governo é de redução de custos entre 10% e 20%, além de maior proteção contra oscilações nas cadeias globais de suprimentos, agravadas por conflitos geopolíticos.
Mudança de paradigma
De acordo com a oncologista Márcia Abadi, diretora médica da MSD no Brasil, o pembrolizumabe representa uma mudança de paradigma no tratamento do câncer. A especialista destaca que a imunoterapia atua estimulando o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e combater as células tumorais, diferentemente da quimioterapia tradicional, que também afeta células saudáveis.
Diferente da quimioterapia tradicional, a médica explica que ataca indiscriminadamente células de rápida proliferação, a imunoterapia atua capacitando o sistema de defesa do próprio paciente a reconhecer e combater as células tumorais.
O tratamento, administrado por via intravenosa em ciclos que podem ocorrer a cada três ou seis semanas, foca em impedir que o câncer utilize mecanismos biológicos para se "esconder" dos linfócitos — uma inovação científica que rendeu dois prêmios Nobel ao descobrir como "retirar" o tumor desse esconderijo.
Por ser um método mais direcionado e menos tóxico a células saudáveis, a aplicação evita estigmas de tratamentos agressivos, como a queda de cabelo, embora possa desencadear reações autoimunes em uma pequena parcela dos casos devido ao estímulo ao sistema imunológico.
Rodrigo Cruz, diretor executivo de relações governamentais da MSD, frisa que a parceria é inovadora e reforça o papel do medicamento como um dos mais utilizados globalmente no enfrentamento ao câncer. "Essa parceria vai possibilitar a produção nacional do medicamento mais inovador e mais utilizado no combate enfrentamento ao câncer hoje em dia.", assegura Rodrigo.
Para o Ministério da Saúde, as PDPs são instrumentos centrais para garantir o abastecimento contínuo de medicamentos essenciais, reduzindo riscos de desabastecimento provocados por crises internacionais e assegurando maior eficiência no uso de recursos públicos. De acordo com Fernanda a produção local protege o sistema de saúde. "A questão é que você fica menos vulnerável a esse tipo de coisa, como a guerra, oscilações no fornecimento, na cadeia de fornecimento. Ter capacidade de produzir aqui deixa o paciente brasileiro com mais garantias de que esse medicamento não vai faltar por conta de eventos como esse, como a guerra ou a interrupção de cadeias logísticas."
O anúncio ocorre em meio a uma estratégia mais ampla do governo federal de fortalecimento da chamada “soberania sanitária”. Recentemente, deu início à produção 100% nacional do Tacrolimo, medicamento imunossupressor usado para evitar a rejeição de órgãos transplantados e desenvolvido em parceria entre a farmacêutica Libbs e o Instituto de Tecnologia em Fármacos.
*A repórter viajou a convite da farmacêutica MDS

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