EXPLORAÇÃO ESPACIAL

Após testes, Artemis II embala rumo à Lua

Depois de passar o primeiro dia fazendo experimentos e resolvendo pequenos problemas técnicos, missão tripulada da Nasa se descola da órbita da Terra e parte para circular o satélite terrestre. Nave deve cruzar o lado escuro na segunda-feira

A missão Artemis II, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), que decolou na quarta-feira rumo à Lua, terminou os primeiros testes ainda na órbita terrestre. Após o lançamento, os quatro astronautas passaram o primeiro dia voando ao redor da Terra, realizando inúmeras verificações técnicas e lidando com os primeiros contratempos da viagem. Pouco menos de 14 horas após a decolagem, a tripulação efetuou sem problemas o chamado 'apogee raise burn', uma ignição dos motores para ganhar impulso e aumentar a altitude, às 9h de ontem em Brasília.

Essa ignição afastou os astronautas ainda mais da Terra, preparando a equipe para o próximo grande passo. Por volta das 20h30 de ontem, cerca de 25 horas depois da partida do Cabo Canaveral, na Flórida, eles acionaram os motores para, de fato, partirem em direção à Lua. Uma vez que a manobra foi iniciada, não há mais volta. Para retornar à Terra, deverão contornar o satélite, o que está previsto para segunda-feira.

Alguns imprevistos técnicos ocuparam o centro de controle da Nasa em Houston durante as primeiras horas do voo. A comunicação com os astronautas foi brevemente interrompida, os banheiros não funcionaram de imediato e a temperatura na cápsula também parecia muito fria no início.

No entanto, uma manobra em órbita, durante a qual Victor Glover assumiu os controles da Orion para simular um acoplamento com outra nave, transcorreu perfeitamente. Esse era um dos testes mais aguardados, por ser algo fundamental para o desejado retorno à superfície lunar, previsto para 2028, que exigirá acoplamento e desacoplamentos perfeitos do módulo que efetivamente pousará na Lua com os astronautas.

Alívio após lançamento

O presidente norte-americano, Donald Trump, parabenizou "os corajosos astronautas" e a equipe da Nasa pelo "lançamento bem-sucedido" no início de seu discurso à nação, dedicado à guerra no Oriente Médio.

O foguete Space Launch System (SLS) decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Poucos minutos depois, o comandante americano da missão, Reid Wiseman, exclamou: "Temos uma bela ascensão da Lua". Dez minutos antes, o astronauta canadense Jeremy Hansen afirmou que a equipe estava partindo "em nome de toda a humanidade"

A equipe de astronautas, que, pela primeira vez, inclui um estrangeiro, uma mulher e um negro, partiu da histórica plataforma de lançamento de onde decolaram os tripulantes da Apollo, na primeira viagem à Lua. Na quarta-feira, a cápsula Orion se separou como previsto oito minutos após a decolagem do primeiro estágio do foguete que a impulsionou ao espaço e, em seguida, entrou em órbita terrestre. No Centro Espacial Kennedy, comemoração e alívio se misturaram.

O programa Artemis já custou dezenas de bilhões de dólares e acumula anos de atraso."A Nasa realmente precisa que isso dê certo", disse à AFP Casey Dreier, da The Planetary Society, lembrando que o moral dentro da agência está em baixa devido a problemas orçamentários e a saídas em massa, especialmente de pesquisadores que trabalham com o clima.

Pressão chinesa

Conforme Naelton Araújo, astrônomo do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, normalmente, a maioria dos incidentes catastróficos acontecem no lançamento. "Como foi tudo certo, a missão tem boa chance de ir muito bem. Os testes tripulados da nave Órion prometem a validação dela para as missões mais audaciosas que ainda vão compor o projeto Artemis. Se algo der muito errado agora, um pouso e a criação de uma base lunar estariam adiados e até ameaçados de cancelamento. Essa deve ser a missão que marca a volta ativa dos EUA à corrida espacial. Diante da pressão do programa chinês em pleno desenvolvimento foi preciso dar esse passo: voltar à Lua."

Os astronautas devem bater o recorde da tripulação que mais se afastou da Terra na próxima segunda-feira.

A missão tem como objetivo confirmar que este modelo de foguete de 98 metros de altura, não reutilizável, poderá transportar astronautas à superfície lunar até 2028, antes do fim do mandato de Trump.

"Artemis II é o primeiro ato, é a missão de teste, vai preparar o terreno para as missões seguintes", explicou Isaacman. Todavia, a data de 2028 suscita dúvidas, segundo especialistas, visto que os astronautas precisarão de um módulo de pouso na Lua que ainda está em desenvolvimento pelas empresas dos bilionários Elon Musk (SpaceX) e Jeff Bezos (Blue Origin).

Helio Jaques Rocha Pinto, astrônomo e presidente da Sociedade Brasileira de Astronomia, aponta para uma curiosidade sobre a nomenclatura da missão. "Artemis é a deusa grega irmã gêmea de Apollo, nome dado à primeira missão. Ela tem um objetivo que se assemelha ao da Apollo 8, que foi a primeira a sobrevoar a Lua."

 

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Nova corrida espacial

"O voo espacial envolve um custo muito alto, além do risco à tripulação. Por isso, várias etapas precisam ser exaustivamente testadas antes que passos maiores sejam dados. A Artemis II concretiza uma dessas etapas fundamentais. Ela leva o ser humano à órbita lunar, após décadas. O investimento realizado não se limitará a isso. Há um objetivo maior, que é a exploração de minérios lunares. Podemos estar seguros de que novas missões avançarão nessa direção, inicialmente com o pouso na Lua, depois com o estabelecimento de um pequeno posto que pode evoluir para uma base lunar. Contudo, o tempo total para isso ocorrer pode levar mais de 10 anos. Há uma nova corrida espacial, porém em circunstâncias muito diversas. O orçamento da Nasa não é como o da década de 1960; os EUA tentam compensar isso por meio de parcerias privadas. Até que ponto essas empresas arriscariam seus orçamentos? Já pelo lado da China, que investe na exploração robótica, há um orçamento consistente. No entanto, será que eles irão acelerar seu programa por conta da Artemis II? Me parece improvável, pois os chineses trabalham num ritmo diferente, construindo uma estrutura que dura, e não respondendo com pressa às novas mudanças."

Helio Jaques Rocha Pinto, astrônomo e presidente da Sociedade Brasileira de Astronomia

Cronograma da missão

Dia de voo 3 (hoje)
Correção de trajetória de saída (ignição após o almoço)
Treino de manobras de ressuscitação cardiopulmonar (RCP) no espaço
Verificação de equipamentos médicos
Teste do sistema de comunicação de emergência
Ensaio das observações científicas previstas para o dia 6

Dia de voo 4 (sábado)
Segunda correção de trajetória de saída
Revisão dos alvos geográficos para fotografia lunar (1h por astronauta)
Sessão dedicada de fotografia de corpos celestes (20 min)

Dia de voo 5 (domingo)
Entrada na esfera de influência da Lua
Testes completos dos trajes espaciais (manhã)
Correção final da trajetória antes da aproximação lunar (tarde)


Dia de voo 6 (segunda)
Aproximação máxima da Lua
Registro de fotos, vídeos e observações científicas
Observação do lado oculto da Lua
Período sem comunicação com a Terra (30–50 min)

Dia de voo 7 (terça)
Saída da esfera de influência lunar
Conversa com cientistas na Terra
Primeira correção da trajetória de retorno
Período de descanso da tripulação

Dia de voo 8 (quarta)
Teste de proteção contra radiação (construção de abrigo)
Experimentos de radiação
Teste de pilotagem manual da Orion

Dia de voo 9 (quinta)
Preparação para reentrada e pouso
Correção de trajetória de retorno
Testes de sistemas de resíduos
Avaliação de roupas contra intolerância ortostática

Dia de voo 10 (sexta)
Correção final de trajetória
Preparação da cabine e vestimenta dos trajes
Separação do módulo de serviço
Reentrada na atmosfera
Abertura dos paraquedas
Pouso no oceano e resgate

Fonte: Nasa