A corrida global por tratamentos contra a obesidade ganhou um novo capítulo na quarta-feira (1º/4), quando a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, autorizou o uso de um medicamento oral desenvolvido pela Eli Lilly, mesma farmacêutica responsável pelo Mounjaro. A decisão marca a chegada de uma alternativa cuja proposta aposta menos na potência máxima e mais na praticidade do dia a dia.
Batizado de Foundayo, nome comercial do orforglipron, o remédio é indicado para adultos com obesidade ou sobrepeso associado a outras condições de saúde, sempre em combinação com dieta e atividade física. Trata-se de um fármaco de GLP-1, classe de medicamentos que imita um hormônio intestinal ligado ao controle do apetite, da saciedade e do metabolismo — mecanismo que, na prática, reduz a fome e contribui para a perda de peso ao longo do tempo.
Nos ensaios clínicos, os resultados mostraram reduções entre cerca de 11% e 15% do peso corporal em pouco mais de um ano. Em um estudo de fase avançada, com duração de 72 semanas, participantes com sobrepeso perderam aproximadamente 12% do peso, enquanto um ensaio anterior, de 36 semanas, apontou queda próxima de 15%.
Apesar da eficácia comparável à de outros medicamentos da mesma classe, o que projetou o Foundayo internacionalmente foi outro fator: a forma de uso. Diferentemente das terapias mais populares, geralmente aplicadas por injeção, o novo tratamento é um comprimido de uso diário que pode ser ingerido a qualquer hora, com ou sem alimento. A ausência de restrições, comuns em outros medicamentos orais, reduz barreiras práticas e pode influenciar diretamente a adesão dos pacientes.
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A Eli Lilly informou que iniciará as vendas já nesta segunda-feira (6/4), por meio do programa LillyDirect, ao custo de US$ 149 (cerca de R$ 780) por mês na dose mais baixa para pacientes que pagam do próprio bolso, valor alinhado ao da pílula concorrente da Novo Nordisk. Em um segundo momento, a distribuição será ampliada para farmácias e serviços de telemedicina nos Estados Unidos. Ainda não há previsão de avaliação pela Anvisa nem de comercialização no Brasil.
A aprovação foi acelerada por um novo programa de vouchers da FDA, voltado a medicamentos considerados estratégicos para a saúde pública. Segundo o comissário da agência, Marty Makary, isso não comprometeu o rigor da análise. “O que estamos fazendo é reunir as diferentes pessoas na agência que analisam partes da solicitação”, disse à imprensa internacional.
Indústria dos remédios contra obesidade
A medida recoloca a Eli Lilly em confronto direto com a dinamarquesa Novo Nordisk, pioneira nos tratamentos com GLP-1, como Ozempic (para diabetes) e Wegovy (para obesidade). Embora a Novo tenha saído na frente, a Lilly atualmente lidera o mercado nos Estados Unidos. No mercado financeiro, o impacto foi imediato: as ações da Lilly subiram 6%, enquanto os papéis da Novo negociados nos EUA registraram leve queda após o anúncio.
Além da praticidade, há diferenças estruturais importantes entre o Foundayo e o Mounjaro (tirzepatida). Enquanto o novo comprimido atua apenas no receptor de GLP-1, o Mounjaro é um agonista duplo, com ação também sobre o hormônio GIP. Essa atuação combinada amplia os efeitos metabólicos e ajuda a explicar por que medicamentos como o Mounjaro costumam apresentar, em média, maior perda de peso.
A distinção aparece também na forma de administração: o Foundayo é tomado diariamente, em comprimido, enquanto o Mounjaro é aplicado por injeção semanal. Assim, um prioriza conveniência e flexibilidade; o outro, maior potência terapêutica. Há ainda uma diferença na própria composição: o orforglipron é uma pequena molécula, o que facilita sua produção, armazenamento e distribuição. Já o Mounjaro é um medicamento biológico, mais complexo nesses aspectos.
Como outros tratamentos da mesma classe, o Foundayo pode causar efeitos colaterais gastrointestinais, como náusea, vômito e diarreia. A bula também traz um alerta em destaque sobre risco aumentado de tumores de células C da tireoide em casos específicos, advertência que também aparece nos produtos da Novo Nordisk.
O avanço das opções orais é visto pelo mercado como uma nova frente de expansão. Segundo Jamey Millar, executivo de operações da Novo Nordisk nos Estados Unidos, a maioria dos pacientes que utilizam versões orais de medicamentos como o Wegovy está tendo o primeiro contato com terapias baseadas em GLP-1, o que indica potencial para atingir um público que não aderiu às injeções.
Millar afirma que não houve dificuldade relevante no seguimento das orientações de uso das pílulas e que fatores como custo e efeitos colaterais pesam mais na decisão dos pacientes do que a forma de administração. Segundo a mídia norte-americana, analistas não esperam que os comprimidos substituam completamente os injetáveis, que tendem a proporcionar maior perda de peso, mas projetam que as versões orais possam representar cerca de 20% do mercado até 2030.
Nesse cenário, o Foundayo surge menos como uma revolução em potência e mais como uma mudança de paradigma: tornar o tratamento contra a obesidade mais simples, acessível e compatível com a rotina.
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