comportamento animal

Cupins mantêm relações entre indivíduos do mesmo sexo, diz estudo

Pesquisa com Reticulitermes chinensis revela que interações homoafetivas são frequentes, organizadas e ocorrem mesmo com parceiros do sexo oposto disponíveis

A diversidade de comportamentos sexuais no reino animal tem levado pesquisadores a revisar explicações tradicionais baseadas apenas em reprodução e sobrevivência. Em diferentes espécies, interações entre indivíduos do mesmo sexo já foram registradas com funções sociais, adaptativas ou ainda não totalmente compreendidas. Nesse contexto, um estudo recente com cupins ampliou esse debate ao mostrar que tais condutas podem ser mais estruturadas e recorrentes do que se supunha.

Interações sexuais entre cupins do mesmo sexo fazem parte de um padrão comportamental estruturado, e não de um desvio ocasional. Em testes controlados com Reticulitermes chinensis, cientistas observaram que essas relações surgem com regularidade e continuam acontecendo mesmo quando há parceiros do sexo oposto disponíveis, o que contraria explicações tradicionais baseadas em estresse ambiental ou escassez de opções.

O fenômeno se torna evidente já na etapa inicial de formação de pares, conhecida como corrida em tandem. Nesse momento, duplas macho-macho e fêmea-fêmea aparecem com maior frequência do que casais heterossexuais. Embora essas formações durem menos tempo, elas não são instáveis: os indivíduos mantêm coordenação precisa e interação contínua, o que indica organização funcional, e não comportamento aleatório.

A pesquisa destaca ainda a flexibilidade dos papéis desempenhados pelos insetos. Para que o deslocamento conjunto funcione, os cupins ajustam suas funções: em pares formados por dois machos, um assume a liderança (posição normalmente associada às fêmeas), enquanto em pares de duas fêmeas, uma passa a atuar como seguidora, papel típico dos machos. Essa inversão garante que o movimento em tandem se mantenha eficiente.

Os registros de movimento mostram que essa dinâmica segue um padrão bem definido. Quando há separação acidental, o indivíduo que liderava interrompe o trajeto, enquanto o outro inicia uma busca ativa. A resposta é praticamente idêntica à observada em pares heterossexuais, o que reforça a ideia de que o comportamento segue uma lógica comum entre diferentes formações.

Além da formação de pares, os pesquisadores também documentaram acasalamento entre indivíduos do mesmo sexo. O padrão físico dessas interações replica o observado em casais heterossexuais: alinhamento das extremidades abdominais e contato mantido por mais de 10 segundos. Em ciclos de observação de 12 horas, pares fêmea-fêmea chegaram a apresentar frequência de cópula superior à dos pares heterossexuais.

Mesmo em grupos com cinco machos e cinco fêmeas, cuja escolha é ampla, as interações entre indivíduos do mesmo sexo continuam ocorrendo. Embora os cruzamentos heterossexuais ainda predominem, as relações homoafetivas mantêm presença relevante tanto em número quanto em duração.

O conjunto das evidências aponta para um comportamento ativo e consistente. A semelhança no tempo de interação sexual entre diferentes tipos de pares e a repetição dos padrões observados indicam que essas interações não são fruto de acaso ou limitação ambiental, mas parte integrante do repertório comportamental da espécie.

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