ESTUDO

Lagostas sentem dor? Ciência aponta resposta que pode mudar a culinária

Ao testar reações a choques e o efeito de analgésico, pesquisa levanta debates sobre o manejo e a prática de cozinhar os animais ainda vivos

Um estudo publicado pela revista Scientific Reports colocou em debate uma das práticas mais comuns da culinária: cozinhar lagostas vivas. Os pesquisadores concluíram que os crustáceos sentem algo parecido com dor e descartaram a ideia dos estímulos automáticos, como reflexo. 

Cientistas da Universidade de Gotemburgo, Suécia, utilizaram 105 lagostas machos, submetidas a choques elétricos de baixa voltagem para monitorar suas reações fisiológicas e comportamentais. O principal indicador de estresse e dor observado foi a flexão rápida da cauda, resposta de fuga instintiva que ocorreu cerca de 10 vezes em 10 segundos nos animais chocados, mas que esteve ausente nos grupos de controle.

A grande sacada do estudo para descobrir se as reações eram estímulos de reflexo ou se os crustáceos sentem dor, foi utilizar dois medicamentos que utilizados por seres humanos. O anestésico local, lidocaína mostrou-se mais promissor, por não apresentar efeitos colaterais significativos nas doses testadas.

Já a injeção de aspirina, apesar de reduzir a dor, causou um aumento imediato no comportamento e elevou os níveis de lactato na hemolinfa, indicando um possivel estresse causado pela injeção ou pela própria substância.

Além do comportamento, a análise molecular mostrou que a aspirina causou a redução da expressão de genes receptores de GABA, um neurotransmissor inibitório, nos gânglios nervosos, o que pode refletir uma perturbação na atividade neuronal normal do animal.

Ambos os medicamentos foram eficazes, reduzindo o número de flexões de cauda para quase zero, indicando que as reações não são apenas reflexos. Essa modulação farmacológica é um critério crucial para definir a dor em animais, pois sugere que a resposta é mediada por vias nociceptivas.

Apesar da sensibilidade à dor ser considerada uma característica do grupo de lagosta-da-noruega, os pesquisadores alertam que os remédios podem ter efeitos diferentes dependendo da espécie. Por isso, eles recomendam que estudos futuros testem essas substâncias em outros crustáceos para garantir a segurança e a eficácia de cada tratamento.

A pesquisa surge em um momento de mudança global na percepção sobre invertebrados. Países como o Reino Unido já reconhecem os crustáceos decápodes como seres sencientes, enquanto Áustria, Noruega e Suíça proibiram a prática de ferver lagostas vivas.

Os autores do estudo destacam que os resultados fornecem uma base científica para a implementação de estratégias de bem-estar animal em protocolos de pesquisa, aquicultura e pesca. "Essas descobertas apoiam considerações de bem-estar em protocolos experimentais potencialmente prejudiciais", conclui a pesquisa, enfatizando a responsabilidade ética no manejo dessas espécies.

*Estagiária sob supervisão de Paulo Leite

 

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