
Um sistema robótico desenvolvido por pesquisadores da Universidade Northwestern e do Shirley Ryan AbilityLab pode abrir novas perspectivas para a reabilitação de pessoas que sofreram Acidente Vascular Cerebral (AVC). A tecnologia conecta, em tempo real, os movimentos do fisioterapeuta e do paciente por meio de exoesqueletos acoplados às pernas, permitindo que a condução da caminhada seja feita de forma compartilhada durante as sessões.
Os resultados do estudo, divulgados nesta quarta-feira (18/6) na revista Science Robotics, indicam melhora em diferentes aspectos da marcha quando comparados às técnicas tradicionais de fisioterapia.
Batizado de TEPI, sigla em inglês para "interação terapeuta-exoesqueleto-paciente", o sistema utiliza dois exoesqueletos sincronizados por um software. Um deles é vestido pelo profissional de saúde e o outro pelo paciente. A plataforma estabelece uma ligação virtual entre os movimentos dos quadris e joelhos dos dois usuários, fazendo com que a ação executada pelo fisioterapeuta seja transmitida ao paciente por meio de estímulos mecânicos.
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Além de auxiliar a movimentação, a tecnologia também oferece retorno tátil ao profissional, que consegue perceber, instantaneamente, como o paciente está se movendo. Dessa forma, é possível ajustar a intensidade da assistência e realizar correções ao longo da sessão. A proposta difere dos exoesqueletos convencionais, que normalmente seguem trajetórias programadas previamente e operam com menor capacidade de adaptação às necessidades individuais.
A recuperação da capacidade de caminhar costuma estar entre os maiores desafios enfrentados por pessoas que sofreram AVC. Dependendo do grau das sequelas, o processo de reabilitação exige correções frequentes de postura, equilíbrio, velocidade e amplitude de movimentos. Em situações mais complexas, a terapia pode demandar a atuação simultânea de mais de um profissional para auxiliar a sustentação do corpo e orientar a marcha.
Embora os exoesqueletos já sejam utilizados em programas de reabilitação, a principal inovação do novo sistema está na forma como a experiência motora do fisioterapeuta é compartilhada com o paciente. O equipamento permite que ambos recebam informações táteis continuamente, favorecendo ajustes mais precisos durante a caminhada e aproximando os movimentos executados pelo paciente daqueles demonstrados pelo profissional.
O estudo que avaliou a tecnologia contou com a participação de 8 pessoas com sequelas crônicas de AVC. Cada uma delas realizou duas modalidades de treinamento em dias distintos: uma utilizando o sistema robótico e outra baseada na fisioterapia convencional, com correções manuais do terapeuta durante a caminhada em esteira. As sessões tiveram duração de 30 minutos.
Limitações de escala e efeitos a longo prazo
Os próprios autores do estudo ressaltam que as conclusões atuais devem ser interpretadas com cautela, uma vez que a pesquisa envolveu um grupo pequeno e focou nos efeitos imediatos ocorridos dentro das sessões de treinamento. Segundo o artigo, o estudo não foi desenhado para determinar se a tecnologia é capaz de acelerar a recuperação funcional do paciente no longo prazo ou se as melhorias na caminhada persistem após o fim do tratamento.
Para os cientistas, a confirmação de uma recuperação neurológica definitiva ainda depende de estudos futuros com grupos maiores e acompanhamento prolongado.
Barreiras de custo e treinamento profissional
Outro desafio central para a aplicação prática do sistema é o seu alto custo e a complexidade operacional. Para funcionar, a metodologia exige o uso de dois exoesqueletos simultâneos, equipamentos que ainda são caros para a realidade da maioria das clínicas.
Além disso, o estudo aponta que a adoção em larga escala depende da formação de profissionais qualificados para operar o sistema, o que gera custos indiretos de treinamento e competência técnica.
Os pesquisadores acreditam que a popularização da técnica só ocorrerá quando os preços do hardware diminuírem e as interfaces entre o robô e o terapeuta forem simplificadas.
Restrições técnicas e de movimento
A tecnologia também apresenta limitações mecânicas: o modelo testado atua apenas nas articulações do quadril e do joelho, deixando de fora o tornozelo e o suporte para o equilíbrio lateral.
Além disso, por questões de segurança, os testes foram realizados em uma velocidade de caminhada reduzida (0,2 m/s), inferior ao ritmo que os pacientes costumam atingir sozinhos no dia a dia.
Os autores indicam que futuras versões do sistema precisarão ser testadas em velocidades maiores e em atividades cotidianas mais complexas, como subir escadas ou caminhar em terrenos irregulares, para que sua eficácia clínica seja plenamente validada.

Ciência e Saúde
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