VACINA

Vacina contra o câncer: como funciona e o que já se sabe?

Tecnologia de mRNA ensina o sistema imunológico a reconhecer células tumorais e já apresentou resultados positivos em melanoma, mas ainda está em fase de estudos e não substitui os tratamentos tradicionais

A proposta é usar o próprio sistema imunológico do paciente para encontrar e destruir células tumorais. -  (crédito: Fernando Frazão/Agencia Brasil)
A proposta é usar o próprio sistema imunológico do paciente para encontrar e destruir células tumorais. - (crédito: Fernando Frazão/Agencia Brasil)

A ideia de uma vacina capaz de combater o câncer deixou de ser apenas uma promessa distante da ciência. Em agosto de 2026, uma vacina de mRNA personalizada contra o melanoma apresentou resultado positivo em um estudo de Fase 3, considerado um marco no desenvolvimento desse tipo de tratamento. Apesar do avanço, a tecnologia ainda não está disponível para a população e não significa que exista, neste momento, uma vacina capaz de prevenir ou curar todos os tipos de câncer.

Diferentemente das vacinas tradicionais, usadas principalmente para preparar o organismo contra vírus e bactérias antes que uma infecção aconteça, as vacinas de mRNA contra o câncer têm, em sua maioria, função terapêutica. Ou seja: são desenvolvidas para pessoas que já tiveram ou têm a doença.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A proposta é usar o próprio sistema imunológico do paciente para encontrar e destruir células tumorais. Para isso, a tecnologia fornece ao organismo instruções capazes de identificar características específicas daquele câncer.

Segundo Rafael Amaral de Castro, oncologista clínico do Hospital Santa Lúcia (HSL), o funcionamento pode ser comparado a entregar ao sistema imunológico uma imagem precisa do inimigo. "Na prática, é como dar ao sistema imune uma 'foto' precisa do inimigo para que ele o encontre e o ataque."

Como funciona a vacina contra o câncer?

O princípio envolve o chamado mRNA, uma molécula que carrega instruções genéticas. No caso das vacinas contra o câncer, essas instruções são utilizadas para ensinar o sistema imunológico a reconhecer determinadas características das células tumorais.

Nas vacinas personalizadas, primeiro é necessário analisar o tumor do paciente. Uma amostra, geralmente retirada durante uma cirurgia, passa por um sequenciamento genético. Com a ajuda de algoritmos, os pesquisadores identificam mutações presentes nas células cancerígenas que podem provocar uma resposta do sistema imunológico.

Essas alterações são chamadas de neoantígenos. São proteínas anormais produzidas pelo tumor e que podem funcionar como verdadeiras "bandeiras de perigo".

A partir dessas informações, é produzida uma vacina de mRNA contendo instruções para que as células apresentadoras de antígeno mostrem esses alvos ao sistema imunológico. Com isso, os linfócitos T citotóxicos, células de defesa capazes de destruir outras células, passam a procurar e eliminar aquelas que carregam os neoantígenos identificados.

A lógica é fazer com que o organismo consiga diferenciar as células cancerígenas das saudáveis. "O mRNA da vacina ensina o sistema imune a reconhecer essas bandeiras específicas, e os linfócitos T passam a identificar e destruir as células que as exibem, poupando as células saudáveis, que não carregam essas mutações", explica Rafael. 

É uma vacina para prevenir o câncer?

Não, pelo menos não no caso das tecnologias mais avançadas atualmente. A maior parte das vacinas de mRNA contra o câncer em desenvolvimento tem função terapêutica e é destinada a pacientes que já receberam diagnóstico. O cenário em que os resultados são mais promissores é depois da retirada completa do tumor por cirurgia, quando a vacina é utilizada para diminuir o risco de a doença voltar.

Existe uma exceção em desenvolvimento: a LungVax, da Universidade de Oxford, que busca prevenir o câncer de pulmão em pessoas consideradas de alto risco. A pesquisa, porém, ainda está em estágio inicial e não apresentou dados de eficácia.

Por isso, quando se fala atualmente em "vacina contra o câncer", não se trata de uma vacina que uma pessoa saudável possa tomar para impedir o surgimento de qualquer tumor.

A vacina precisa ser feita para cada paciente?

Na maioria dos casos, sim. Isso acontece porque cada câncer apresenta alterações genéticas próprias. Nas vacinas individualizadas, o tumor do paciente é sequenciado para identificar quais mutações podem ser utilizadas como alvos do sistema imunológico.

Depois dessa análise, a vacina é fabricada especificamente para aquela pessoa. O processo começa com a retirada da amostra do tumor, segue para o sequenciamento genético e a identificação dos neoantígenos e termina com a produção do mRNA que será administrado ao paciente.

De acordo com Castro, todo esse processo pode levar aproximadamente seis semanas. A vacina é então aplicada em doses repetidas. É justamente essa característica que representa um dos desafios da tecnologia: fabricar um tratamento diferente para cada paciente é um processo complexo, caro e difícil de ampliar para grandes populações.

Também existem vacinas chamadas "off-the-shelf", que não são personalizadas. Elas utilizam antígenos encontrados em diferentes tumores e, portanto, podem ser produzidas sem a necessidade de criar uma fórmula específica para cada pessoa. A BNT116, estudada para o câncer de pulmão, é um exemplo dessa estratégia.

Contra quais tipos de câncer ela pode funcionar?

O desenvolvimento está mais avançado no melanoma. O estudo de Fase 3 INTerpath-001, da Merck e da Moderna, apresentou resultado positivo e atingiu os dois principais objetivos relacionados à sobrevida livre de recorrência e à sobrevida livre de metástase à distância.

O resultado é considerado histórico porque representa o primeiro estudo de Fase 3 positivo para uma vacina de neoantígeno individualizada.

Também existem pesquisas em outros tumores. No câncer de pulmão, a vacina BNT116, da BioNTech, ainda está em fases iniciais. Há ainda estudos envolvendo câncer de pâncreas, com a autogene cevumeran, e câncer colorretal.

Isso não significa, porém, que exista uma vacina capaz de combater todos os tipos de câncer. "Não existe hoje uma vacina universal. As vacinas de neoantígeno são específicas de cada tumor e de cada paciente."

A plataforma de mRNA, por outro lado, é considerada adaptável e pode permitir o desenvolvimento de estratégias para diferentes tipos de tumores.

A vacina substitui quimioterapia, radioterapia ou cirurgia?

A resposta é não. Esse é um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos diante dos avanços recentes. As vacinas de mRNA não substituem, atualmente, cirurgia, quimioterapia ou radioterapia.

Nos estudos mais avançados, a estratégia é utilizada como terapia adjuvante, ou seja, depois que o tumor foi retirado por cirurgia. O objetivo é combater possíveis células tumorais que ainda possam permanecer no organismo e reduzir o risco de recorrência.

A vacina funciona, portanto, como uma camada adicional de tratamento."A vacina não substitui a cirurgia, a quimioterapia ou a radioterapia. É uma camada adicional de proteção, não um substituto dos tratamentos estabelecidos", afirma o oncologista. 

Por que a vacina é combinada com imunoterapia?

Os estudos mais avançados também utilizam a vacina em combinação com medicamentos de imunoterapia, principalmente os chamados anti-PD-1, como pembrolizumabe e cemiplimabe.

A estratégia parte de uma lógica complementar. A vacina ajuda o sistema imunológico a identificar quais células deve atacar. Já os medicamentos anti-PD-1 atuam retirando um dos mecanismos que os tumores utilizam para dificultar a ação das células de defesa. "A vacina direciona o sistema imune para os alvos do tumor, enquanto o anti-PD-1 remove um dos 'freios' que o tumor usa para se esconder da imunidade", reforça o médico. 

Essa combinação apresentou os resultados mais promissores até o momento.

O que os estudos já mostraram?

No melanoma, um dos resultados mais importantes veio do estudo de Fase 2b KEYNOTE-942. Após três anos de acompanhamento, a combinação da vacina com pembrolizumabe apresentou uma redução de aproximadamente 49% no risco de recorrência ou morte, em comparação com o pembrolizumabe isolado.

O risco de desenvolvimento de metástase à distância também foi reduzido em aproximadamente 62%.

Em agosto de 2026, o estudo de Fase 3 INTerpath-001 confirmou o benefício da estratégia ao atingir os dois desfechos principais: sobrevida livre de recorrência e sobrevida livre de metástase à distância. Os números exatos, entretanto, ainda não haviam sido divulgados porque o anúncio inicial apresentou apenas os chamados resultados de topo, ou "topline".

Em outros tipos de câncer, os resultados ainda são mais preliminares.

No câncer de pulmão, por exemplo, os dados da BNT116 indicam segurança e atividade inicial, mas ainda não existem resultados definitivos de sobrevida.

Já existem pessoas recebendo essas vacinas?

Sim, mas dentro de ensaios clínicos. Pacientes em países como Reino Unido, Estados Unidos e outras partes da Europa já participam de pesquisas com essas tecnologias.

Um exemplo é a BNT116, contra o câncer de pulmão. O primeiro paciente do mundo a receber essa vacina foi tratado em agosto de 2024, no University College London Hospital, em Londres.

É importante destacar, porém, que nenhuma vacina de mRNA contra o câncer está aprovada e comercializada em nenhum país neste momento. Os pacientes que recebem essas vacinas estão participando de estudos experimentais.

Quais são os efeitos colaterais?

O perfil de segurança observado até agora é, em geral, semelhante ao de outras vacinas de mRNA.

Entre as reações relatadas estão:

  • fadiga;
  • febre;
  • calafrios;
  • dor no local da aplicação;
  • dor muscular.

Eventos graves são considerados raros, mas podem acontecer. Por isso, os participantes dos estudos são acompanhados de perto. Em uma pesquisa com a vacina contra o câncer de pâncreas, por exemplo, foi registrado apenas um evento de grau 3 entre os participantes.

Ainda assim, por ser uma tecnologia relativamente nova, os efeitos de longo prazo ainda não são completamente conhecidos.

A vacina pode curar o câncer?

O médico oncologista explica que ainda não é correto falar em cura. "A palavra 'cura' deve ser evitada, porque não há dados que sustentem essa afirmação", destaca. 

Os dados mais fortes atualmente indicam redução significativa do risco de a doença voltar em pacientes com melanoma de alto risco que tiveram o tumor retirado cirurgicamente.

O cenário é diferente quando se trata de câncer avançado ou metastático. Nesses casos, ainda não há evidências suficientes para afirmar que a vacina consiga controlar ou eliminar a doença.

A cautela é importante porque resultados positivos em determinados grupos de pacientes não significam que a tecnologia funcione da mesma maneira em todos os tipos e estágios de câncer.

Por que é tão difícil criar uma vacina contra o câncer?

O principal desafio está na própria natureza da doença. Enquanto uma vacina contra um vírus pode ser desenvolvida para reconhecer um agente relativamente definido, o câncer não é uma única doença. Cada tumor pode apresentar alterações genéticas diferentes e, além disso, as próprias células cancerígenas podem mudar ao longo do tempo.

Os tumores também desenvolveram diferentes formas de escapar do sistema imunológico. Entre elas estão a perda dos antígenos que a vacina ensinou o organismo a reconhecer, a redução da apresentação desses antígenos na superfície celular e a criação de um ambiente que dificulta a ação das células de defesa.

Além disso, o tumor pode aumentar a expressão de PD-L1 e recrutar células capazes de enfraquecer a resposta imunológica. É por isso que a combinação com medicamentos anti-PD-1 é tão importante nos estudos atuais.

O câncer pode escapar da vacina?

Sim. E essa é considerada uma das principais limitações da tecnologia. Mesmo que a vacina ensine o sistema imunológico a reconhecer determinados alvos, o tumor pode sofrer novas alterações e deixar de apresentar essas características.

Também pode reduzir moléculas responsáveis por apresentar os antígenos às células de defesa ou criar um microambiente capaz de desativar a resposta dos linfócitos T. Esse mecanismo de "fuga" ajuda a explicar por que uma vacina não é, por si só, garantia de que o câncer será eliminado.

Quando a vacina poderá chegar à população?

Mesmo diante do resultado positivo no melanoma, a chegada dessa tecnologia aos pacientes fora de estudos clínicos ainda pode levar anos.

A estimativa apontada pelo oncologista é de cinco a dez anos, considerando o caminho necessário para publicação completa dos resultados, análise pelas autoridades regulatórias e realização de estudos adicionais.

Agências como FDA, nos Estados Unidos, EMA, na União Europeia, e Anvisa, no Brasil, ainda precisam avaliar as evidências antes de uma eventual aprovação.

Além disso, diferentes tipos de câncer precisarão passar por seus próprios estudos clínicos. No caso do câncer de pulmão, por exemplo, as pesquisas ainda estão em fases mais iniciais, o que pode tornar o processo ainda mais longo.

A vacina poderá ser oferecida pelo SUS?

Existe no Brasil um caminho legal para priorizar o desenvolvimento e a eventual incorporação de vacinas contra o câncer e outros tratamentos inovadores.

Em abril de 2026, foi sancionada uma lei que estabelece prioridade para essas tecnologias no Sistema Único de Saúde, com financiamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Isso, porém, não significa que a vacina já esteja disponível no SUS, reforça o oncologista.

Antes disso, seria necessário que a tecnologia fosse aprovada pela Anvisa, passasse por avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) e tivesse sua produção ou compra organizada pelo Ministério da Saúde.

Ou seja, a legislação cria uma prioridade e um caminho para a tecnologia, mas não representa uma oferta imediata à população.

Quem já teve câncer poderá tomar a vacina para evitar que a doença volte?

Esse é justamente um dos principais objetivos das vacinas personalizadas que estão mais avançadas. No melanoma, os estudos avaliam a utilização da vacina depois da retirada completa do tumor, com o objetivo de diminuir a possibilidade de recorrência.

Nesse cenário, a tecnologia tenta fazer com que o sistema imunológico permaneça preparado para reconhecer células tumorais que eventualmente tenham permanecido no organismo. É também nesse contexto que os benefícios estão mais comprovados até agora.

Uma pessoa saudável poderá tomar a vacina para não ter câncer?

Hoje, não. As vacinas terapêuticas contra o câncer não foram desenvolvidas para serem aplicadas de forma preventiva na população saudável.

A LungVax, de Oxford, é uma das exceções em pesquisa e busca prevenir especificamente o câncer de pulmão em pessoas de alto risco. O estudo, entretanto, ainda está em fase inicial e não possui dados de eficácia que permitam sua utilização.

Portanto, não existe atualmente uma vacina de mRNA que uma pessoa saudável possa tomar para se proteger de todos os tipos de câncer.

 

 

Um avanço importante, mas ainda longe de uma vacina universal

Os resultados recentes mudam o estágio de desenvolvimento das vacinas contra o câncer, principalmente no melanoma. Pela primeira vez, uma vacina de neoantígeno individualizada chegou a um estudo de Fase 3 com resultado positivo, aumentando a expectativa sobre o potencial da tecnologia.

Mas o avanço não significa que o câncer tenha ganhado uma vacina capaz de impedir a doença ou curá-la. Hoje, a tecnologia mais promissora é voltada principalmente para pacientes que já passaram pela cirurgia e precisam reduzir o risco de a doença retornar. Ela ainda está em pesquisa, não substitui os tratamentos tradicionais e precisa superar desafios como o escape das células tumorais, o custo e a complexidade da fabricação.

Para o oncologista Rafael Amaral de Castro, o momento é de avanço científico, mas também de cautela. "A principal limitação é a capacidade do tumor de escapar do sistema imune", disse. 

A promessa, portanto, não está em uma única vacina capaz de acabar com todos os tipos de câncer, mas em uma nova forma de tratamento personalizado, que usa as características genéticas de cada tumor para orientar o próprio sistema imunológico do paciente. O próximo passo será descobrir até onde essa estratégia consegue chegar — e para quais pacientes ela realmente poderá fazer diferença.

  • Google Discover Icon
postado em 21/08/2026 16:15
x