Longevidade

Em camundongos, canetas de emagrecimento retarda envelhecimento

Experimento com camundongos fêmeas mostra que, além das melhoras metabólicas obtidas pela perda de peso, o uso da semaglutida foi associado ao aumento da sobrevida e ao incremento de funções musculares e cognitivas

Os cientistas analisaram diversos parâmetros metabólicos e cognitivos nos animais que sofreram restrição calórica e naqueles que também receberam semaglutida  -  (crédito: Wikimedia Commons/Divulgação )
Os cientistas analisaram diversos parâmetros metabólicos e cognitivos nos animais que sofreram restrição calórica e naqueles que também receberam semaglutida  - (crédito: Wikimedia Commons/Divulgação )

Utilizada no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, a semaglutida — substância de algumas "canetas emagrecedoras" — conseguiu retardar sinais associados ao envelhecimento e prolongar a vida de camundongos idosos. Segundo os autores do estudo, publicado na revista Nature, a descoberta abre caminho para que os medicamentos que ativam o receptor do hormônio GLP-1 possam, futuramente, ser usados como ferramenta do envelhecimento saudável. Ainda não se sabe, porém, quando será possível testar essa indicação em humanos. 

Anteriormente, estudos haviam constatado, também em animais, que os chamados análogos do GLP-1 retardam o início de doenças associadas à idade. Agora, porém, os cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, conseguiram evidências de que esses medicamentos podem retardar o envelhecimento fisiológico em organismos saudáveis. 

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Segundo Rafael de Cabo, pesquisador de gerontologia do Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, que não participou do trabalho, caso comprovada em estudos maiores, a descoberta poderia associar os benefícios generalizados dos GLP-1 a uma fonte comum. "A maioria das doenças crônicas está profundamente enraizada no processo de envelhecimento. Se os agonistas do GLP-1 realmente o retardarem, então uma ampla gama de benefícios clínicos é exatamente o que se esperaria ver", disse o médico em um comentário sobre o artigo. 

Funções

Para entender o impacto da semaglutida quando os efeitos do envelhecimento são mais pronunciados, os autores do estudo, liderados por Danica Chen, administraram a substância a camundongos fêmeas de 20 meses — uma idade avançada para esses animais. Em comparação com um grupo de controle, os roedores tratados com o medicamento tiveram melhora nas funções muscular e cognitiva. A análise da expressão gênica mostrou que diversas características naturais da senescência, como aumento da inflamação e redução da capacidade regenerativa, foram atenuadas nos espécimes tratados.

Outro grupo de camundongos que recebeu semaglutida até o fim da vida alcançou uma longevidade mediana quase 100 dias maior do que a dos roedores não tratados (834 dias contra 742). Os pesquisadores observaram que a idade da morte pareceu ser retardada em diferentes categorias de causas, inclusive condições não relacionadas a tumores. 

Em seguida, os autores compararam a semaglutida com a restrição calórica para verificar se seus benefícios eram simplesmente devidos à redução da ingestão de alimentos ou a algum outro fator. Durante cinco meses, cientistas administraram substância a um grupo de camundongos fêmeas de 20 meses. O outro grupo recebeu uma dieta com restrição calórica de 24%, que correspondia ao padrão alimentar dos animais tratados. 

Memória

Os autores traçaram diversos paralelos entre os dois grupos, com a maioria das medidas fisiológicas permanecendo estáveis. No entanto, as fêmeas tratadas com semaglutida superaram os níveis basais (condição mínima de funcionamento de um organismo) em comportamento exploratório, memória espacial e manutenção da glicemia. Também houve diferença na taxa metabólica, reduzida nos animais com restrição calórica, mas inalterada nos animais tratados com GLP-1. 

Segundo os pesquisadores, as diferenças observadas apontam para a possibilidade de que os medicamentos GLP-1 atuem em uma via biológica independente da restrição calórica. "Desvendar essa possível via e os benefícios que podem advir especificamente dela é uma direção importante para futuras pesquisas no desenvolvimento de intervenções que promovam a longevidade", disse Chen, em nota.

"Em relação aos efeitos observados sobre inflamação, envelhecimento celular e formação de novos neurônios, os benefícios foram superiores quando a restrição calórica foi associada à semaglutida", observa o médico nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação de Nutrologia do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. "O estudo não prova uma associação direta, mas levanta a hipótese de que ela existe."

Qualidade

Embora as descobertas não implicam que resultados semelhantes serão obtidos imediatamente em humanos, Giorelli destaca a relevância do estudo. "No artigo, está claro que houve uma extensão tanto do tempo de sobrevida como uma melhora no que os autores chamaram de healthspan, a qualidade de vida desses animais", diz. "A informação que o artigo traz — a de que, além da restrição calórica, aparentemente existe um benefício extra dos medicamentos GLP-1 em relação ao envelhecimento — é muito relevante. É uma nova fronteira que se abre", opina. 

"Se esses resultados obtidos em camundongos se confirmarem em humanos, isso indica que pessoas que utilizam agonistas do GLP-1 podem se beneficiar do retardo do envelhecimento, além de auxiliar na redução do diabetes e da obesidade", acredita Tara Spires-Jones, chefe de divisão do Instituto de Pesquisa em Demência do Reino Unido na Universidade de Edimburgo. "A boa notícia para quem não utiliza esses medicamentos é que o aumento na produção de novos neurônios no cérebro e as melhorias na função cognitiva observadas pelos cientistas provavelmente se devem ao fato de os camundongos que receberam semaglutida se movimentarem mais do que o grupo de controle, visto que a atividade física é conhecida por promover a saúde cerebral de maneira semelhante, mesmo sem o uso de agonistas do GLP-1."

Palavra de especialista

Robson Nunes, nutrólogo da Rede Cade (DF)
Robson Nunes, nutrólogo da Rede Cade (DF) (foto: Arquivo pessoal)

Estratégias não farmacológicas 

"No estudo, alguns benefícios foram mais pronunciados no grupo tratado com a semaglutida, particularmente em exploração espontânea, memória espacial e tolerância à glicose. Esses achados levantam a possibilidade de que a ativação do receptor GLP-1 produza efeitos metabólicos e celulares que não sejam completamente explicados apenas pela redução do consumo calórico. O estudo propõe que a substância possa atuar, pelo menos em parte, como um "mimético da restrição calórica", reproduzindo algumas respostas metabólicas e moleculares associadas à redução energética. Isso não significa, entretanto, que a semaglutida possa ser classificada atualmente como um medicamento antienvelhecimento. A principal mensagem para a prática clínica é que muitos dos mecanismos observados também podem ser estimulados por estratégias não farmacológicas, especialmente alimentação adequada, controle da adiposidade, atividade física e restrição energética individualizada quando indicada. A diferença fundamental é que uma restrição calórica inadequadamente conduzida pode favorecer perda de massa muscular e deficiências nutricionais, particularmente em indivíduos idosos."

Robson Nunes, nutrólogo da Rede Cade (DF) 

Duas perguntas para

Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem)

É possível falar que a semaglutida está associada ao aumento da longevidade, a partir das descobertas descritas no estudo?

Não, pois ainda é um dado pré-clínico. O que nós podemos avaliar sobre os efeitos dos medicamentos GLP-1 em seres humanos são os dados que já temos de estudos controlados, randomizados e prospectivos, como redução da ocorrência de eventos cardiovasculares e da progressão de doença renal crônica. Ou seja, nós temos dados que sugerem benefícios em relação a doenças específicas — doenças essas que estão associadas ao aumento de mortalidade. Mas a gente não consegue ainda transpor informações de pesquisas com animais para seres humanos. Apesar de ser pré-clínico, porém, é um estudo muito bem desenhado que tenta fechar de múltiplas formas os aspectos relacionados ao envelhecimento e à longevidade. E isso é um mérito. 

Os efeitos encontrados no estudo podem ser consequência da perda de peso ou são evidências de uma ação direta do GLP-1 nos mecanismos do envelhecimento?

É difícil a gente separar isso claramente. Em alguns estudos com seres humanos, como, por exemplo, o Essence, que pesquisou a semaglutida no tratamento de doença hepática gordurosa, foram analisadas questões específicas em subgrupos, o que permitiu separar a parte do efeito da perda de peso daquela da medicação. A suposição é que parte desses efeitos benéficos estejam relacionados à restrição calórica e de gordura corporal e à melhora metabólica global. Outra parte desses efeitos pode estar associada diretamente à ação dos agonistas de GLP-1. Então, há uma possibilidade de ambos.

 

 

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postado em 03/09/2026 05:01
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