
Utilizada no tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, a semaglutida — substância de algumas "canetas emagrecedoras" — conseguiu retardar sinais associados ao envelhecimento e prolongar a vida de camundongos idosos. Segundo os autores do estudo, publicado na revista Nature, a descoberta abre caminho para que os medicamentos que ativam o receptor do hormônio GLP-1 possam, futuramente, ser usados como ferramenta do envelhecimento saudável. Ainda não se sabe, porém, quando será possível testar essa indicação em humanos.
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Anteriormente, estudos haviam constatado, também em animais, que os chamados análogos do GLP-1 retardam o início de doenças associadas à idade. Agora, porém, os cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, conseguiram evidências de que esses medicamentos podem retardar o envelhecimento fisiológico em organismos saudáveis.
Segundo Rafael de Cabo, pesquisador de gerontologia do Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, que não participou do trabalho, caso comprovada em estudos maiores, a descoberta poderia associar os benefícios generalizados dos GLP-1 a uma fonte comum. "A maioria das doenças crônicas está profundamente enraizada no processo de envelhecimento. Se os agonistas do GLP-1 realmente o retardarem, então uma ampla gama de benefícios clínicos é exatamente o que se esperaria ver", disse o médico em um comentário sobre o artigo.
Funções
Para entender o impacto da semaglutida quando os efeitos do envelhecimento são mais pronunciados, os autores do estudo, liderados por Danica Chen, administraram a substância a camundongos fêmeas de 20 meses — uma idade avançada para esses animais. Em comparação com um grupo de controle, os roedores tratados com o medicamento tiveram melhora nas funções muscular e cognitiva. A análise da expressão gênica mostrou que diversas características naturais da senescência, como aumento da inflamação e redução da capacidade regenerativa, foram atenuadas nos espécimes tratados.
Outro grupo de camundongos que recebeu semaglutida até o fim da vida alcançou uma longevidade mediana quase 100 dias maior do que a dos roedores não tratados (834 dias contra 742). Os pesquisadores observaram que a idade da morte pareceu ser retardada em diferentes categorias de causas, inclusive condições não relacionadas a tumores.
Em seguida, os autores compararam a semaglutida com a restrição calórica para verificar se seus benefícios eram simplesmente devidos à redução da ingestão de alimentos ou a algum outro fator. Durante cinco meses, cientistas administraram substância a um grupo de camundongos fêmeas de 20 meses. O outro grupo recebeu uma dieta com restrição calórica de 24%, que correspondia ao padrão alimentar dos animais tratados.
Memória
Os autores traçaram diversos paralelos entre os dois grupos, com a maioria das medidas fisiológicas permanecendo estáveis. No entanto, as fêmeas tratadas com semaglutida superaram os níveis basais (condição mínima de funcionamento de um organismo) em comportamento exploratório, memória espacial e manutenção da glicemia. Também houve diferença na taxa metabólica, reduzida nos animais com restrição calórica, mas inalterada nos animais tratados com GLP-1.
Segundo os pesquisadores, as diferenças observadas apontam para a possibilidade de que os medicamentos GLP-1 atuem em uma via biológica independente da restrição calórica. "Desvendar essa possível via e os benefícios que podem advir especificamente dela é uma direção importante para futuras pesquisas no desenvolvimento de intervenções que promovam a longevidade", disse Chen, em nota.
"Em relação aos efeitos observados sobre inflamação, envelhecimento celular e formação de novos neurônios, os benefícios foram superiores quando a restrição calórica foi associada à semaglutida", observa o médico nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação de Nutrologia do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. "O estudo não prova uma associação direta, mas levanta a hipótese de que ela existe."
Qualidade
Embora as descobertas não implicam que resultados semelhantes serão obtidos imediatamente em humanos, Giorelli destaca a relevância do estudo. "No artigo, está claro que houve uma extensão tanto do tempo de sobrevida como uma melhora no que os autores chamaram de healthspan, a qualidade de vida desses animais", diz. "A informação que o artigo traz — a de que, além da restrição calórica, aparentemente existe um benefício extra dos medicamentos GLP-1 em relação ao envelhecimento — é muito relevante. É uma nova fronteira que se abre", opina.
"Se esses resultados obtidos em camundongos se confirmarem em humanos, isso indica que pessoas que utilizam agonistas do GLP-1 podem se beneficiar do retardo do envelhecimento, além de auxiliar na redução do diabetes e da obesidade", acredita Tara Spires-Jones, chefe de divisão do Instituto de Pesquisa em Demência do Reino Unido na Universidade de Edimburgo. "A boa notícia para quem não utiliza esses medicamentos é que o aumento na produção de novos neurônios no cérebro e as melhorias na função cognitiva observadas pelos cientistas provavelmente se devem ao fato de os camundongos que receberam semaglutida se movimentarem mais do que o grupo de controle, visto que a atividade física é conhecida por promover a saúde cerebral de maneira semelhante, mesmo sem o uso de agonistas do GLP-1."
Palavra de especialista
Estratégias não farmacológicas
"No estudo, alguns benefícios foram mais pronunciados no grupo tratado com a semaglutida, particularmente em exploração espontânea, memória espacial e tolerância à glicose. Esses achados levantam a possibilidade de que a ativação do receptor GLP-1 produza efeitos metabólicos e celulares que não sejam completamente explicados apenas pela redução do consumo calórico. O estudo propõe que a substância possa atuar, pelo menos em parte, como um "mimético da restrição calórica", reproduzindo algumas respostas metabólicas e moleculares associadas à redução energética. Isso não significa, entretanto, que a semaglutida possa ser classificada atualmente como um medicamento antienvelhecimento. A principal mensagem para a prática clínica é que muitos dos mecanismos observados também podem ser estimulados por estratégias não farmacológicas, especialmente alimentação adequada, controle da adiposidade, atividade física e restrição energética individualizada quando indicada. A diferença fundamental é que uma restrição calórica inadequadamente conduzida pode favorecer perda de massa muscular e deficiências nutricionais, particularmente em indivíduos idosos."
Robson Nunes, nutrólogo da Rede Cade (DF)
Duas perguntas para
Paulo Miranda, coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem)
É possível falar que a semaglutida está associada ao aumento da longevidade, a partir das descobertas descritas no estudo?
Não, pois ainda é um dado pré-clínico. O que nós podemos avaliar sobre os efeitos dos medicamentos GLP-1 em seres humanos são os dados que já temos de estudos controlados, randomizados e prospectivos, como redução da ocorrência de eventos cardiovasculares e da progressão de doença renal crônica. Ou seja, nós temos dados que sugerem benefícios em relação a doenças específicas — doenças essas que estão associadas ao aumento de mortalidade. Mas a gente não consegue ainda transpor informações de pesquisas com animais para seres humanos. Apesar de ser pré-clínico, porém, é um estudo muito bem desenhado que tenta fechar de múltiplas formas os aspectos relacionados ao envelhecimento e à longevidade. E isso é um mérito.
Os efeitos encontrados no estudo podem ser consequência da perda de peso ou são evidências de uma ação direta do GLP-1 nos mecanismos do envelhecimento?
É difícil a gente separar isso claramente. Em alguns estudos com seres humanos, como, por exemplo, o Essence, que pesquisou a semaglutida no tratamento de doença hepática gordurosa, foram analisadas questões específicas em subgrupos, o que permitiu separar a parte do efeito da perda de peso daquela da medicação. A suposição é que parte desses efeitos benéficos estejam relacionados à restrição calórica e de gordura corporal e à melhora metabólica global. Outra parte desses efeitos pode estar associada diretamente à ação dos agonistas de GLP-1. Então, há uma possibilidade de ambos.
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