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Como as rãs venenosas aprenderam a transformar toxinas em defesa

Estudo detalha os passos que permitiram aos anfíbios deixar de apenas tolerar toxinas para usá-las como uma sofisticada arma de defesa

Dendrobates tinctorius, uma das rãs-de-veneno analisadas no estudo: a espécie não apenas sequestra alcaloides dos insetos que ingere, como os modifica antes para que não sejam degradados pelo organismo -  (crédito: Taran Grant/IB-USP)
Dendrobates tinctorius, uma das rãs-de-veneno analisadas no estudo: a espécie não apenas sequestra alcaloides dos insetos que ingere, como os modifica antes para que não sejam degradados pelo organismo - (crédito: Taran Grant/IB-USP)

A capacidade das rãs venenosas de acumular toxinas de sua dieta não surgiu de forma repentina, mas por meio de um processo de adaptação gradual. Um estudo publicado na revista "Proceedings of the Royal Society B" demonstrou a existência de "estágios intermediários" na evolução dessa habilidade.

Ao oferecer dietas controladas a diferentes espécies, cientistas observaram que alguns anfíbios conseguem reter apenas traços de alcaloides, toxinas presentes em insetos, sem se intoxicar. A descoberta ajuda a entender como a evolução transformou a tolerância ao veneno em uma arma de defesa.

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As rãs coloridas da família Dendrobatidae se alimentam de formigas e ácaros repletos de alcaloides, que seriam letais para outros animais. Para usar a refeição como um escudo, a rã precisa de um mecanismo biológico triplo: ingerir o veneno sem adoecer, transportá-lo do sistema digestivo para a pele e armazená-lo em suas glândulas.

“Deve ter havido vários passos para a evolução de um fenótipo que não sequestra para o que sequestra e mesmo modifica os alcaloides”, conta Adriana Jeckel, primeira autora do artigo.

Para mapear essa engenharia fisiológica, os pesquisadores forneceram doses controladas de alcaloides sintéticos a várias espécies de rãs. O objetivo era rastrear o destino das toxinas no fígado, na pele e nas fezes dos animais.

A investigação foi conduzida no Instituto de Biociências da USP (IB-USP) com apoio da FAPESP, do Instituto Butantan e de universidades dos Estados Unidos e do Japão.

As quatro etapas da evolução

Os resultados revelaram que a evolução dessas defesas ocorreu em ao menos quatro grandes fases. O primeiro estágio é o de animais como a rã Dryophytes cinereus, que não acumula toxinas, pois seu organismo metaboliza e elimina o veneno de forma eficiente.

Em seguida, surge um estágio intermediário, representado pela rã Allobates femoralis. A espécie ingere os alcaloides em segurança e armazena uma quantidade mínima na pele, enquanto degrada a maior parte do composto. “Mesmo quando não acumulam, possuem mecanismos muito eficientes do ponto de vista evolutivo para não se intoxicar”, diz Jeckel.

O terceiro estágio evolutivo é o das verdadeiras rãs-de-veneno, como a Adelphobates galactonotus e a Dendrobates tinctorius. Elas capturam e acumulam na pele de 10 a 100 vezes mais alcaloides que as espécies dos grupos anteriores.

Por fim, há o quarto estágio, de espécies como Dendrobates auratus e Ranitomeya ventrimaculata. Elas não apenas sequestram as toxinas, mas também alteram sua estrutura molecular por meio de reações químicas. Essa "reciclagem" bioquímica pode tornar as substâncias mais ativas ou facilitar seu armazenamento.

As descobertas indicam que o sequestro de veneno não foi um salto acidental. A evolução reescreveu a fisiologia metabólica das rãs, transformando um mecanismo de desintoxicação em uma sofisticada estratégia de sobrevivência.

*Com informações da Agência Fapesp

Uma ferramenta de IA foi usada para auxiliar na produção desta reportagem, sob supervisão editorial humana.

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postado em 16/09/2026 09:02 / atualizado em 16/09/2026 09:03
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