
Uma mutação genética hereditária rara pode aumentar em até 62 vezes o risco de câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram, segundo um estudo de grande escala publicado, ontem, na revista Science. A pesquisa, liderada por Jaclyn LoPiccolo, cientista do Instituto de Câncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, analisou dados genéticos de 3,37 milhões de pessoas de ascendência europeia para quantificar com precisão o impacto da variante EGFR T790M, cuja raridade impedia estimativas confiáveis até agora.
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Segundo a publicação, ser portador da mutação hereditária foi associado a um risco cerca de 25 vezes maior de desenvolver câncer de pulmão na população geral. O efeito é ainda mais dramático entre não fumantes: nesse grupo, o risco foi aproximadamente 62 vezes maior. No mesmo banco de dados, o tabagismo, principal fator de risco conhecido para a doença, foi associado a um aumento de cerca de 4 vezes.
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Para os cientistas, a descoberta ajuda a entender um paradoxo da oncologia atual. Embora a maioria dos casos de câncer de pulmão ainda esteja ligada ao cigarro, a quantidade de não fumantes com a doença tem crescido e se tornado uma preocupação global. A equipe alerta que, como esses tumores continuarão acometendo a população mesmo com a queda contínua do tabagismo, entender os fatores hereditários por trás deles é indispensável.
A variante EGFR T790M já era conhecida por aumentar a suscetibilidade ao adenocarcinoma de pulmão, principalmente quando ocorre com uma segunda mutação no gene EGFR, que impulsiona o crescimento do tumor. O novo estudo confirma que o risco é específico para o pulmão, os autores não encontraram associações significativas da mutação com outros tipos de cânceres ou com doenças respiratórias.
Fernando Vidigal, oncologista do Hospital Brasília e diretor regional de Oncologia da Rede Américas em Brasília, detalha que nem toda pessoa que apresenta a mutação EGFR T790M vai desenvolver câncer de pulmão. "Trata-se de uma predisposição, e outras alterações precisam se somar para que a doença se desenvolva." Ele explicou a situação usando uma analogia, como se ter a mutação fosse portar um revólver, mas que, ainda sim, para atirar, seria necessário apertar o gatilho. "O aumento de risco apontado no estudo — de cerca de 62 vezes — é um risco relativo. Isso não significa, por exemplo, que 62 em cada 100 pessoas com a mutação necessariamente desenvolverão câncer."
Mapa da mutação
Outro ponto revelado pela análise foi o mapa da mutação nos Estados Unidos. Os portadores estão concentrados de forma desproporcional no sul dos Montes Apalaches, com maior frequência no Tennessee e no Alabama. Para os pesquisadores, o padrão indica uma origem europeia, a variante teria chegado à região com britânicos e irlandeses durante o período colonial e se tornado mais comum devido ao isolamento relativo dessas populações ao longo dos séculos.
Márcio Almeida, oncologista e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), diz que não há indicação para testar toda a população. "A investigação pode ser considerada principalmente em famílias com vários casos de câncer de pulmão, sobretudo em não fumantes, em pessoas com câncer pulmonar multifocal ou quando a T790M aparece no exame molecular do tumor e existe suspeita de que seja hereditária. Nesses casos, o aconselhamento genético é importante."
Segundo Almeida, não fumar continua sendo a principal forma de prevenção do câncer de pulmão. "Mas hoje sabemos que o cigarro não conta toda a história. Em algumas pessoas, a genética também pode ter um papel importante."
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